por que o centro (alô, lucia valentim!, alô, sampacentro! sou fã de vocês!) anda me perseguindo? hoje foi vez da estação são bento… a estação são bento respira hip hop, é impressionante. e o centrão me parece um lugar cada vez mais bonito, arrumado e civilizado. embora os rappers reclamem (com razão) da “faxina” que as “otoridades” “promoveram” na estação, lá nas entranhas da são bento é chocante: tudo hoje é organizado, arrumado, bonito, civilizado. os meganhas podem reprimir os manos, impedi-los de zoar por ali (eles o fazem, e isso é selvageria), mas a história não esquecerá jamais que foram os rappers, os supostos “desordeiros”, que re-civilizaram aquela região.
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procure passear pela rua são bento (de preferência num dia ensolarado), pra ver o que é bom pra tosse. é linda, linda, linda de morrer. os calçadões são charmosíssimos, comércios “sofisticados” e surtados engravatados convivem em quase-harmonia com subempregados que gritam “ótica, ótica, ótica, otca, otca” em moto contínuo, com lojas tem-de-tudo, com senhores vestidos de palhaço anunciando no microfone a ilha da fantasia dos empréstimos populares. e, embora tudo respire hip hop, à procura de fitas virgens encontrei lá uma loja “popular” de cds, sensacional. o disco mais caro custava R$ 14,99, e tinha de tudo (trouxe um zeca pagodinho antigo, bem do começão), de samba a rap, de mpb “séria” a rock gringo, de música clássica a calypso. tudo a precinhos baratinhos, mano(a), tá marcando touca.
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tem um dos pais atávicos e simbólicos do rap que tá voltando mais uma vez. é o j.t. meirelles, o homem que formatou o primeiro som de jorge ben, o “samba esquema novo” (companhia brasileira de discos/philips, 63), o passo adiante na história da bossa nova, o passo à frente na história do samba, o pulo do gato na história da música brasileira. naquela época de samba-jazz, do jair rodrigues cantando “deixa isso pra lá”, de cantores de protesto e “rappers” do iê-iê-iê se cansando quase juntos da bossa nova. pois o meirelles tá com disco novo no forno, e vai sair de novo pela dubas, a gravadora independente do ronaldo bastos, dândi do clube da esquina e amigão do anjo deserdado torquato neto. [antes da dubas, meirelles, que é um negão que nasceu bem branquelo, estava às moscas, zanzando meio perdido por copacabana. tive o prazer de entrevistá-lo, é história viva e ambulante]. segundo me diz a dubas (alô, feliphe!), o disco novo é “uma brincadeira com os arranjos que ele fez para o ‘samba esquema novo’, do jorge ben. tô passado. e ansioso.
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e a freira dorothy, hein? como ela morreu, sua morte virou “culpa do governo”, “culpa desse”, “culpa daquele”, tudo isso aí que se ouve em todo canto. nunca tinha ouvido falar nessa freira. se não morresse, permaneceria no anonimato – se não viesse a ser tachada de ridícula, subversiva e perniciosa, como sempre são os caras do mst. agora, pronto, virou instrumento da apontação de dedo, da ansiedade das pessoas pela atribuição de “culpas”. posso trocar “culpa” por “responsabilidade”? e perguntar se os apontadores de dedo também não têm nenhum naquinho de responsabilidade pela morte da freira?
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dorothy é uma coisa “mágico de oz”, né? e stang é quase sting, deus me livre. não gosto muito de freira, mas fui com a cara da dorothy stang quando a conheci, nas fotos. pena que ela já tava morta.
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e o severino, hein? até no congresso nacional, quem diria, os caras estão querendo virar independentes, alternativos, “indies”! agora é moda! é claro que o severino parece ser uma lástima quase completa, com malufismos, ditatorialismos e fobias sexuais expressas com viço e orgulho em currículo e em bravatas. lastimável. lastimou, feriu, machucou. mas, por outro lado, tô nem aí se o pt “perdeu” ou “ganhou”. quero é saber se o brasil perdeu ou ganhou (ou se perdeu e ganhou – porque a gente sabe que em geral tudo costuma se misturar). e queria achar legal ver os legislativos se desamarrando dos executivos, o governo lula tendo diminuído seu poder de fazer a festa da uva, de se entojar de dono todo-poderoso da bola. se é que é isso que vai acontecer com o severino na garupa do poder… – que deus e logunedé (o orixá que também gosta de homem com homem e mulher com mulher) nos protejam e protejam (e pretejem) o severino…
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abominei as sandices do severino, que eu também desconhecia (diz que ele é do baixo clero, será que a freira dorothy também era do baixo clero?). dá uma tentação de abominar o severino, em regra, 100%. mas pelo menos ele é pernambucano.
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lembra do genival lacerda, aquele figuraço que cantava com a barriga (diferente e semelhante da carla perez, que cantava com a bunda)? pois uso as palavras dele pra falar do severino. diz que severina xique-xique montou uma butique para a vida melhorar. que antigamente severina era muito pobrezinha, ninguém quis lhe namorar. a letra do genival era bem preconça, mas escuta aqui, seu severino xique-xique, a gente tá de olho na sua butique, viu? se quiser garfar o nosso pra engrossar a farra dos de-puta-dos, a gente vai engrossar. pode não, bichinho. te cuida, severina.
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antigamente eu não gostava de rap, não conseguia entender, decodificar, assimilar. mas depois mudei (e devo essa, em parte, ao nelson de sá). e, hoje, desculpa aí quem não concorda, acho que quem não gosta de rap bom sujeito não é. é ruim da cabeça. ou doente do pé.
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aliás, nos dias de hoje até o chico buarque e o josé ramos tinhorão já se ligaram na rima, quem diria. o mundo tá mesmo ao contrário e ninguém reparou.
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e um cara importante, paulista, que entende do riscado (não vou dizer quem), me disse: “o funk carioca é o rap do rio de janeiro”. se liga, mermã(o), qual é a diferença entre o charm e o funk? alô, tetine!, alô, comanche!
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a estação são bento, como o rap, parece um caramujo, um caracol, um escargot. é toda bonitinha, estética e rebuscada. se retorce em espiral, se esconde dentro da casca, corcoveia entre a superfície e o subterrâneo. tem antenas. vai bem devagar. e longe.

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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