agora que não é mais carnaval, paro e penso em “calabar”, no “calabar” de chico buarque e ruy guerra. a peça teatral, cujo subtítulo era “o elogio da traição”, foi esquartejada e morta pela censura ditatorial, por doutrinas médici, em 1973. o lp contendo a trilha do musical chegou ao comércio todo mutilado, mas chegou, sob o codinome “chico canta” (phonogram/philips, também 1973). mesmo após mais de 30 anos, o disco continua soando pungente e belo; quanto ao texto da peça, que li há alguns anos (e não fui agora reler), até hoje ele me parece incompreensível, confuso, chatusco. tormenta, náusea e confusão vão e vêm na trilha sonora, mas alguns ardis mantêm acesa a chama de “calabar”. se a censura política andava à toda, chico se espicaçava e escapava por todas as frestas, feito bolinha de mercúrio que foi pressionada [obrigado, taís, pela imagem]. em “calabar”, ainda arriscando tocar em política, aderia ao espírito de um tempo de secos & molhados & marias alcinas e visitava testes comportamentais, inversões sexuais: ora cantava no feminino, travestindo-se de “bárbara”, de “ana de amsterdam” e clamando pelo corpo de seu homem; ora ousava ir além, encenando o tabu no sexo lésbico entre ana e bárbara, sutis “traidoras” num mundo de “traidores”.

pois havia o “elogio” à “traição”, esse que nunca entendi. a história rocambolesca se debruçava sobre o brasil-colônia, fundado/acossado por portugal, por holanda, por pecados rasgados encenados ao sul do equador. a leitura desencantada por sobre o brasil parecia uma atualização da vetusta dialética da malandragem (que de fato chico revisitaria seis anos adiante, também pelo filtro teatral, na “ópera do malandro”). mas suspeito que voltava aplicada às elites culturais, intelectuais, econômicas – às quais afinal o autor nunca deixou de pertencer. se ao “pobre” resta ser malandro ou otário, de duas uma, o “rico” buarquiano parece constituir uma gosma subdividida entre outra dupla do barulho: “traído” e “traidor” (é necessário lembrar que o maniqueísmo governa indistintamente malandros e otários, “traídos” e “traidores”?).

mas, ai, será? ainda nos serve esse visor de um brasil que é fruto podre de “traições” originais, de “pecados” originais (a culpa sexual move a citação cruzada ao sangue lusitando e à sífilis correndo em veias brasileiras, no lindíssimo e tristíssimo “fado tropical”, arranjado, como todo o disco, por edu lobo)? ainda nos servem calabares e capitus? servem, é claro que servem. infelizmente. veja.

os amores seguem regidos pelo elogio à “traição”. é o amante que inicia seu romance aterrorizado pela inevitabilidade da “traição”, que virá mais cedo ou mais tarde (ops, aterrorizado? não seria convicto, previamente convicto? a certeza da “traição” não produz “traição”?). é a “traição” cindindo pessoas em corte maniqueísta, desta vez entre vítimas (o “chifrudo”, a “esposa enganada”, o “corno”) e culpados (a “puta”, a/o “galinha”, os gays “promíscuos”). facas & feridas, irmanadas nas fogueiras das paixões. o amor romântico.

por cima e acima dos amores, as políticas (românticas) seguem orquestradas pelo elogio às “traições”. o elogio à “traição” é valor nacional de agora, principalmente nesses dias em que o pt completa 25 anos, reformado ou deformado, transfigurado ou desfigurado (o adjetivo vai de acordo com a vontade do freguês). o pt “traiu”, lula é “traidor”, o brasil se estrepou mais uma vez (aliás, não é cetro petista: com um mês de governo, já há gente chamando o prefeito chuvoso josé serra de “traidor”). esse é o mote predileto de largo espectro político, acusações partindo de petistas, antipetistas e ex-petistas, de (ex)esquerdistas e (ex)direitistas – afinal, “traição” não tem coloração ideológico, sempre cabe mais um chifre na testa de qualquer um.

ora bolas, mas que porcaria de “traição” é essa? queiram ou não queiram, srs. “traídos” & srs. “traidores”, lula é (ex)excluído que chegou ao poder, e nada que aconteça poderá “trair” essa condição, ou essa ex-condição. ele não “traiu”, não “trai” e não “trairá” sua origem, porque ela corre em seu sangue, como defendia em 1968 o velho “reacionário” nelson rodrigues – ela é inerente, o menino mora para sempre dentro do adulto, por baixo do adulto. por que o ouriço petista, daqueles que acusavam a “traição” quando nem bem seu voto esfriava na urna quentinha? por que o estrebucho antipetista, de quem sempre vomitou ojeriza pelos valores lulistas e hoje cobra, feito carpideira, a não-concretização (ou seja, a não-“traição”) do ideário lulista? o que querem tantas vacas sagradas (entre elas algumas das melhores cabeças do país, de chico a caetano, de teóricos petistas a teóricos tucanos), sempre ruminando e mugindo o “grande fracasso brasileiro”?

não sei, sei lá, entende? mas desconfio. desconfio que os de nós que estamos sempre prontos a acusar “traições” na próxima esquina, no primeiro ato e nos mínimos detalhes

vivemos atormentados não pela “traição” alheia, mas por nossos próprios demônios internos, por nossos fantasmas mais lívidos, flácidos e túrgidos.

por que nos dispomos, bêbados, a sempre deliberar sobre a “traição” alheia? por que não nos atrevemos, tímidos, a nunca nos ajoelharmos diante de nossas próprias “traições”? por que “traídos” não se colocam na fantasia lúcida de “traidores”, por que não vice-versa, em tráfego, trânsito, trâmite? descendo ao fundo do poço, por que não invertemos a noção de “traição” para passarmos a vislumbrar, rútilos, o conceito de auto-traição? eu já me auto-“traí”, você já se auto-“traiu”? já ofuscou sob cinzas de quarta-feira um projeto límpido? já enterrou no fundo do armário (“in the closet”, mr. michael jackson) algum sonho íntimo? já se “traiu”? aposto que já, assim como lula, a torcida da seleção canarinho e os hooligans. e seguirá sendo ainda você, “fiel” a si, enquanto aqui no trópico lula vai alegorizando, lépido, o posto de excluído, no mínimo de ex-excluído. você já foi excluído? já se auto-excluiu? você já foi à bahia, nega? não? já foi, sim.

o chico buarque de “calabar” (não) é o chico buarque de “os saltimbancos”? não é. é?

calabar, calabouço, cala a boca, bárbara, carcará. cala a boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu. a gente não somos inútil.

ufs, mas pra que tantas “aspas” ao redor da palavra “traição” e de suas comensais? porque, porra, “traição” é desígnio tão abstrato quanto vazio, é coisa que não existe – ou, se existe, não tem serventia, servo, serviço, servidão. é entulho (autoritário), traveste anseios, orgulhos e vergonhas mais profundos, íntimos, muitas vezes intocados. pare e pense em si, doçura, dez segundos antes de expulsar o ímpeto de xingar alguém de “traidor”, “puta”, “pilantra” “otário”, “ordinário”, blablablá. porque ninguém aqui é santo, anjo ou demônio. a gente só quer ser feliz & fértil & forte & firme & andar tranqüilamente na favela em que nasceu.

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