então é natal.

no brasil, desde que me conheço por gente (nasci em 1968), um dos mais poderosos sinônimos de “papai noel” atende pelo codinome “roberto carlos”. esse cara, um dos personagens principais do livro que acabei de publicar (“como dois e dois são cinco”, editora boitempo), ficou no entanto mais popular por outro codinome ou apelido ou signo: “rei”. primeiro era mera tramóia publicitária, o pequeno capixaba vestia o manto de “rei da juventude”. o tempo e a juventude passaram, ele virou “rei”, simplesmente.

era cantiga de escárnio e maldizer, pois, afinal de contas, o que significaria ser “rei” num país que não crê na monarquia? o que seria ser um rei sem coroa, sem trono, sem legitimidade? seria ser “roberto carlos”, decidiram as pessoas que zombavam dele e decidiram as pessoas que o admiravam, cheias de medo, pânico, pavor.

conforme os cabelos do “rei” iam ficando brancos, o país que concedera reinado a um monarca manco ia cuidadosamente ocultando um fato tão simples quanto complexo: a alcunha de “rei” existia para maquiar e despistar o que se queria de fato dizer com aquela partícula de três letras. o que rc simbolizava, e todo mundo sabia sem saber que sabia, era, sim, uma palavra-espirro de três letras, mas não “rei”. era “pai”. era difícil lidar com o “pai”, era custoso respeitar aquela figura pela qual se tinha tanta repulsa, era doloroso (e necessário) rejeitar aquele totem pelo qual se sentia tanto respeito.

mas acontece que enquanto isso tudo acontecia por baixo do pano o brasil estava mudando. quando rc resolveu se obcecar pela fama, o “pai” do brasil tinha bigodão, olho virado, piscava um olho para deus e outro para o demo. chamava-se jânio quadros. era “pai” que saía corrido, fugido, banido, como sairia também seu sucessor, joão goulart. conforme roberto rei ia se consolidando, gastava os anos loucos da sua juventude identificando a paternidade pela qual também ansiava a “pais” atrozes que consecutivamente atendiam pelos nomes horríveis-pomposos de humberto castello branco, arthur da costa e silva, emílio garrastazu médici, ernesto geisel, joão baptista figueiredo. quem quereria possuir tal terrível patriarcado invísível? ninguém queria, mas todo mundo ia permitindo, se acomodando, amedrontando, deixando passar, odiando em silêncio seu querido, seu velho, seu amigo.

a história seguia sangrenta. se o “pai” tentava se humanizar, estrebuchava e morria (tancredo neves), deixando-nos aos cuidados de mole pai postiço (josé sarney). o campo de luta se ampliava e nos abria rumos para desacreditarmos de nossa autonomia como filhos desmiolados – elegíamos fernando collor, a pior caricatura de “pai” que qualquer um poderia escolher para si por conta própria. as feridas seriam desinfetadas por mais um “pai” (itamar franco) postiço, embora agora topetudo e já desejoso de resgatar valores de paternidade assumida (pois não foi ele quem ressuscitou o fusca, esse lindo paizão rotundo em forma de carro?). fernando henrique cardoso floresceu em seu próprio pendão, varão de uma raça em evolução e expansão, pai assoberbado enquanto aristocrata, nobre, intelectual, sumidade atuante, semblante ausente.

todos esses roberto carlos foi, na forma líquida das canções.

até que o século virou, e roberto carlos teve que se virar. de repente se andava (re)descobrindo que o pai existia, e não precisava de aspas, nem de carregar a sina da obrigatoriedade de ser genitor de medo, repulsa, aversão, indiferença, ingratidão. o brasil entrava em parafuso, enquanto dava passo rumo a suposto abismo e elegia luiz inácio lula da silva como pai. os artistas, essas antenas do espírito não-santo do tempo, não tardaram a perceber. nos palcos da periferia, jorge ben jor aceitou apadrinhar o carrancudo mano brown, mc racional de rap e rebeldia. joão donato foi ser pai adotivo de marcelo d2 (enquanto donatinho, filho de donato em pessoa, assistia a tudo endiabrado, um sorriso sublime estampado no rosto). nas telas-janelas semicerradas, eduardo coutinho e joão moreira salles assumiram e explicitaram contradições, amores e conflitos geracionais, indo pintar feito irmãos gêmeos a riqueza dos retratos paternos de “peões” e “entreatos”.

no filme de coutinho, a filha jornalista de pai operário caído carcomido pelo tempo subia as raias da emoção, cantando à capela para tentar fazer cantar a voz de seu pai. a cantiga de amor de ambos era “debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, de pai roberto. a moça ainda ia além, lembrando de como seu pai gostava de “quando as crianças saírem de férias”, aquela canção em que pai roberto reclamava do incômodo que significavam dentro de uma relação conjugal os filhos.

em “entreatos”, documentário sobre a eleição de lula, o imigrante nordestino ex-operário de nove dedos se encarregava em pessoa de soldar a ligação com roberto carlos, que era pai dele também. pedia no carro para ouvir “aquele” cd, “aquele do roberto”. entre um afazer de candidato e outro, cantarolava “amada amante” pensando em sua marisa, em mãe marisa.

então é natal de 2004, meio mandato, e pai lula foi à imprensa advogar que o problema do brasil é a falta de afeto, aquilo mesmo que roberto carlos sempre transbordou, mesmo que fosse a seu modo torto como dois e dois são cinco. pela primeira vez desde tempos imemoriais, devolvíamos à figura de presidente a persona do pai atuante, do pai presente, do pai suburbano que deixa o cachorrinho de fita cor-de-rosa reinar absoluto no apartamento no dia em que receberá a notícia pré-anunciada de que foi eleito presidente do brasil. roberto carlos decodificou a senha antes que qualquer um, foi se tratar do transtorno obsessivo-compulsivo de que sofria desde o dia do descobrimento do brasil, desde o dia do índio (roberto carlos nasceu no dia 19 de abril, dia do índio), desde quando o brasil transtornou.

o pai, até que enfim, deixava de ser mera abstração pendurada na parede. sabia que o que seus filhos precisavam era de afeto, e que isso ele podia simbolizar, mesmo que não pudesse cumprir a promessa de pretensões semidivinas de elevar a fome ao grau zero. sabia que governava, como pessoa-emblema, a nação de uma multidão de presidentes, mendigos, reis, robertos, carlos, fuscas, lulas, erasmos, pais, wanderléas, mães. acabava o círculo de tempo de esperar que ele, o pai, um dia fosse embora para nunca mais voltar, maninha. agora era hora de o pai ficar, para nunca mais ter de ir embora.

então era natal, 25 de dezembro de 2004. terminava o ano do macaco, o casco do navio quebrava a garrafa de um novo século.

o resto é ficção.

AnteriorSuspense!
Próximoo “che”
Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome