Daniel Adjuto e Regina Duarte
Daniel Adjuto e Regina Duarte durante a entrevista no gabinete da secretária

Mais um retrato do bruto Brasil bolsonarista se esfregou em nossos narizes no início da noite da quinta-feira, 7 de maio. A atriz Regina Duarte, agora no papel de secretária da Cultura de Jair Bolsonaro, dava entrevista ao vivo à CNN Brasil, quando o canal noticioso tentou submetê-la a uma pergunta da colega atriz Maitê Proença, gravada em vídeo. Regina recusou-se peremptoriamente a ouvir a pergunta e deu um “chilique” (expressão usada por ela própria) com o entrevistador Daniel Adjuto e os apresentadores da CNN, enquanto o vídeo de Maitê era exibido na tela. O início e o final do chilique foram testemunhados ao vivo pelos espectadores. Ironicamente, o entrevero aconteceu na jovem CNN Brasil, que estreou em lua de mel com o governo e com Bolsonaro.

Na prática, Regina cometeu um ato de censura peremptória contra os jornalistas da emissora e a ex-colega de novelas da Rede Globo. Nomeada para representar a cultura conforme o bolsonarismo a compreende, ela fez o contrário do que se espera da máxima autoridade federal do setor e remontou aos tempos da ditadura civil-militar, desautorizando previamente uma pergunta durante uma entrevista. No papel de censora, fez lembrar o passado triste do departamento de Censura dos governos militares, de que ela foi uma das inúmeras vítimas no meio cultural.

Seu comportamento não difere dos atos diários de Bolsonaro no cercadinho dos jornalistas no Palácio do Alvorada. Pelo destempero e pelos termos, faz lembrar em pé de igualdade o malfadado vídeo nazista de seu antecessor na secretaria, Roberto Alvim, que culminou em demissão. Regina tem vivido às turras com o bolsonarismo mais fanático (grupo ao qual demonstra pertencer), em constante ameaça de ser “dispensada” (outro termo dela) pelo chefe.

Antes do barraco, Regina Duarte confundiu o papel de gestora com o de atriz durante toda a entrevista. Proferiu grosserias em forma de chiste. Afirmou que não conhecia Aldir Blanc e que a secretaria de Cultura não deveria virar um obituário. “Não quero arrastar um cemitério de mortos nas minhas costas”, afirmou, no exato momento em que o Brasil registra mais de 600 mortes diárias por coronavírus. Disse que guarda consigo fotos em que Bolsonaro e Sérgio Moro sorriem um para o outro. Empregou uma “colinha” (outra expressão dela) e leu em pedaços de papel aquelas que seriam suas realizações em 60 dias no cargo. Voltou ao chiste do “pum do palhaço” no discurso de posse, referindo-se aos críticos com ironia. Por último, mas mais importante, minimizou a ditadura anterior, cantando trechos do hino informal Pra Frente, Brasil e exclamando: “Sempre houve tortura”.

Mesmo com todas as desavenças e puxadas de tapete que enfrenta, mostrou-se feita à imagem e semelhança de seu chefe, o presidente: nenhum conhecimento da liturgia do cargo, ignorância total dos ritos democráticos, desrespeito brutal à comunidade que representa e aos brasileiros em geral. À parte o desconforto que todos os seus gestos e olhares denunciam, é a pessoa ideal no posto certo, dentro do governo que integra. Palhaços, assistimos perplexos a mais um espetáculo de horror.

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