Eliana Pittman - foto Murilo Alvesso
Eliana Pittman - foto Murilo Alvesso

Em Hoje, Ontem e Sempre, aparecem dois lados da intérprete carioca Eliana Pittman. Primeiro, algo que ela nunca fez antes, a cantora de jazz, samba, bossa nova e carimbó interpreta dez canções diversas, em tempo de voz, violão e percussão, e só. Em seguida, em oito faixas-bônus, é recuperada uma apresentação jazzística em Paris, em 1970, com standards da bossa nova e da então jovem MPB.

O que se esconde atrás desse encontro entre presente e passado é uma história fabulosa, que ficou obscurecida de 1978 em diante, quando Eliana deixou de frequentar regularmente os estúdios de gravação. Adotada como filha pelo saxofonista estadunidense Booker Pittman, Eliana Leite da Silva começou a cantar profissionalmente em 1961, aos 16 anos, em shows e discos de jazz que hoje ela chama de “afrevaiados”.

Filha de paulista com gaúcho, Eliana nunca se fixou num lugar específico que irradiasse sua arte, nem geográfica nem musicalmente. Sem ser exclusivamente jazzista ou sambista ou bossa-novista ou difusora do carimbó do Pará, radicou-se antes num não-lugar. Tal característica cobrou um preço à menina cantora que mais adiante virou uma mulher de voz morna e reconfortante (mas jamais assimilada suficientemente pelo Brasil natal que talvez quisesse dela uma cantora negra de samba, e nada além disso).

Na entrevista a seguir, feita no escritório da gravadora Kuarup, em São Paulo, Eliana faz um balanço de uma história pouco conhecida pelos filhos, sobrinhos e netos da MPB e fala das vicissitudes de ser inclassificável num sistema cheio de classes e castas e nichos.

 

Pedro Alexandre Sanches: Onde você mora atualmente?

Eliana Pittman: Eu moro no Rio de Janeiro.

PAS: Mas morou em mil lugares nesse tempo todo de carreira, não?

EP: É verdade. Eu sou carioca, mas fui criada em São Paulo. Quando a minha mãe conheceu Booker Pittman, ainda fiquei um pouco em São Paulo.

PAS: Eles se conheceram em São Paulo?

EP: Foi no dia em que o Louis Armstrong tocou no Teatro Paramount.
Minha mãe era cabeleireira, costureira, era uma líder negra aqui de São Paulo. Quando ela viu Booker entrando, lembrou que tinha visto uma reportagem na revista O Cruzeiro sobre ele sendo resgatado do Paraná de vício, uma história muito incrível que marcou ela. Quando ele entrou, ela se preocupou que talvez ele não desse conta do recado, porque estava havia tanto tempo fora do ambiente de música, de jazz. Mas Booker arrebentou. Quando terminou, ela foi conversar com ele, e não sei como foi que minha mãe namorou Booker Pittman atrás da igreja da Consolação durante seis meses. Ninguém sabia de nada.

PAS: Atrás da igreja por seis meses (risos)?

EP: Estou falando sério. Booker não queria família, não queria nada. Ele dizia: “Só tenho minha malinha”. E minha mãe tinha uma filha pra criar, como é que ia fazer se estava de olho nele? Ela simplesmente, não sei como fez, me chamou e disse: “Você vai conhecer uma pessoa”.

PAS: Que idade você tinha?

EP: Tinha uns 11 anos. Foi em 1957, 1958. “Ele é estrangeiro, fala enrolado, mas se você gostar dele a gente talvez possa morar junto.” Ela estava se separando do meu pai verdadeiro, que é Orlando Francisco da Silva, dos funcionários do Banco do Brasil, tudo direitinho. Pra encurtar, a gente morou junto e em 1961 eu comecei a cantar. Comecei a cantar em abril de 1961.

PAS: Com 14 anos então?

Eliana e Booker Pittman
Eliana e Booker Pittman

EP: Em setembro de 1961 nós estávamos em Buenos Aires pra fazer uma temporada, porque Booker era muito famoso lá. Quando chegou o final do ano, iam nos levar para Mar del Plata. Daí pra frente, voltei ao Brasil, fui pra Europa. Em 1964 eu já estava nos Estados Unidos, no Jack Parr Show. Consegui recuperar essa fita. De 1964 a 1966 ficamos na América, em 1967 a gente veio ao Brasil e Booker descobriu que tinha câncer de laringe. Como bom americano, ele gostava do Brasil. Se tratou aqui em São Paulo, em 1969 ele morreu. Então eu comecei a cantar com Booker em 1961, ele morreu em 1969, sendo que nos últimos dois anos e meio ele estava doente e eu fui pra tudo quanto é canto, Espanha, Portugal, sempre trabalhando, trabalhando. Ele nasceu dia 3 de outubro de 1909 e morreu em 13 de outubro de 1969. Essas datas, cabalisticamente, são importantes. Quando ele morreu, eu não quis ficar mais. A William Morris era e é até hoje a maior agência de artistas do mundo, e por eu ter feito Jack Parr, éramos contratados dele. Enquanto meu pai estava doente, como sustentei a casa? Viajando, trabalhando, funcionando o tempo todo.

Eliana Pittman no "Momento 68"
Eliana Pittman no “Momento 68” com Lennie Dale (atrás), Caetano Veloso, Gilberto Gil, Walmor Chagas e Raul Cortez

Tem essa foto do Momento 68 (mostra a foto no encarte do CD novo), o maior show de moda e música que o Brasil já teve, dirigido pelo Lívio Rangan. Foi a primeira vez que um show ensaiou em palco armado. Quando terminavam os ensaios desmontava tudo, metia no avião e ia pra tudo quanto é canto. Fomos do Oiapoque ao Chuí, pra Portugal, todo mundo. Era um casting das manequins mais bafônicas, Mila Moreira, maravilhoso. Nesse casting, o maior cachê desse povo todo era o meu. Tanto que quando Guilherme Araújo (empresário dos tropicalistas) soube deu um rolo danado, porque ele achou que isto aqui (aponta para Caetano Veloso Gilberto Gil na foto) era mais importante.

PAS: Na época já tinha isso?

EP: Mas a minha mãe tinha experiência. Booker treinou Ofélia pra ser nossa empresária. Ele falava: “Eliana microphone, Booker saxophone, Ofélia telephone”. E era verdade. Quando ele morreu, pessoal queria que eu voltasse pra América pra fazer uma carreira americana, e eu disse não, não sentia. No dia 31 de dezembro de 1969 eu estava no Cassino de Estoril fazendo show, comendo bacalhau, bebendo vinho e chorando. Morava em Paris. Você vê, eu viajei bastante.

PAS: Nos anos 1970 você continuou assim?

EP: Continuei.

PAS: Quando se estabeleceu no Rio de vez?

EP: Fiquei de 1970 a 1972 e voltei. O pessoal falava que eu era muito boa, mas não vendia disco, que eu era boa, mas só cantava bem em americano. Pessoal não dava colher de chá pra mim, não. Eu acho que fui a primeira dupla sertaneja do Brasil, porque era Pittman & Eliana. Olha em volta, tinha alguma dupla?

PAS: Mas não era caipira, era jazzista…

EP: Sim, mas era uma dupla. Nesse período que ele ficou doente e parou, foi o período da minha adaptação solo. Na minha cabeça nunca passou que um dia eu teria que cantar sozinha, sem ele. Tem gravações no Teatro de Bolso, de Aurimar Rocha, com Antonio AdolfoVictor Manga, se você ouvir até hoje é moderno. Os pianistas tocavam como hoje os músicos não tocam mais. Eram só pianistas maravilhosos. Foi uma adaptação que tive. Quando voltei em 1972 foi que descobri (cantarola “Das 200 para Cá”) “esse mar é meu, leva esse barco pra lá”…

PAS: João Nogueira.

EP: Vendi muito disco, mas eles me sacanearam. Colocaram a música num disco pequenininho, não foi no LP, aquelas confusões de gravadora. Eu sofri bastante na mão de gravadoras. Quando eu estava na RCA, fazendo a produção do primeiro LP…

PAS: O que tem carimbó?

EP: Foi assim: nós fomos viajar pro Nordeste, o avião pousou em São Luís do Maranhão, fomos pra praia do Olho d’Água, ouço aquilo (cantarola). A mulher disse assim: “Isto aqui é do Pinduca“. “Eu sou do Rio de Janeiro, a senhora pode me vender?” “Eu não empresto, não dou e não vendo. É o Pinduca, é o Pinduca.” Aquele nome ficou marcado.

PAS: Isso foi no Maranhão?

EP: No Maranhão, e o Pinduca é de Belém do Pará. Nós voltamos pro Rio, eu tinha um namorado em São Paulo, falei pra ele: “Vai lá na avenida São João e vê um tal de Pinduca, de Belém do Pará. Cata tudo que tem dele e manda pra mim”. Ouvi todos os volumes do Pinduca, fiz a montagem. Sempre gostei de trabalhar assim, montar, juntar, aprendi com Booker. inclusive escutei agora o nosso primeiro disco na Mocambo, gravado em Recife, com orquestra pernambucana tocando jazz  completamente afrevaiado, um jazz de frevo. E eu canto minha primeira música, “mama don’t want no music play here”, em que Booker faz todas as variações e ainda manda eu cantar bossa nova. Eu canto, gente, e eu fazendo bebop… Quando eu escuto hoje em dia digo “como eu era louca”.

"Eliana e Brooker Pitman", 1962
“Eliana e Brooker Pitman”, 1962

PAS: Como você aprendeu tudo isso?

EP: Eu não sei. Eu escutava Ella FitzgeraldSarah Vaughan, porque ele tocava dentro de casa. Gente, eu era totalmente sem noção. Eu não tinha noção da grandiosidade que o Booker era. E ele, naquela humildade dele, compartilhou isso comigo de uma maneira tão sem pudor. Ele nunca me criticou, só me ensaiava pra ficar boa pra cantar. De onde vinha aquilo eu não sei. Não sei, realmente não sei. Mas aí gravamos o carimbó, vendi demais o carimbó. Eu precisava encontrar a minha brasilidade. Como fui criada em São Paulo, na Vila Mariana, Conjunto dos Bancários, quando eu estava na América do Norte, em 1965, Booker falou: “Eliana, você tem que saber quem você é. Vamos no Carnaval do Brasil”. Ele morava no Rio, era jazzista da noite de jam, e a escola de samba era uma coisa que estava lá. Minha mãe, paulista, “escola de samba, ãhn?”, nem sabia o que era. Menino, nós chegamos aqui em pleno carnaval (cantarola), “e assim, neste cenário de real valor”… Eu ouvi a Mangueira cantando Monteiro Lobato na avenida Presidente Vargas. Eu nunca tinha visto um carnaval na minha vida.

PAS: Pegou em você?

EP: Disse: eu quero gravar essa música. Estava na Copacabana, o pessoal: “Não, não pode, isso é música da Mangueira, da favela, negócio de morro”. Saía da Candelária, chegava na Central do Brasil, o povo inteiro cantava a música. Hoje é outro tipo de mundo. Não queriam deixar, não, hein? Inclusive o pessoal de escola de samba não me dá mérito de ter feito isso. Também não fiz pra ter mérito, mas um dia ainda vão, porque a primeira gravação de samba-enredo que existe no Brasil quem gravou quem foi? Eliana Pittman. Só que como eu não tinha experiência não trouxe pra dentro do estúdio a bateria da escola. Também ia dar um puta rolo, porque não existia técnica de gravar tambor e tamborim. Gravei com sopros (cantarola).

PAS: Jazz afrevaiado?

EP: E daí partiu meu amor pela escola de samba. Voltei pra América do Norte, descobriu que Booker estava doente, assentei, fui pra Europa, quando voltei foi que me sedimentei primeiro com “esse mar é meu” e depois os carimbós. E aí fiquei. Porque acho o seguinte: Sergio Mendes não tem pátria, eu tenho. Quem aqui sabe quem Sergio Mendes é? Apesar que no Brasil ninguém sabe quem é quem, nem Elis Regina. Mas pelo menos eu estou enchendo o saco de todo mundo aí (risos). Eu brinco: você não me conhece, mas a sua avó e a sua tia lembram de mim (gargalha).

PAS: No Brasil, de uma forma geral, se espera ou se esperava que as cantoras negras cantassem samba, e você não era uma sambista pura. Você mistura tudo. Como você se colocava no meio disso tudo?

EP: Não está entendendo que eu não me colocava (ri)? Claro que não, com Booker Pittman, meu pai, meu mentor artístico. Quando comecei a cantar, ele, entendedor de música, disse: “Vou te arranjar um professor de canto, pra ver respiração”. Ele era músico, viu que eu estava precisando. Veio o professor, que era um tenor do Teatro Municipal, lírico. Um dia Booker chega em casa, comecei a cantar, ele: “Acabou a aula”. Por quê? “Eliana (imposta a voz), ‘olha que coisa mais linda, mais cheia de graça’? Você está cantando assim”. Eu queria colocar técnica lírica no samba, não dá certo. Imagina  a minha cabeça com a parte do jazz incrível do Booker e um cantor lírico me ensinando a cantar. Pode parar. Aí, quando fomos pra América do Norte, ele me colocou pra estudar com o professor de canto da Barbra Streisand, o canto certo, que é o canto popular.

PAS: Booker queria você uma cantora popular então?

EP: Com certeza, lógico, claro.

PAS: Você contou a história do samba-enredo do Monteiro Lobato, mas como e quando o samba entrou na sua vida?

EP: Se você ouvir o que eu canto, vai ver que sempre cantei. Você viu a gravação em Paris, em 1970, o que eu canto, com que suingue? Eu acho que só tinha que ter o discernimento do que é o quê. Na época em que eu cantava no Beco das Garrafas, escondida, porque era menor de idade, era bossa nova. Booker, no Beco das Garrafas, no Little Club, era jazz (faz ruídos de jazz pesado). E eu naquele mundo.

PAS: Você cantava no Beco das Garrafas com 14, 15 anos?

EP: Escondida, porque era menor de idade. Só de final de semana.

PAS: Não podia, mas você ia?

EP: É, eu queria cantar, pô (ri).

PAS: No seu verbete na Enciclopédia da Música Brasileira fala “ela cantou no Beco das Garrafas apesar de não fazer parte do movimento da bossa nova”.

EP: Você viu? Você viu como é que é? Bairrista que só. Apesar? Que sacanagem. Olha esta cara aqui de pavor (mostra outra foto do rico encarte do novo CD), é a segunda vez que canto na minha vida. Booker me levou no César de Alencar, mas não me avisou.

PAS: Aprendeu a cantar no susto?

EP: Imagina, aquele auditório que fervia com Emilinha BorbaMarlene, todo mundo. Eu cantei. E estou cantando até hoje.

PAS: Inclusive neste novo disco, você cantou e canta muita bossa nova. Por que não é considerada uma cantora de bossa nova?

EP: Porque não sou cantora de bossa nova. Eu sou cantora do mundo. Eu sou intérprete. Sou intérprete. Canto o que acho bonito e canto o que acho que posso cantar.

PAS: Que é muita coisa.

EP: Sim. Por exemplo, eu não sei cantar em italiano, não me peça. Agora, canto em francês, em espanhol… Eu canto em hebraico, em iídiche. Quando fizemos turnê na Argentina, o empresário disse: “Olha, Booker, vocês querem ganhar mais um dinheirinho? Faz a tua filha cantar umas músicas em hebraico, porque tem muita bar mitzvah aqui”. Eu cantava (ri). Aprendi essas letras tudo, “Hava Nagila”. Quando voltamos pro Brasil, me deu uma professora pra ensinar a cantar bonito em hebraico, ela tocava acordeom e eu cantava as músicas todas em hebraico (canta). E hoje eu pratico a religião hebraica, que viagem.

PAS: Estou olhando pro seu rosto e vendo uma mistura racial grande em você. Talvez isso explique que a sua música seja tão misturada também?

EP: Nada a ver, por quê? O que tem uma coisa a ver com a outra? Lógico que não, nada a ver.

PAS: Não tem mesmo todas as raças em você? Qual é a mistura?

EP: Olha pra mim. A minha mãe nasceu em 1922. O que existia em 1922 de raça no Brasil, nos cortiços? Eram umas casas com um monte de gente morando tudo junto, e tinha italiano, português. Mas a minha avó era negra, o pai da minha avó era negro. De onde que vem, não tenho a menor ideia. O pai do meu pai verdadeiro era um italianão de olho azul misturado com mulato. A mãe dele era negra retinta, mas o filho da puta do italiano comeu ela e deu no que deu. Meu pai era lindo, lindo.

PAS: Você não acha que tem indígena misturado também? Quando você vai lá e se apaixona pelo Pinduca, pelo carimbó…

EP: Não tenho ideia. Não, não, carimbó não é indígena. Carimbó é igarapé. O povo de Belém do Pará é outra raça. Eles têm um ritmo próprio deles. Inclusive tem o seguinte: eles têm preconceito entre eles mesmos. Vou contar um fato. Gravei o carimbó, certo? Fui fazer um show em Belém do Pará, no Clube da Assembleia. Começo a cantar o carimbó. Deu um branco no salão. Aqui não é Belém do Pará? Carimbó não é daqui? Quando terminou o show, o presidente do clube disse: “Vem cá, como você vem cantar coisa dos ribeirinhos no Clube da Assembleia?”. Ué, mas aqui é Belém do Pará, essa música é a música regional de vocês. “Não tem que cantar essas músicas aqui no nosso salão, não, que a gente não gosta.” Assim. O Pinduca sofreu muito preconceito por cantar a música autêntica do Pará. Olha que vergonha pra esse país. Tanto que teve um governador que não vou dizer o nome que me prometeu um título de cidadã paraense e nunca me deu. Eu vou reclamar? Mas teve uma época em que o carimbó era tocado em todas as festas juninas, nas rodas de samba… de carimbó, que não é ciranda, não é nada. Carimbó, eu falo e fico até arrepiada, é carimbó.

PAS: E foi você quem apresentou pro Brasil.

EP: Amém. Eu nunca me preocupei se tenho sangue vermelho, azul, indígena, negro. Eu não me preocupo com isso. Me preocupo em ter a música boa, em interpretar bonito. Quando eu coloco carimbó dentro da minha vida, me sinto carimbó. Quando coloco música francesa como “La Vie en Rose”, me sinto francesa. E nem por isso deixo de ser quem eu sou, porque eu sou tudo isso.

PAS: Me desculpe, acho que isso é um jornalista tentando explicar as coisas. Mas é tão bonito, uma cantora canta MPB, outra canta bossa nova, outra canta samba, outra canta carimbó, e você canta todos. Não é todo mundo que é assim.

EP: Mas acontece que isso me atrapalhou. Isso me atrapalhou naquela fase que era assim: ou só canta samba ou só canta samba-canção ou bolero… As pessoas não admitiam versatilidade. Você ser versátil era crime. Da maneira que eles viam, parecia que eu não tinha personalidade. Mas eu sempre fiz com muita autenticidade. Tanto que italiano não tem nada a ver comigo, mas uma música em francês eu canto. Adoro cantar em espanhol, tanto que cantei Fito Paez, que Rodrigo Faour me apresentou. Eu não tinha noção que Fito Paez era tão maravilhoso. Não é o mundo, eu gosto de trabalhar com ritmos. Quando ouvi a batida do Pinduca, peguei o Cidinho no piano, vamos tentar. Isso eu herdei do Booker. Tenho as gravações, ele e minha mãe me treinavam a cantar em inglês, você não tem noção do que eles faziam comigo – e eu gostava. Mamãe não falava em inglês, mas cantava em inglês comigo. Muito louco, é pra dar muita risada.

PAS: Em 1968 você gravou “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, do Geraldo Vandré.

EP: Sim, reflexo do festival.

PAS: A ditadura não gostava dessa música.

EP: Eu nunca me misturei com isso. O negócio é a música. Inclusive, nessa fase, Booker Pittman estava doente e eu tinha que trabalhar e faturar, meu bem. Passei por cima disso. No mesmo dia em que ele soube que estava doente e não podia mais tocar, ele me comunicou: “Eliana, você vai cantar sozinha hoje, porque eu não vou mais poder tocar com você. Quando chegar em casa eu vou te explicar o que está acontecendo”. Eu falei: vou parar e vou voltar a estudar. “Como voltar a estudar? Eu te ensinei, você sabe fazer. Você vai trabalhar e vai ajudar a sustentar a casa. Se você não trabalhar a gente não tem como fazer”. E foi um dos períodos que mais eu cantei e prosperei. Ele dizia: “Tem um tratamento na puta que o pariu, vai lá e traz”. Tanto que ele mudou pra São Paulo porque é onde estava o melhor tratamento da época, que era cobalto. Olha, era  muito duro. Era muito duro, era difícil. Só machucava. Ele sofreu muito, coitado. E era na laringe, se fosse em outro lugar, mas era na laringe. Ele falava com sotaque: “Não me corta, não quero, quero morrer inteiro”. A gente respeitou. Podia ter vivido mais, mas a gente respeitou a vontade dele.

PAS: No Momento 68, era a tropicália acontecendo. Como você se relacionou com a tropicália?

EP: Era? Mas o meu repertório era bem-humorado, eu era a parte romântica do espetáculo. Acho um pecado não ter fotos e filmagens do espetáculo, é um absurdo. Não sei se pegou fogo. Era um espetáculo muito maravilhoso, muito incrível. Eu cantava “Viola Enluarada”. A gente teve que viajar o Brasil inteiro, e eu saí fora do ônibus dos artistas, porque eles fumavam tanta maconha, gente, eu não aguentava, me embrulhava o estômago.

PAS: Eu ia perguntar disso porque você gravou “Maria Joana”, de Erasmo Carlos Roberto Carlos, que dizem que era sobre marijuana.

EP: Era, era.

PAS: Você sabia?

EP: Claro que sim. E eu me importava com isso? Imagina. Eu quero é mais, (cantarola) “eu quero Maria Joana”. Sempre só lembro do refrão. A música sendo boa, não quero nem saber. Nesse tipo de coisa nunca tive preconceito, não. A música sendo boa, eu queria mais era interpretar bem. E minha versatilidade incomodava todo mundo, achavam que não podia, que tinha que definir. Gente, eu sou indefinida!, vou fazer o quê? Até chegar ao ponto de saber que bossa nova se cantava suavemente e que o rock é outra coisa, levou muito tempo, pra poder conseguir colocar as coisas juntas sem uma maltratar e prejudicar a outra. Hoje graças a Deus tenho esse discernimento, porque a gente já estudou e cantou. Mas naquela época eu queria era cantar, sabe?

PAS: Você falou antes que sofreu com as gravadoras. Era por isso?

EP: Sofri muito. Eles queriam que eu me definisse. E aí tem uma outra barbaridade. Quando eu finalmente consegui fazer o carimbó ficar divino e maravilhoso, a gravadora dizia: “Olha, está maravilhoso o carimbó, só que a gente vai chamar um pessoal aqui da Mangueira, dos morros, pra fazer uns carimbós pra você”. Como é que é? Por favor, me manda pra Belém, eu vou lá pros igarapés, faço uma pesquisa bonita e trago, faço esse disco todinho só de carimbó. Não me deixaram fazer. E chegaram ao ponto de que fiz um filme chamado Lá Menor em que cantei os carimbós linda, magrinha, divina, com Jardel Filho. Lançamos na Espanha, ficou quase um ano em cartaz. Com o tempo, eu vim a descobrir que o pessoal da RCA tinha ido a Madri pra cassar os carimbós do filme, alegando que a produção espanhola não tinha pago os direitos autorais. Olha que fudaça. Não me disseram nada. Falta de respeito.

PAS: E tiraram mesmo?

EP: Não conseguiram, porque estava tudo certo. Mas tentaram. Aí, como eu não quis fazer um carimbó fodido e falso, eles disseram: “Você vai ser a nossa Donna Summer brasileira”. Quê (risos)?, eu batalhando pra provar que sou brasileira? Eu tinha esse trauma. Depois acabou. Por isso sempre digo que (o produtor musical) Thiago Marques Luiz é abençoado, ele achou as fitas, primeiro a do Porão 73, o último show que papai fez com saúde, energia, direitinho. Fizemos o vinil, quem tem tem, quem não tem não tem. Aí Thiago vai lá, “que fita é essa?”, descobre essa fita em francês. Olha que beleza de trabalho está isso aqui. Quando é que no Brasil uma pessoa que está há uma porrada de tempo sem fazer porcaria de nada, com 74 anos nas costas, está sendo admirada? Imagina como é que eu estou me sentindo? Feliz da vida, muito feliz, muito plena, tudo me arrepia. Thiago me trouxe uma felicidade que eu espero que ele traga pra muitas outras pessoas.

PAS: E que traga várias vezes, porque não pode ser só um disco.

EP: Bom, aí… Você não sabe, cheguei em casa e tinha um recado do Péricles pra mim, falando que quer fazer uma coisa comigo. Sabe? A partir daí, meu bem, tudo que vier é lucro, prêmio, reconhecimento que Deus está dando a mim, num país que não tem memória musical, não tem respeito… Essa gravadora Kuarup é abençoada, não só por mim, mas por tudo que faz pela música brasileira. Estou num gabarito, entendeu? Não é qualquer chinfrada, é um chinfrão.

PAS: Está metida.

EP: Estou. Estou podendo. E estou curtindo todo segundo. Porque quando você morre, amor, não fica nada. Fica tudo aqui. Na cabala a gente aprende que quando canta a gente conversa com Deus. O canto te leva diretamente a Deus. O canto é a língua dos anjos. Eu estudo a torá. Meu rabino fala que tenho que fazer um perfume bom, inclusive pra minha raça negra, porque no Brasil a carreira artística não dá. E da maneira que está aqui agora, então, parece que vai ficar pior, né? Está complicado de viver só de música. Mas Deus é tão bom que essa minha vida inteira, 58 anos de carreira, o que você fez mais além de cantar? Nada. Só sei cantar. E como é que fica? Deus está me dando, olha que presentão. Não está bonito?

PAS: Geraldo Azevedo tributa você como descobridora dele.

EP: Com certeza, com certeza. Na época que papai estava doente, Marcos Lázaro conseguiu a TV do Jornal do Commércio, todo domingo eu ia para o Recife. Era orquestra ao vivo, uma loucura. Um dia saímos do programa e fomos pra um dos barzinhos que ferviam, e estava lá o Geraldo tocando. Eu estava no Teatro de Bolso, e precisava de um apoio, voltamos pro Rio, e mamãe tinha um ouvido musical muito forte, falou: “Eliana, aquele rapaz lá…”.

PAS: Foi ela então?

EP: Foi ela. “Ele é legal.” Mas gente, quem ele é?, como a gente vai fazer? “A gente podia trazer ele pra cá.” Putz. Telefonei pra todos os botequins daquela muvuca ali, “um magrinho, feinho”. Geraldo Azevedo. “Você não está a fim de vir, não?” Mandamos a passagem pra ele e fomos pro aeroporto Santos Dumont esperar. Não lembrávamos como era a cara dele. Deve estar com um violão debaixo do braço, nordestino. Era magrinho, só a cabeça, violão embaixo do braço e uma sacola de papel. Não é que ele veio? Tocava (canta) “aquela rosa que você me deu”… Eu cantava com ele. Está no Eliana ao Vivo (1968), ele toca comigo lá (“Aquela Rosa” é a primeira música gravada de Geraldo, na voz de Eliana). Isso é música brasileira. É samba? Eu não cantava bonito? Então, eu nasci pra interpretar as coisas.

"Eliana ao Vivo", de 1968
“Eliana ao Vivo”, de 1968

PAS: Você gravou o mineiro Milton Nascimento, o cearense Ednardo

EP: Também.

PAS: Cantava Villa-Lobos

EP: (Canta.) “Estrela do céu é lua nova cravejada de ouro”, arranjo de Erlon Chaves.

PAS: Maestro de Wilson Simonal.

EP: Não, antes de Simonal Erlon já era Erlon, pelo amor de Deus. Agora me pergunta como é que eu conheci essas músicas. Eu escutava, gostava, gravava e pronto. Música é amor à primeira vista. Sempre foi assim comigo.

PAS: A do João Nogueira como chegou em você?

EP: Pela Odeon. João estava na Odeon, e eu estava montando o disco, “Eliana, põe essa música aí que essa música é boa”. Fizemos, e deu esse resultado, graças a Deus.

PAS: Você gravava muito Picolino da Portela, quem era ele?

EP: Picolino era apaixonado por mim, é do tempo do Teatro Opinião. Eu gostava dele. A música era gostosa, era legal. Eu nunca fui de ir pro medalhão. Eu sempre fui de ir pro tipo periferia.

PAS: Isso era de propósito?

EP: Não, acho que pra dar chance. O medalhão já está pego, vamos pegar os pequenininhos e dar uma força. É por aí.

PAS: É uma grande atitude.

EP: Porque eu acho o seguinte: o palco é pra ser compartilhado. Eu não admito artista que pega o microfone e não compartilha. Eu compartilho mesmo. As pessoas acham que tenho que dar uma de diva. Eu não sou diva, pelo amor de Deus. Não sou diva. Eu sou… Eu não sei me explicar como é que eu sou. Eu faço tudo de coração, não tem nada falso em mim.

PAS: O contrário da diva seria o quê? Uma cantora do povo?

EP: Eu sou popular, não sou popularesca. Gosto de ser popular, quero ser popular, mas não sou… Eu gosto do fino, de coisa bacana. Se tiver que esculhambar a gente esculhamba, mas não é necessariamente. Tem esse lado meu pé no chão, povão, Faour diz que eu tenho que me segurar. Que segurar o quê? Se dá vontade de fazer eu faço. Eles ficam loucos. Eu gosto de dar risada.

PAS: Você fez “Abandono” (1974), do Ivor Lancellotti, antes do Roberto Carlos? Ele pegou de você?

EP: Posso falar? Ivor lancellotti me deu a música, gravei bonito. Aí Ivor foi pra Los Angeles e Roberto estava gravando lá. Ivor apresenta “Abandono” pro Roberto, Roberto gostou. Só que Ivor sabia que Roberto detestava regravação, não disse nada pra Roberto. Quando Roberto soube… Roberto trocou umas palavrinhas, quis dar impressão que ele tinha gravado primeiro, mentira. A primeira gravação de “Abandono” fui eu, e você vê que Roberto nunca me chamou pra cantar “Abandono” com ele. Porque ele não admite que fui eu que lancei “Abandono”. Ele nunca admitiu que ninguém lançasse coisas antes dele. Roberto pegou pé, deu uma merda. Roberto é muito bobo, né? Roberto é bobo, bobão.

PAS: Tenho de fazer a pergunta da capa da revista: o que há entre o Brasa e Eliana Pittman?

EP: Quando Roberto começou na boate Plaza, Booker já estava na boate Plaza. Eu nem pensava em cantar, Roberto visitava Booker na nossa casa. Eu nunca nem pensava que Roberto já cantava.

PAS: Vocês se conhecem desde muito cedo então.

EP: Sim, mas nunca mais a gente se cruzou, assim, de ser amigos. Eu não sou amiga dele. Aliás, Roberto não é amigo de ninguém, né? Tem alguém? Roberto tem mulheres apaixonadas por ele até hoje. Ele enrolou todas elas. Eu admiro pra chuchu. Não sei como ele consegue, não muda uma sílaba da música dele, mesma coisa, mesma coisa, mesma coisa, e está aí. É o único do Brasil. Temos que tirar o chapéu, a calcinha, tudo pra ele.

PAS: E o Caetano Veloso? No começo você gravou Chico BuarqueEdu Lobo, mas não Caetano.

EP: Gozado, será que o “caminhando contra o vento”? Não me lembro. Está vendo como é esse povo do dinheiro? Não me lembro. Tem sim. Quando fiz o teatro do Copacabana Palace, não tem nada do Caetano, não, no Positivamente Eliana?  Tem, menino. No Eliana ao Vivo, no Teatro de Bolso, eu canto o Caetano. Canto, sim. Lá em 1967, 1968.

"Positivamente Eliana", de 1968
“Positivamente Eliana”, de 1968: sem Caetano

PAS: Ele estava no comecinho.

EP: É isso aí. Depois não mais.

PAS: O Gil você já tinha gravado, ou “Drão” é a primeira?

EP: Em Paris, “Aquele Abraço”.

PAS: Que só está sendo lançado agora…

EP: Porque ninguém nem sabia que existia essa fita.

PAS: O repertório desse disco é bem bossa nova.

EP: Tudo, porque era a época. Tinha “A Banda”, “Those Were the Days”, que ele também não entraram (no disco).

PAS: Depois do final dos anos 1970, você só gravou um disco em 1992 e outro em 2003. Por que esse afastamento tão grande dos estúdios?

EP: Se não tem condições, o que você vai fazer? O que estava rolando de música naquela época? Minhas Novas Influências é um disco todo meu. Peguei uma Lei Rouanet, peguei meus músicos, e tudo que está ali é ideia minha musicalmente falando. Fizemos na raça. (Busca na bolsa a revista que acompanhou o CD.) Isto aqui foi trabalho meu. Ninguém tasca, eu vi primeiro. É trabalho meu, lancei em banca de jornal, no Rio de Janeiro. Fiz 10 mil cópias desse CD. Vendi todos. Totalmente independente.

PAS: Como você se sentia nos intervalos, sem gravar?

EP: Eu estava trabalhando, fazendo show. Eu converso muito com Deus. Quando fiz Minhas Novas Influências, falei: Deus, o negócio é o seguinte, o senhor me dá bastante inspiração pra eu fazer uma coisa moderna, pra que ele consiga durar bastante tempo, até  a próxima vez que o senhor me deixar gravar. Levou 17 anos. Estou eu aqui de novo. Agora tem que ser na carreirinha. Vou pegar o Péricles de jeito, não quero nem saber, que venga el próximo. Inclusive faço letra nesse (mostra a revista), eu sei fazer letra direitinho. Quando estou inspirada, eu faço legal. Olha o tanto de patrocínio que teve. Olha que beleza. Todo mundo me deu grana. Hoje em dia não tem mais ninguém pra dar grana, com o negócio da Lava Jato o pessoal tem medo de mostrar que tem dinheiro, ninguém mostra mais nada.

PAS: Como foi a escolha de repertório do disco novo? O que você quis fazer?

EP: A história é linda. Eu não quis fazer nada. Eu estava em casa paradona, de repente tem projeto de Dalva de Oliveira, que Thiago realizou, também do Luiz Gonzaga. Aí chega o Kelson Barros, dono do balé Cebola, Cascas de um Todo. “Eliana, tem um pessoal aqui da periferia, é um balé bonito, eles estão precisando de uma cantora pra cantar um repertório. Você quer cantar? Você tem que ficar sentadinha num canto, é voz e violão e mais nada”. Falei: canto, qual é o problema?, manda o repertório. A gente teve de trabalhar os andamentos, porque tem as coreografias. “Gamei”, por exemplo, é um samba, mas virou uma outra coisa. A gente ensaiou bastante, à exaustão. Fizemos a apresentação em três dias seguidos, eu sentadinha no banco, sem aparecer, só eles brilhando. Muito bonito. Fiquei orgulhosa daquilo, porque inclusive estou acostumada a cantar com bandona, a sentar o cacete. E eu adoro um teclado, meu ouvido é teclado. Aí é violão e percussão, ai.

PAS: O que acontece?

EP: É um outro tipo de feeling, é outra coisa. Thiago ouviu, ouviu, ouviu, falou: “Vem cá, você topa gravar as músicas?”. Topo. Ele é louco, gravei tudo isso num dia só. Nunca mais. Porque cada música tem uma intenção. Nenhuma é igual à outra. Você não pode gravar no automático, porque não sou uma cantora automática. Mas aí, no final das contas, essa consciência só vem agora quando eu escuto. Digo, gente, que merda, como é que a gente consegue fazer isso tudo num dia? A gente ensaiou muito, mas assim mesmo cada coisa é uma coisa, né? E a voz está lá. Eu fiz e nunca mais. Thiago que fez a mixagem, porque eu sou terrível, quando começo a me escutar, depois que gravei, escuto só minha voz, vejo se está afinado ou não, se consigo entender tudo que eu falo. Quando ele disse: “Eliana, que fita é essa que está aqui?”, tivemos que ir à biblioteca de Paris pra descobrir, pra lembrar. A gente não fez com a intenção de nada, só de fazer um CD bonito pra eu poder ter como trabalhar. E deu no que deu, graças a Deus.

PAS: O formato voz e violão foi uma experiência inédita pra você?

EP: Totalmente. Nunca fiz, imagina. É totalmente anti-Eliana Pittman. Essa placidez, sei lá o que é isso, parece que baixa uma entidade e você serve de veículo de luxo. Inclusive eu tinha trauma de estúdio.

PAS: Mesmo?

EP: Tinha, porque as primeiras gravações que eu fiz, tinha um produtor que apagava as luzes e fazia tudo no escuro. Eu sofri. Tinha pavor.

PAS: Isso explica você ter parado de gravar por tanto tempo?

EP: Com certeza, inclusive Booker não ligava muito pra negócio de gravação, não. Ele gostava é de tocar. Eu devo ter pego essa coisa dele, até me dar conta que não pode ser assim.

PAS: O que você sonha gravar daqui pra frente, se o trauma passou?

EP: Passou, graças a Deus. Agora tiro de letra. Gravei tributo à Dalva, ao Gonzagão, ao Dominguinhos. Gente, sou apaixonada pelo Dominguinhos, ele tem cada música totalmente jazz. Se Thiago quiser, vamos embora fazer um monte de coisa. Quando a gente está montando dizem “ah, você tem que se juntar com não sei quem”. Não, primeiramente, por eu estar há tantos anos sem fazer anda, preciso provar que eu sou eu. Depois que eu provar que eu sou eu, se alguém quiser fazer alguma coisa junto, que bênção. Tem que vir de amor. Pra poder dar certo tem que ser feito com amor e sem interesse por mais nada. Aí dá certo.

PAS: Essa é uma outra definição pra esse disco?

EP: Eu falo e esqueço o que falo. Mas total. Absolutamente, um amor compartilhado com as pessoas que participaram. O que é um show? É um puta cenário. Tem que ter um puta cenário, senão parece que o show está menosprezado. Estava vendo por acaso, se você vê o cenário do Luan Santana, de onde é que vem tanta grana pra fazer um cenário daquele? Onde é que fica a música? A música virou uma coisa secundária. Gente, como é que eu vou fazer? Não tenho mais como montar um cenário daquele. Como vou fazer pras pessoas sentirem que tenho um produto bom, um trabalho bom? Eu não tenho cenário de neon. Conversando com as pessoas, dizem: “Ah, Eliana, hoje em dia o vídeo tem que ter muita coisa, se em dois ou três segundos não tiver um negócio que muda ninguém mais quer ver seu vídeo”. Gente!, tudo está muito descartável, não tem tempo pra ver uma coisa bonita em dois minutos?

PAS: Então o disco é exatamente a trilha sonora da montagem?

EP: É. Sem o Fito Paez e sem o samba da Portela.

PAS: O que explica o sucesso que você fez fora do Brasil?

EP: O que você quer dizer com isso?

PAS: Não é todo artista brasileiro que faz sucesso fora.

EP: Mas o sucesso… Já teve, não é uma coisa que ficou pro resto da vida. Já foi. Foi um momento maravilhoso. Eu tive muita sorte de ter vivido na década que vivi. O mundo era maravilhoso, não tinha medo de beijo na boca, eu namorei demais. Não tinha medo da Aids, era uma coisa mais livre. Hoje você tem medo de chegar perto da pessoa, vai namorar pela internet. Não existe nada mais bonito que pele na pele, beijo na boca, é tão bom, né?, eu adoro. Faz tempo que não dou, mas eu gosto. Espero poder treinar de novo. O mundo está muito digital. Eu relutei em assimilar o celular. Mas não tem jeito, eu sucumbi, porque realmente eo danado é bom. Mas eu não sou escrava dele, não. Espero que o mundo entenda que você pode usar isso aqui, mas com parcimônia.

PAS: “Mulata Assanhada” é uma canção que hoje em dia não se poderia cantar, “ah, meu Deus que bom seria se voltasse a escravidão…”.

EP: (Ela canta.) “Ai, meu Deus que bom seria se voltasse a escrtavidão/ eu pegava essa mulata e prendia no meu coração/ e depois a pretoria é que resolvia a questão/ ê, mulata assanhada”. Mudou, o conceito mudou. Olha que viagem. Você não pode mais ter liberdade?

PAS: Mas a luta contra o racismo que existe hoje é uma coisa boa, não?

Em 1965, Eliana frequentou a capa da revista norte-americana de orgulho negro “Ebony”

EP: Eu acho que já devia ter começado há muito mais tempo, quando o Brasil foi descoberto. O Brasil foi descoberto pela pior raça colonizadora, que é o português. O português é o pior colonizador que existe no mundo. Toda essa parte latino-americana vai pro meio da rua, o venezuelano… O que ganhei de dinheiro na Venezuela… Eu chegava, era caixa de Don Perrignon. Era assim que eu era tratada. Você vê a garra que a América Latina tem, estão segurando. O Brasil não está divulgando. Eu sempre achei que o Brasil era rico, mas nunca achei que o Brasil fosse tão rico, porque da maneira que roubam da gente, e a gente continua de pé. Este país, da maneira que colocaram a gente, não deixaram o brasileiro entender que se a energia e força que colocam em porra de partida de futebol colocassem pra defender nosso país, nós não estaríamos como estamos agora.

PAS: Achei bonito você falando sobre a preocupação de mostrar brasilidade.

EP: Eu não sou cega, não sou surda, não sou muda. Se fosse ajudar, eu colocaria minha voz no trombone. Mas infelizmente não vai ajudar, porque seria uma voz no deserto. Por mais que você se una, o negócio está tão enraizado que você não sabe quem é quem. É capitania dos portos, não mudou e não vai mudar mais. A ganância é tão grande. Roubou, ok, mas compartilha, meu Deus do céu. A mulher do Sérgio Cabral tem duas orelhas, pra que tanto brilhante? Está complicado. O Brasil, pra dar jeito, teria que aposentar aquele povo e botar pessoas como eu e como você.

PAS: Você sofreu com racismo durante sua carreira?

EP: Não, porque eu era filha do Booker Pittman, músico americano. Eu tinha um tipo de status. Mas minha mãe, não, ela já teve uma vivência aqui em São Paulo. O avô do Booker era o Booker T. Washington, que fundou a primeira universidade de negros na América do Norte, a Tuskegee, no Alabama. Os aviadores negros que foram pra guerra foram todos formados lá. Todos voltaram com vida. Booker, com todo esse background, não quis ficar na América do Norte. Ele saiu. Queria fazer jazz, se juntou com Louis Armstrong e aquele pessoal todo, foi pra Paris, encontrou a orquestra do Fon-Fon, pegou um navio e veio parar no Brasil, porque ele era contra racismo.

PAS: Quando ele conheceu vocês, já estava aqui fazia tempo?

EP: Ele tinha voltado. Ele veio, fez a carreira dele todinha, foi parar na Argentina, totalmente insano, e teve uma pessoa que levou ele pro Paraná pra ver se conseguia sair do vício. Aí conseguiu sair, no tempo que tava na Argentina ele era muito famoso, tinha delirium tremens, as pessoas botavam cocaína por baixo da porta. Ele quase morreu. Aí veio pra São Paulo. Eu digo que ele viveu pra me dar um nome, uma carreira, o orgulho de ser mulher negra brasileira lutadora honesta decente. Nunca ninguém me chamou de mulata, ele não admitia esse tipo de coisa com a filha dele. Sou a filha do Booker Pittman, ele nunca teve filho nenhum. Deus me deu ele como pai adotivo. No final, o Orlando, meu pai, ajudava a tomar conta do Booker, maior barato.

PAS: Seu sobrenome original era qual?

EP: Eliana Leite da Silva. Leite da Ofélia, Silva do meu pai. Minha mãe nasceu em São Paulo, meu pai no Rio Grande do Sul.

PAS: Daí a misturança.

EP: Ah, não creio. Como falei, meu avô tinha cara e italianão, olho todo bonito, mas era um italiano mulato, não um italiano puro. Era misturado. E a mulher dele era bem pretinha.  A mãe do Orlando, Zulmira, era muito bonita. Minha mãe escutava no rádio o César Ladeira falando “estou no Rio de Janeiro, no Pão de Açúcar, na Baía de Guanabara”, ela idealizava uma imagem do Rio. Aí pensava: “Vou ter uma filha e essa filha vai ser carioca”, juro por Deus. Casou uma vez, não deu certo, o homem morria de ciúmes dela. Fugiu de São Paulo pro Rio com meu pai. Foi onde ela me fez, e eu sou carioca. Um pouco da minha infância eu passei no Rio, depois viemos pra cá.

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