O poeta Antonio Carlos Alvim. Foto: Eduardo Júlio
O poeta Antonio Carlos Alvim. Foto: Eduardo Júlio

Para certas coisas não há tempo certo, acontecem quando e como têm que acontecer. Nada explica o, até aqui, ineditismo em livro do poeta Antonio Carlos Alvim, um dos mais talentosos de sua geração, a Akademia dos Párias que agitou a cena da ilha de São Luís, capital do estado do Maranhão, que tirou a gravata da poesia e transpôs as barreiras entre as academias de (belas) letras e os bares, verdadeiro lugar da poesia – lugar de poesia é na calçada, ave, Sérgio Sampaio!

Floresta de signos. Capa. Reprodução
Floresta de signos. Capa. Reprodução

Talvez Alvim tenha se ocupado de coisas mais úteis – o que é bom para o lixo é bom para a poesia, ave, Manoel de Barros! –, mais pragmáticas, ganhar a vida, o “fazer medicina ou direito, que dá dinheiro”, a eterna recomendação de pais que t/r/emem ao saber da inclinação dos filhos para a poesia, mas isto tudo é pura especulação, que escrevo durante a leitura vertiginosa de “Floresta de signos” [Penalux, 2019, 60 p.], que é impossível folhear impunemente – e faço-o sem conversar com ele.

O fato é que a poesia de Alvim é exatamente o que diz o título deste seu primeiro livro, pelo qual nos conduz com rara habilidade, cumprimentando cada habitante/signo desta floresta de referências.

O primeiro bloco de poemas, os seis passos de “Andares em Alcântara”, alia tradições do lugar, em conversa franca, bem-humorada mas não despreocupada dos rumos da cidade, com personagens desconhecidos ou menos conhecidos: os poetas Tulio Beleza e Franco de Sá, o médico e botânico George Gardner, o escritor (e professor de biologia) Wilson Cerveira (autor de “O drama de Alcântara”, citado no “Segundo passo”) e Walt Whitman, poeta de sua predileção, não à toa autor da epígrafe do volume.

É sintomático que no Brasil em que a História se repete como tragédia E como farsa, em 2019, quando o País torna a ser governado por um ditador, alçado a esta condição pela via democrática, ironia das ironias, poemas escritos durante o apagar das luzes da ditadura instalada com o golpe de 1964, permaneçam atuais. “Andares em Alcântara” já anunciava, no final, mudanças nos toques das caixeiras do Divino (a tradição se adaptando à modernidade?), com a cidade agora em uma nova encruzilhada com o patriotismo para boi dormir de Jair Bolsonaro entregando tudo de bandeja – não a que serve licores e doces de espécie – aos interesses estadunidenses. O tema reaparece mais escancaradamente em “Unção particular”, “em que mísseis apodrecem no teu canto/ e toda luta vale pouco ou quase nada”.

No livro não está identificada a cronologia dos poemas. Só quem já conhecia sua obra, de circulação restrita entre amigos e publicações esparsas, como um livreto citado por Fernando Abreu na apresentação e nas edições da revista “Uns & Outros” – reunidos no livro “A poesia atravessa a rua”, que celebrou os 30 anos de atividades da Akademia dos Párias – poderá dizê-lo. “Aço dos laços”, por exemplo, se reflete no “ninguém solta a mão de ninguém”, slogan de resistência destes tristes tempos: “Abraçar os fracos/ e transformá-los em mãos/ que se entrelaçam”.

Não é um livro eminentemente político, mas não foge à luta: conversa de igual para igual com poetas de sua predileção (Fernando Pessoa, o tio Ferreira Gullar), aborda a própria demora do autor em publicar um livro e sua própria relação com a poesia, por exemplo em “Demora definida”: “a poesia em mim/ sendo o que me minta/ escreve-se assim/ poesia até o fim”, arremata.

Em “Amor tapuia” Alcântara e a insubmissão aos opressores – ave, Paulo Freire! – tornam à baila: “Por ti lembro/ do revolucionário índio Amaro/ amando em Alcântara/ de cabelos compridos/ cumprindo sua sina/ de viver pra cima/ e nunca em cima/ do muro”. “Penetração” brada contra preconceitos contra a população LGBTQI+ ao cantar “a ânsia da maravilha do mundo: os homens que se penetram”. “Tenho em mãos um livro para os vivos”, afirma a poeta Adriana Gama de Araújo na orelha, no exercício de imaginar a opinião do beat Lawrence Ferlinghetti, caso lesse esta estreia (tardia?) de Antonio Carlos Alvim. Caretas e reaças estão mortos, só não foram enterrados (ainda).

Nada é por acaso e certamente por isso mesmo somente agora Antonio Carlos Alvim resolveu encarar a missão de ser nosso guia por este “Floresta de signos”, travessia que ninguém faz impunemente: “insurgente e instigante” são os adjetivos que intitulam a apresentação de Fernando Abreu para o livro. Ouso acrescentar, sobre a poesia de Alvim: necessária.

Serviço

Antonio Carlos Alvim autografa Floresta de signos neste sábado (21), às 16h, no Café Guará/ Chico Discos (esquina das ruas de São João e Afogados, Centro).

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