Um dos maiores ídolos da Jovem Guarda brasileira nos anos 1970, o cantor e compositor potiguar Leno faz um show inédito no Imperator, no Méier, Zona Norte do Rio, às 16 horas desta quarta, 21 de agosto. No palco, Leno promove um passeio por uma época dourada da música jovem brasileira. Também encena um reencontro insólito: após 49 anos, ele sobe ao palco com um artista amigo que estampa a capa de seu mais lendário disco: Vida e Obra de Johnny McCartney, de 1971. O amigo é Getúlio Côrtes, outra lenda da Jovem Guarda, do hit “Negro Gato” (trata-se de uma versão de “Three Cool Cats”, dos Coasters, e foi gravada por Renato e Seus Blue Caps, Roberto Carlos e Luiz Melodia).

Vida e Obra de Johnny McCartney é um disco que ficou 24 anos perdido. Foi um trabalho de Leno e do então parceiro Raulzito, também conhecido como Raul Seixas, quando este trabalhou na CBS, entre 1969 e 1972. Seis das 13 músicas do álbum são de Raul Seixas. Mas a gravadora não aplaudiu a ousadia do disco, que ia contra a faceta romântica do artista, e o engavetou. As fitas só foram reencontradas nos anos 1990.

A presença de Getúlio Côrtes na capa de Vida e Obra de Johnny McCartney é acidental. Ele trabalhava na mesma gravadora em 1971, quando Raul e Leno estavam gravando. Leno teve a ideia de fazer as fotos da capa do disco dentro de um estúdio em obras, o primeiro em 8 canais do País. Mas precisava de alguma transgressão adicional. Getúlio estava passando pelo corredor e ele o trouxe para dentro para participar da sessão (Getúlio, que era então roadie de Renato e Seus Blue Caps, aparece segurando uma moldura de quadro). Esse material original também foi recuperado e relançado recentemente numa edição luxuosa em vinil pela Record Collector Brasil e o 180 Selo Fonográfico. A foto da capa foi restaurada a partir de um compacto raro em posse de um fã e colecionador.

Quase ninguém sabe, mas Raulzito também foi backing vocal da banda de Leno durante um ano e meio no início dos anos 1970. Gileno Osório Wanderley de Azevedo, o Leno, começou a carreira artística aos 16 anos, em Natal. No Rio, tornou-se metade da dupla Leno & Lilian, uma das parelhas de maior sucesso da música brasileira. Leno também viveu em Los Angeles e gravou nos Estados Unidos. Toda essa história estará em retrospectiva no show do Imperator. “Eu raramente me repeti, o que nem sempre é bom em termos de indústria musical”, diz o cantor.

Após décadas no Rio de Janeiro, Leno voltou a viver no Rio Grande do Norte, onde já está há dez anos. Mas sai em turnê frequentemente, e pode ser que leve esse show também a São Paulo, dentro das celebrações dos 30 anos da morte de Raul Seixas. Sobre a cena atual da música jovem, Leno, que se define como “iconoclasta”, é pessimista: “Os artistas antes podiam focar na música. Hoje, a internet virou uma faca de dois gumes: o artista jovem precisa chamar a atenção, o que torna a música dispersa. Não sou saudosista, mas nos anos 1970 saíam pelo menos três discos maravilhosos por semana: Wilson Pickett, Aretha Franklin, Otis Redding. O hip hop, a ênfase no discurso, isso empobreceu a música black”.

 

TRECHOS DA ENTREVISTA

 

Em 1969, Raul Seixas me ligou. “Fui contratado pela CBS, estou de novo no Rio. Vamos nos ver?” Ele tinha encontrado em Salvador o diretor da CBS, Evandro Ribeiro, após o fracasso de Raulzito e os Panteras (1968), e o Evandro o tinha trazido de volta para ser produtor. Fui a primeira pessoa para quem ele ligou. Nos encontramos e passamos a trabalhar juntos. Ele foi backing de minha banda durante um ano e meio, foi quando fizemos o disco Vida e Obra de Johnny McCartney.

Raulzito era muito original, mas tinha uma cabeça caótica. Por isso mesmo, era muito organizado, carregava todas as suas coisas numa maleta 007. Alguns meses depois, fizemos uma música, “Sentado no Arco-Íris”, que tinha um pouco daquela energia do blues rock inglês, grupos como o Cream. Inscrevi a música no Festival Internacional da Canção. Raulzito ia cantar comigo, não me lembro hoje o que aconteceu, ele acabou não cantando. Ele só cantaria no ano seguinte, com “Let Me Sing”. Ele começou estourando, como autor e como intérprete.

A gente conversava sobre muitas coisas, sobre filosofia, discos voadores, Schopenhauer. Quando ele subiu ao palco pela primeira vez, foi uma dupla metamorfose.  Uma vez, ele fez uma dedicatória a seus mestres: falou em Roberto, em Erasmo, em Elvis e também em Leno. Tenho grande orgulho disso, de ter sido parceiro dele.

Eu cantava músicas românticas. “A Festa dos Seus 15 Anos”, do Ed Wilson. De repente, a gente fazia um disco daqueles? A gravadora não gostou. Disse que era uma mudança muito radical para mim. A gente perguntava “aonde Deus está”, não combinava com o repertório de Leno & Lilian, me diziam. “Não tem nada a ver com sua imagem”. Como muitas canções foram embargadas pela Censura, a gravadora fez corpo mole, não quis batalhar para liberar as letras censuradas, e eu pedi rescisão da companhia. Fiquei com o disco na mão, num limbo.

Se não fosse eu, Raul e Paulo Coelho nunca teriam se conhecido. Eu mostrei pro Raul um jornalzinho alternativo que eu tinha comprado, 2001, que tinha um artigo que nos interessava sobre ufologia. Falavam de extraterrestres, cosmos, universo. Levei o jornal à casa dele num sábado. Na segunda-feira, quando cheguei à CBS, ele me disse: “Pô, bicho! Sabe aquele jornal que você me emprestou? Convidei o cara para ir lá em casa. Vamos lá, vamos tomar um vinho!”. Ele nem tomava nada na época. O cara era o Paulo Coelho.

Depois disso, eu e Raul fomos nos afastando progressivamente. Ele foi se transformando numa outra entidade. Em 1978, ainda fiz vocais num disco de rock dele pela Universal, se não me engano. Mas nunca mais foi a mesma coisa.

No filme O Início, o Fim e o Meio, de Walter Carvalho, eu e Jerry Adriani demos demorados depoimentos à produção. No final, o diretor me cortou e ao Jerry também. Censurou a gente. Eles preferiram colocar os “moderninhos”, não tinham noção do relacionamento que a gente teve com o Raul.

Minha canção mais recente, Poeira Interestelar, é um retorno àquela curiosidade que uniu a mim e ao Raul: a ciência e o espaço sideral. É um rock, está disponível na internet, mas demora até as pessoas descobrirem. Eu acho que não teve a divulgação que merecia.

“Todo mundo é meio assim/ poeira das estrelas/ temos de entender.”

 

 

Simplesmente Leno. No Imperator – Centro Cultural João Nogueira (Rua Dias da Cruz 170, Méier), dia 21 de agosto, às 16 horas. Ingressos a 50 reais.

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