"Cabaret". Reprodução

Artista que teve telas vendidas até no Japão ainda é pouco conhecida em sua terra natal

A pintora Maria Luísa Serra de Castro. Divulgação
A pintora Maria Luísa Serra de Castro. Divulgação

“Eu achava inadmissível que uma criadora com uma obra pictórica desta magnitude permanecesse na obscuridade”, afirmou o curador Couto Correa Filho na vernissage de “O arquétipo da contemporaneidade”, exposição da pintora pedreirense Maria Luísa Serra de Castro (1919-2012), ocorrida ontem, exata data em que se celebrava seu centenário de nascimento.

Outra exposição dedicada à sua obra foi aberta simultaneamente no Rio de Janeiro, no bistrô Casa da Tata, na Gávea. A mostra ludovicense fica em cartaz até 30 de agosto no Centro Cultural do Ministério Público (Rua Oswaldo Cruz, 1396, Centro).

“O arquétipo da contemporaneidade” é composta de nove telas de Maria Luísa Serra de Castro e cinco releituras – destas, à venda, quatro foram arrematadas ontem mesmo – de Gracinea da Costa, Lurdimar Lindoso, Raimunda Firmina, Remédio Beleza e Rosilene Leite. As telas da pintora pertencem a coleções particulares de amigos e familiares. Embora ainda pouco conhecida por aqui, seu expressionismo teve telas vendidas até no Japão.

Maria Luísa dedicou-se intensamente à pintura por cerca de 20 anos, tendo parado por problemas de saúde – a sobrinha fala em problemas de coluna. A pintora teve um casal de filhos, Rogério e Roselane, ambos hoje residentes no Rio de Janeiro, ela, também artista plástica.

Os quadros da exposição, óleos sobre tela que remetem, no traço, na temática e no uso de cores, à obra de Heitor dos Prazeres (1898-1966), foram realizadas entre 1971 e 1990 – há ainda uma guache sobre papel, de 2004.

“Ela se trancava no quarto o dia inteiro e colocava música e ficava o dia inteiro, não atendia telefone, não falava com ninguém. Ouvia muita música, sobretudo música francesa”, conta ao Farofafá Maria da Graça Serra de Castro Brandão, sobrinha da pintora, revelando também que seu pintor predileto era o pós-impressionista francês Toulouse-Lautrec.

"Margarida". Reprodução
“Margarida”. Reprodução

As telas de Maria Luísa Serra de Castro retratam um universo um tanto distante do seu, em temas como circos e cabarés (num quadro dançam clientes e prostitutas, noutro, uma prostituta solitária expõe sua humanidade entre dores e delícias), ela que só começou a pintar aos 50 anos, quando ficou viúva. “Ela tinha formação normalista, destino das mulheres da época, mas nunca chegou a exercer a profissão, casou-se muito cedo”, revelou Maria da Graça.

Maria Luísa casou-se aos 19 anos, com Álvaro Serra de Castro, que havia sido seu professor no curso de normalista – com ele mudou-se para o Rio de Janeiro, onde o marido deu aulas na UFRJ e na Universidade Federal Fluminense.

Maria da Graça lembrou-se de uma coincidência de datas – Dr. Álvaro morreu em um 6 de agosto e foi sepultado no dia do aniversário da viúva – para contar o espanto de ver o primeiro quadro pintado por Maria Luísa: “Foi por volta de sete meses após ela ter ficado viúva. Era um quadro roxo, com várias nuances de roxo, com duas mãos cadavéricas arrancando um coração”. Maria Luísa faleceu dia 10 de novembro de 2012, de falência de órgãos.

Ao participar do dispositivo solene da vernissage, Maria da Graça lembrou-se de “Mulher ao espelho”, poema de Cecília Meireles, preferido e sempre recitado pela tia: “Que mal faz, esta cor fingida/ do meu cabelo, e do meu rosto,/ se tudo é tinta: o mundo, a vida,/ o contentamento, o desgosto?”.

A Enciclopédia Itaú Cultural registra a presença de Maria Luísa Serra de Castro no 4º. Salão Nacional de Artes Plásticas (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 1981), no 38º. Salão Paranaense (Teatro Guaíra, no mesmo ano), e nas exposições Velha mania: desenho brasileiro (Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro, 1985) e Zona oculta: entre o público e o privado (Centro Cultural da Justiça Federal, Rio de Janeiro, 2011).

“Sua temática eram os cabarés com suas prostitutas, que ela chamava de virgens. Mulher à frente de seu tempo, extrovertida, caridosa, simpática, sua pintura era arrojada, os seus cabarés eram inventados, quando adolescente tinha curiosidade de conhecer a pensão da Lolita, mais tarde, criou suas obras a partir do imaginário”, anota, no folder distribuído aos presentes, Teresa Moraes Rêgo, que divide com Couto a curadoria da exposição.

Radicado em São Luís, o artista visual italiano Manlio Macchiavello fez um vídeo – que também integra a exposição – a partir das obras de Maria Luísa, usando a técnica morphing, que consiste em unir duas imagens, transformando uma na outra, dando a sensação de movimento – utilizada no videoclipe de “Black or white”, de Michael Jackson, para citar um exemplo clássico.

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