Baco Exu do Blues - Foto Wanezza Soares

A vertigem da vitória acomete o jovem baiano Diogo Moncorvo, mais conhecido como Baco Exu do Blues. Poucos meses atrás, em “Me Desculpa Jay-Z“, ele compôs os versos “tá tudo confuso como meus sonhos eróticos com a Beyoncé/ me desculpa Jay-Z, queria ser você”. Dias atrás, com o curta-metragem “Bluesman”, ele suplantou o casal Beyoncé-Jay-Z, inscrito na mesma categoria em que ele, aos 23 anos, ganhou o grande prêmio do Festival Internacional de Criatividade Cannes Lion, na categoria entretenimento. Empatado com Childish Gambino, do videoclipe de forte denúncia racial “This Is America”, Baco deixou para trás “Apeshit”, de Beyoncé e Jay-Z, gravado no Louvre, em Paris – me desculpa, Jay-Z.

Em entrevista no restaurante Sujinho, no centro de São Paulo, Baco/Diogo contou sua história e explorou as próprias contradições. Em 2016, o rapper baiano chamou atenção em dupla com o pernambucano Diomedes Chinaski, pelo forte discurso de protesto regional “Sulicídio”, uma provocação dirigida pelos rappers do Nordeste aos seus equivalentes do Sudeste, até então hegemônicos no cenário do hip-hop. Hoje, Baco mora em São Paulo, capital do sulicídio, se esmera num hip-hop psicológico que sensibiliza plateias brancas e denuncia criticamente o próprio machismo, provável resultado das críticas que sofreu pela homofobia embutida em “Sulicídio”. O plano ambicioso, segundo afirma, é se tornar, em dois anos, “o primeiro rapper brasileiro conhecido mundialmente falando”. Leia a seguir a entrevista.

Pedro Alexandre Sanches: Você estava em Cannes? Foi para a premiação?

Baco Exu do Blues: Cara, não fui, não tenho passaporte, estou resolvendo isso ainda. Nunca saí do Brasil na minha vida. Só me avisaram um dia antes de anunciar que eu tinha ganhado. Nem RG eu tenho (ri). Vou ter que ficar e esperar trazerem o prêmio aí.

PAS: Você sabia que estava inscrito?

BEB: Não, também não. Foi a agência que inscreveu.

PAS: Qual a importância desse prêmio para você?

BEB: Cara, então, eu vi uma pessoa do júri sobre música da parada que estava lá, uma mulher negra falando sobre. E ela dava um papo muito específico que é muito importante… É muito representativo a arte que fala do negro pro negro estar sendo premiada neste momento, porque diversas vezes a arte negra não é premiada e diversas vezes a arte negra que é premiada é a arte negra feita para o branco. Você entende? É importante quando a gente tem uma arte que fala diretamente e deixa claro que o diálogo é para pessoas negras, e as pessoas brancas podem ver aquilo, podem entender aquilo, mas elas nunca vão sentir aquilo que elas estão vendo. É muito doido saber que isso ganha prêmios brancos, saca?

PAS: O Cannes Lions é um prêmio branco, né?

BEB: É um prêmio branco, então é muito foda você saber que mesmo sem eles sentirem metade do que é aquela arte ali, mesmo eles não sabendo o que é aquilo ali na pele e não entendendo aquilo ali 100%, mesmo assim a gente é premiado. Imagina até onde a gente chegaria se entendessem 100%.

PAS: O Childish Gambino ganhou junto com você, e é o mesmo caso, é um clipe que tem essa mesma natureza. Talvez os brancos estejam interessados em aprender alguma coisa?

BEB: Claro, claro, claro. E o Gambino traz uma problemática americana. Ele vem com as coisas que aconteciam nos Estados Unidos como referência. Isso é muito foda. Esse é um ponto que a gente acaba também comungando sobre a causa que existe, é global. Apesar de a causa do racismo estar dentro do clipe dele também, é um racismo que, por exemplo, eu não entendo. Mas acho lindo, acho perfeito. Entendo muito daquele clipe, mas não entendo 100%.

PAS: Talvez eles não entendam 100% do seu também.

BEB: Exatamente. Mas eu penso que, por gestos em si, aquilo é uma leitura universal da parada. Eu não quis enquadrar no negro brasileiro ou no que acontece com a gente no Brasil. Eu conversei com a minha irmã mais velha, ela está morando na Itália, e ela me apontou um questionamento que fiquei muito preocupado. Ela falou: “Ah, eu acho que aqui na Itália eu sofro preconceito mais por ser estrangeira que por ser negra”. Eu disse: pensa no contexto em que você sofreu esse preconceito, pensa como foi esse preconceito pra você e repensa. Porque às vezes a gente está tão afobado com o racismo que a gente sofre que a gente, quando chega numa situação de melhora, quer acreditar que as pessoas vão fazer por outro motivo com a gente. Ou que existe um preconceito com estrangeiro, essa é uma pauta que tem que ser debatida. Mas o fato de você ser negro, você podia ser uma negra italiana, você ia sofrer do mesmo jeito. É uma coisa mundial. É uma coisa de que nem os negros estão livres. É sobre isso que Bluesman fala. Porque você, mesmo sendo preto, vendo aquele filme acha que no final o cara está correndo de alguma parada. Caralho, mesmo eu sendo preto e achando que eu não sou racista, eu sou racista. Eu fiz parte desse processo. Me lobotomizaram como lobotomizaram todo mundo. E é muito doido, eu fico muito chocado que tem gente que é branca e acha que não é racista. “Eu aprendi a não ser.” Não, você vai continuar sendo racista. É um fato. Eu vou continuar sendo racista. Racismo é uma palavra que impregnou em todos nós, tá ligado? É a mesma coisa do homem machista. Não tem como você deixar de ser. Tem como você ir se desconstruindo e ir tendo menos. Mas é uma coisa pra aprender até morrer. Antes de morrer você não vai poder dizer “não sou machista”. Você ainda vai reproduzir de alguma forma, seja um olhar, seja um comentário que escapou, uma coisa que está na sua cabeça, um pensamento. É a mesma coisa com o racismo.

PAS: Por que o público branco tem aceitado tanto seu trabalho?

BEB: Isso se dá por dois fatores. O primeiro fator é a necessidade do branco de dizer que entendeu a causa e que concorda com ela. E o segundo fator é por tratar sobre problemas psicológicos. As pessoas brancas têm um histórico gigantesco de ter a liberdade de sofrer com eles. Às vezes é bem mais libertador pra uma pessoa branca estar cantando sobre depressão que uma pessoa negra. Porque as pessoas negras nem sabem que elas têm isso, saca? É um lugar de conforto.

PAS: O cara que fez “Sulicídio” agora está morando no Sul, no Sudeste. Por quê?

BEB: Então, eu vim pouco a pouco pra cá. Meu primeiro disco (Esú, de 2017) eu gravei todo na Bahia, num home studio de um amigo. A ideia do primeiro disco era provar pras pessoas que dava pra fazer um disco internacional, pra competir com grandes estúdios, dentro da Bahia.

PAS: Já tinha esse plano?

BEB: E eu consegui fazer isso. E aí eu ficava nessa onda, existe uma expressão que é muito boa e serve bem, que é: santo da casa não faz milagre. Saca? Não importava o quanto eu tentava trazer coisas pra Salvador – marcas, etc. e tal -, tentava fazer de uma forma que eu pudesse crescer um espaço ou me auto-crescer até ali. E de fato as portas estavam fechadas, tá ligado? A grande realidade, triste realidade que ninguém quer admitir, é que existe o limite. Se você for parar pra pensar bem, pra um primeiro disco, estava sendo chato pra caralho, porque eu estava em Salvador, o contratante tinha que pagar passagem cara de lá pra cá pra divulgar, e tinha o meu cachê, de que eu não podia abrir mão. Nessa estrutura, é muito difícil você ver alguém que consegue se manter, no seu primeiro disco, dentro de uma cidade distante do eixo, e trabalhar dessa forma. Então, apesar de ser muito duro – já perdi show por isso, óbvio -, eu não queria baixar a cabeça.

Baco Exu do Blues. foto Wanezza Soares

PAS: Você também não queria ser um rapper do Nordeste só? Poderia ter feito um método de circulação local, pelos estados do Nordeste.

BEB: Cara, minha intenção maior é daqui a dois anos ser o primeiro rapper brasileiro conhecido mundialmente falando. Pode anotar. É isso.

PAS: É como ser a Anitta versão rapper?

BEB: Prefiro Ludmilla (gargalha). Era meio isso, as possibilidades foram secando. E eu queria fazer esse segundo álbum (Bluesman, de 2018), e eu precisava arrecadar dinheiro pra fazer esse álbum e esse clipe. E eu não tinha, tá ligado?, realmente não tinha, de onde é que eu ia tirar? Então a gente fez uma parceria com um estúdio aqui de São Paulo, que ajudou bastante no começo e agora está fazendo nossos vinis. E aí, com essa vinda direto pra cá, eu fui pra um churrasco na casa de um amigo e estava conversando sobre a ideia do álbum, e o moleque trabalhava com outra agência, “essa ideia é muito boa, você já fechou com alguma gravadora?”. Não, mano, não fechei com gravadora, não, inclusive não queria fechar com gravadora, porque é uma coisa que estou evitando ao máximo desde sempre, não queria me render a fechar com gravadora pra poder gravar isso. Quero fazer da forma que quero fazer essa parada. Ele falou: “Você já pensou em vender isso pra marcas?”. Não. “Isso aí dá pra vender pra uma marca.” Aí foi. A gente vai arranjar dinheiro como se fosse de gravadora sem fechar com gravadora. Aí eu fui atrás desse bagulho. Conheci a agência, acabou que na real não rolou a marca, ganhamos da própria agência. Mas é isso, eu não teria esse contato lá em Salvador.

PAS: Você podia ter escolhido o Rio. São Paulo é mais a cara do rap?

BEB: Cara, mas sinceramente, se a gente for falar de negócio, as marcas e publicidade que fizeram a parada acontecer de certa forma, não rolam da mesma forma nas duas cidades.

PAS: Como é hoje? Você tem uma casa em Salvador ainda?

BEB: Eu tenho a casa de minha mãe. Não faz muito sentido, eu trabalho muito. Minha vida aqui em São Paulo, eu digo que estou em São Paulo, mas nem parece que vivo em São Paulo. Ou estou em casa trabalhando ou no estúdio, eu mal saio. Não vou em festa, ou se vou geralmente é pra fazer lobby (ri), é trabalho também. Não é uma coisa que eu tenha muito hábito de conhecer São Paulo. Se você perguntar o que é legal de fazer em São Paulo, eu não vou saber responder, sinceramente.

PAS: Tem uma lenda que São Paulo e Bahia não combinam muito. Na época do axé o lugar mais difícil de emplacar era aqui. Isso não funciona mais?

BEB: Cara, acho que a Bahia em si é uma parada muito doida. A música da Bahia é mais forte que qualquer ranço, tá ligado? Você pode ser uma pessoa que nasceu escutando que baiano é isso, que baiano é aquilo, mas querendo ou não a água é outra, as referências são outras, o chão é outro, e é um chão que transforma músicos incríveis.

PAS: E está numa fase excelente.

BEB: Está numa fase excelente, mas nunca deixou de estar numa fase excelente, pra ser bem sincero. A fase que as pessoas acham que não foi excelente só teve grandes músicos sendo cobertos pela indústria do axé music. Não foi como se tivesse uma safra ruim, não existiu essa fase ruim. Não sei se é uma coisa da mídia ou se é uma coisa preconceituosa. Por ser uma mistura gigante de pessoas, é uma cidade gigantesca, tem de tudo amplificado.

PAS: Você está gostando de viver aqui?

BEB: Cara, gosto porque gosto de trabalhar, e, como eu disse, não vivo São Paulo, vivo meu trabalho. Digo que estou em São Paulo, morando é uma palavra muito forte. Eu tô por aqui ainda, fazendo as coisas aqui, tenho minha equipe, que é quase toda baiana. Trouxe toda a minha equipe de Salvador pra cá, tá ligado? Então a gente está sempre por aqui. Por enquanto.

PAS: Quer dizer que tem o plano de voltar pra lá?

BEB: Cara, eu não sei se tenho o plano de voltar pra lá ou se daqui a um ano vou estar morando em outro país. Não sei onde eu vou estar, entende? Depende de como vai ser. Se você me perguntar se tenho vontade de voltar pra Salvador, claro que tenho. Se perguntar se eu queria estar todo dia no ponto da Barra curtindo, se queria estar vendo meus amigos e minha família todo dia, óbvio. Mas neste momento eu preciso de foco, que é o ritmo que tem em São Paulo. Se tiver que marcar uma reunião não vou precisar viajar pra ter essa reunião, tá ligado? Ir pro meu estúdio, trabalhar etc. e tal. Querendo ou não, eu tenho uma empresa hoje. Sou dono da 999 Produções Musicais, que tem outros artistas que sou responsável também. Tenho só um grupo que não é da Bahia, que é da periferia de Campinas. É um selo com cinco músicos, seis contando eu, onde são cinco de baianos.

PAS: Já lançados, ou não?

BEB: Não, ainda não. Você vai ouvir falar muito ainda de todos os meus artistas, isso eu garanto.

PAS: É tudo rap?

BEB: Cara… Eu não vou rotular a arte dos outros, eu sei que tudo é bom. Não vou falar pra você que é tudo rap. Mas é uma parada que, se você parar pra pensar, existe o selo 999, desde que eu surgi, e a gente nunca teve artista nenhum, justamente por ter essa calma de pegar as pessoas e trabalhar na hora certa e saber o que quer trabalhando. Eu sou muito tático em tudo que eu faço, penso muito sete passos antes de dar meu primeiro passo.

PAS: Por que o selo tem esse nome?

BEB: Porque tem o rolo do 666, que é o número da besta, e ao contrário é iluminação. É justamente sobre isso, a dualidade de, dependendo de onde você olha, é o bem e o mal. Tudo é questão de perspectiva.

PAS: É a mesma ideia do Exu com Esú, Jesus.

BEB: É, exatamente. Eu vivo o meu trabalho, tá ligado? Eu respiro meu trabalho, não tenho tempo de outra coisa que não seja o meu trabalho. Então, se eu vivo o meu trabalho e tenho mais oportunidade de expandir meu trabalho, meus artistas aqui, eu vou estar aqui. Até porque meu grande sonho é transformar Bahia em eixo. É eu conseguir fazer, sei lá, vários artistas que são baianos estarem no topo. Até um ponto em que as pessoas possam fazer sucesso e morar lá também. Não tô falando que não pode, tô falando de uma experiência minha e de milhares de outros artistas. A própria mídia é muito intensa nessa barreira, eu sinto que se eu estivesse em Salvador eu não fazia a metade das entrevistas que fiz este ano, por exemplo.

PAS: Eu queria voltar lá atrás pra conseguir entender como nasceu o Baco Exu do Blues, e começaria perguntando quem são seus pais.

BEB: Então, meu pai foi o primeiro professor de tai-chi-chuan da Bahia, e minha mãe é uma professora de literatura.

PAS: Ambos baianos?

BEB: Ambos baianos. Minha mãe branca, meu pai negro. Uma família miscigenada.

PAS: Quantos irmãos?

BEB: Dois. Uma que é de minha mãe e meu pai e um que é só de meu pai. Meu irmão mais velho é músico também.

PAS: Todo mundo nascido em Salvador, ou não?

BEB: Não, não sei, estou em dúvida agora. Acho que se não tiver todo mundo nascido em Salvador, alguém ali solto nasceu em Alagoinhas, onde a gente viveu muito tempo, no interior da Bahia. Nasci em Salvador e fui morar em Alagoinhas logo depois de nascer. 

PAS: E viveu lá quanto tempo?

BEB: Até os 6, 7 anos.

PAS: O que te marcou dessa primeira fase da vida?

BEB: Ah, acho que a parada do meu pai ali. Ele tinha um sitiozinho pequeno, onde dava as aulas de tai-chi-chuan e dava consultas de medicina chinesa. Ia sempre gente pra caramba ter aula com ele, se tratar com ele. Eu lembro muito disso, e de terra, terra, terra vermelha. Ele me acordava cedo pra fazer exercícios.

PAS: Era numa região rural?

BEB: Era. Vinha gente de tudo quanto era lugar. Era muito louco isso. 

PAS: Você sabe como ele se interessou por isso?

BEB: Cara, não. É muito louco, meu pai tinha uma personalidade muito interessante. Até hoje, quando você conversa com pessoas que conheceram ele… O pai do meu melhor amigo, que eu conheci independente dos nossos pais, era um discípulo do meu pai Meu pai curou a hérnia de disco dele, que falavam que não tinha cura na época, então é uma pessoa extremamente grata a meu pai. Conheci o filho dele de a gente brigar na rua, acabou cada um indo pro seu lado, e alguém falou pra ele que meu nome era Diogo Moncorvo, ele sacou o sobrenome. Conheci o pai dele, começou a chorar, essa coisa toda. Sempre foi muito isso, em todos os encontros que eu tinha com quem conheceu o meu pai. Eram encontros que me pesavam até as costas.

PAS: Não sei se entendi, ele já morreu?

BEB: Sim. Me pesavam as costas porque era como se eu fosse filho do ser humano mais fantástico do mundo, o mais correto do mundo, e na época eu não era nada, era só um garoto perdido. Então era como se as pessoas me comparassem a essa imagem intocável do cara que salvava vidas e que entregava a vida pros outros de diversas formas. 

PAS: E sua mãe?

BEB: Minha mãe eu digo que é o grande fator de eu ter virado Baco Exu do Blues. Foi a música que minha mãe escutou que criou meu gosto musical, foram os livros que minha mãe tinha em casa que criaram meu gosto pela leitura, pela escrita, pela poesia. Minha mãe é poeta também. Me ensinou muita coisa. Acho que tudo que eu sei sobre escrita devo a ela, tá ligado? Tem muito dela na minha escrita.

PAS: Que idade você tinha quando seu pai morreu?

BEB: Eu tinha 7.

PAS: E quando e onde nasce o músico?

BEB: O músico nasce a partir da falta de… Eu era um pré-adolescente extremamente complicado, fui uma criança extremamente complicada. Costumo dizer que a forma como o racismo me atingiu… Quando meu pai morreu eu fui morar com uma família branca. Então a forma de eu ser estranho num ambiente até familiar, desde o ambiente familiar até o ambiente de escola, estudei até a sexta série e passei por várias escolas. Acho que foram cinco ou seis particulares e quatro públicas. Até eu começar a enxergar era em escolas particulares que eu estudava. Você é o único ou um dos únicos negros dentro daquele ambiente. Então você sofre antes de entender. Quando você é criança, você não entende o porquê. Quando eu morava com meus pais, eu via um homem negro sendo admirado por várias outras pessoas, então pra mim era normal, era o de praxe. A autoridade máxima dentro da casa, tanto para as pessoas da família quanto para as pessoas de fora, os discípulos que idolatravam ele, era um homem negro. E aí mudou o ambiente e eu sofria de diversos lados, de diversas formas, e não entendia por que estava sofrendo. Eu digo que acabei virando rebelde sem causa, mas não um rebelde sem causa: um rebelde que não entendia a causa. Existia uma causa. Eu só não entendia qual era. 

PAS: Aí chegou um dia que você entendeu?

BEB: Ah, mas só fui entender isso depois de muito tempo. Acho que fui entender quando estava escrevendo Bluesman. Por que eu era tão expulso? Eu não era o problema, mas eu estava num ambiente onde não era aceito, então obviamente os problemas iam cair em mim

PAS: Você leva a fama injusta de ser o garoto-problema?

BEB: Claro, claro. Quando é recorrente com você, todo mundo passa a pensar: só é recorrente com ele. Claro, só tem quatro crianças pretas aqui dentro dessa porra. Essa indignação toda juntava com meu problema de falar, que eu tenho problema de dicção. Tinha muito forte, hoje em dia é bem menos. Tocando pra caralho vai curando pouco a pouco, mas quando eu fico nervoso as pessoas sentem bem. Era isso, era a falta de conseguir me comunicar, tá ligado? Eu tentava me comunicar e me embolava, me embolava, me embolava. Eu tinha coisas importantes pra falar, queria que as pessoas entendessem o que eu queria falar, e as pessoas não entendiam, e eu ficava indignado. E aí comecei a escrever. 

PAS: Começou pela escrita?

BEB: Começou pela escrita, e depois comecei a fazer freestyle.

PAS: No começo você não sabia que era a música então?

BEB: Não.

PAS: Mas sabia que era poesia?

BEB: Sim, porque tinha noção de poesia com minha mãe. E foi isso, comecei no freestyle, fui batalhando.

PAS: Já existia uma cena de rap em Salvador à qual você se integrou?

BEB: Sim, existe uma cena em Salvador. Existe gente muito boa de rap em Salvador, e sempre existiu. Só que a mídia e a indústria não ligam pra cena. 

PAS: Faziam outro rótulo da Bahia.

BEB: Exatamente. Se eu perguntar pra você ou pra qualquer repórter quatro rappers baianos, vamos ver se ele fala.

PAS: Fala então pra eu aprender?

BEB: (Risos.) Cara… 

PAS: A Larissa Luz é uma rapper, de alguma maneira.

BEB: Eu acho que ela se considera mais pop do que rap. 

PAS: Mas quando mulher faz rap nunca é parecido com rap de homem.

BEB: Eu te digo que, sei lá, atualmente eu tenho escutado mais mulher que homem no rap nacional. 

PAS: Que legal. Mas, de fato, citei ela porque não me ocorre mais nenhum. Tem OQuadro? Lembrei um!

BEB: Isso, tem OQuadro (ri). Tem VandalBeirando o Teto, Nova Era, tem muita gente. A cena é gigante. 

PAS: Por que você se tornou o mais conhecido deles?

BEB: Cara, acho que, sinceramente, tenho espaço por ser de classe média. Acho que isso seria determinante, porque tem várias pessoas ricas em Salvador que fazem rap e não chegaram onde eu cheguei. Acho que essa é uma das diferenças. Além do ser classe média, existe uma visão… Agora estou confuso, não sei se é certo eu falar isso. Porque quando penso em classe média penso em estrutura familiar, mas se for pensar em estrutura familiar e em renda para ser destinada ao sonho… Eu não sei. O primeiro disco que gravei na minha vida foi com meu dinheiro, com dinheiro que eu fazia em tempo extra.

PAS: E já virou sua fonte de sobrevivência?

BEB: Sim. E desde os singles, na real. Minha família nunca apoiou, apoiou, apoiou. Como eu era muito ruim na escola, com vários problemas, nego queria que eu trabalhasse. Fui trabalhar duas vezes, de entregar quentinha e entregar gás, e não durei nem uma semana (ri). Acho que muito é caminho também, tá ligado? Não sei explicar. Acho que é muito de trabalho, muito de sorte, muito de dedicação. É uma equação.

PAS: Voltando ao tema do racismo, você consegue dizer quando ficou consciente de que existia?

BEB: Minha mãe é branca, uma vez me falaram que eu era preto porque a barriga de minha mãe era suja. Aí eu fui começar a entender que as coisas eram estranhas. 

PAS: Você era pequeno?

BEB: Era pequeno. Enchi a cabeça da pessoa que falou isso (ri). Eu era uma pessoa pequena com fortes opiniões (ri). 

PAS: Ou seja, aprendeu a se defender cedo também.

BEB: Graças a Deus. Mas eu achava que estava me defendendo de provocações, de igual pra igual, mas não era isso. Eu estava defendendo o respeito, não estava defendendo a minha cor. Era aquela coisa máscula, de honra, de criança. Era a masculinidade tóxica que fazia eu reagir às coisas, e não o fato de estar lutando contra o que o cara estava falando pra mim.

PAS: Mas então no ponto atual você já está lutando contra a sua masculinidade tóxica?

BEB: Sim, sim, sim. 

PAS: O episódio do “Sulicídio” resvalou nisso.

BEM: Sim, sim, sim.

PAS: Na verdade você está aprendendo tudo muito rápido, fazendo…

BEB: Sim… Eu vou entendendo o mundo pouco a pouco, a partir das coisas que vão acontecendo comigo e ao meu redor. E chega um momento que eu entendo que é tudo um processo. Quando você fala de racismo, você fala de masculinidade tóxica de uma forma visceral. A masculinidade tóxica dentro de um homem negro é muito diferente da do homem branco. Ela destrói você de diversas formas. Destrói você nos seus relacionamentos. E quando falo que destrói não é só pelo seu ato com o outro, é sobre o seu ato com você. A masculinidade tóxica pro homem negro, eu chutaria, é páreo a páreo com o motivo de depressão, juntamente com o racismo, com os traumas sofridos com racismo. Eu acho que por ter a depressão e por ter a depressão dentro de um relacionamento, eu fui entendendo isso pouco a pouco, e como me atingia.

PAS: Por que você fala tão abertamente dessa questão? Nem todo mundo fala, muita gente tem depressão e fica quieta.

BEB: É porque, véi, isso aí eu vejo como uma parte da minha vida, tá ligado? É tipo um amigo que você não tem certeza se é seu amigo. Você pensa: esse cara pode me passar a perna qualquer dia, mas é aquela pessoa que é muito próxima e, se passar a perna em você, vai te derrubar de verdade. Minha relação com a depressão é meio que isso. É uma coisa que me faz escrever muito, tá ligado? Quando eu tenho minhas crises, meu Deus do céu, viro o poeta maior do mundo. 

PAS: É o seu motor?

BEB: E vai, e tchan e tchun, e fé em Deus. Eu digo que é a minha corda bamba. Ou eu caio pra um lado e faço a melhor música do mundo ou eu caio pro outro e me fodo. É meio isso.

PAS: Você faz algum tratamento? Ou é só a música?

BEB: Cara, então, minha música é muito meu tratamento. Eu tenho problema com a faculdade de psicanálise, com a academia e a forma branca com que eles fazem as pessoas negras começarem a tratar seus pacientes. Tem um TCC de uma menina justamente sobre isso, como a faculdade fez ela se esquecer de coisas que são importantes, como a forma de tratamento é voltada a brancos. A depressão é causada por um trauma, geralmente, na maioria das vezes. Tem um gatilho e você vai carregando isso pra vida. Geralmente é na infância. Muita gente acredita que é hereditária, ok, mas eu não acredito nisso. Quando você bota nessa questão que pode ser criada por um trauma e você não leva em consideração que (pausa as palavras) todo jovem negro sofre racismo quando é criança, e você não bota isso num paralelo… Se teve um gatilho aqui, muito provavelmente a gente já sabe qual foi o motivo desse gatilho. Como vamos tratar isso e como vamos conversar sobre isso? Só uma conversa voltada pra isso, se você não consegue lidar da melhor forma possível eu não vou conseguir me abrir com você. Se você não entende, se foi ensinado a esquecer esse problema e levar esse problema como mais um problema, isso não faz sentido, tá ligado?

PAS: Isso bate numa frase sua que vejo você repetir e acho muito importante, de que todos os negros sofrem de depressão.

BEB: Sim. 

PAS: Você quer dizer que é porque todos sofrem de racismo?

BEB: É um bagulho que a gente não pode assumir… Que a gente nunca foi ensinado a assumir.

PAS: Como as pessoas negras reagem a essa sua fala?

BEB: Cara… Até agora ninguém veio debater comigo, não (risos). 

PAS: Talvez estejam concordando silenciosamente.

BEB: Exatamente. Uma coisa que tem muito é que quando você é negro e tem uma voz ativa, se você erra em uma fala as pessoas vêm logo te avisar, entende? 

PAS: Aconteceu no “Sulicídio”.

BEB: É, se não veio ninguém me avisar até agora da minha frase é porque estão concordando. Espero eu. Se estiverem discordando, também, que me falem. Mas acredito nisso, e acredito também que muita gente não entende de depressão porque se negam a admitir que têm depressão. É mais fácil.

PAS: Talvez todo mundo tenha, uns mais, outros menos.

BEB: Sim, eu não duvido também. Mas eu acho que daqui a um tempo, quando as pessoas entenderem como é problemático, de como o racismo destrói a vida e a auto-estima das pessoas… não é aquela coisa de “sofri racismo uma vez”. Quando você entender que socialmente essa pessoa nunca vai se sentir tão bem, tão confortável quanto você, em ambiente nenhum, independente do seu dinheiro, do seu estudo, de qualquer coisa que ela faça, aí as coisas começam a mudar um pouco. Aí vai ter uma rotatividade maior de mudanças, saca? 

PAS: Muito do seu trabalho é dizer isso para as pessoas, não?

BEB: Sim, mas é muito complicado também dizer isso pras pessoas. Imagina quantas pessoas não querem chegar aonde eu cheguei neste momento. E aí como é que eu vou chegar pra essas pessoas e dizer: então, eu cheguei aqui, aonde vocês sempre sonharam chegar, depois de um tempão… Vocês sabem que vão passar coisa pra caramba pra chegar aqui, vou te dizer o seguinte, não muda muita coisa, não. Você vai ter dinheiro, vai ter isso, vai ter aquilo, e não muda muita coisa, não.

PAS: Você sente as suas mudanças?

BEB: Isso é um rolê que as pessoas têm que entender sobre o negro bem-sucedido. A maioria das coisas é porque você vê um rapper norte-americano ostentando tanto, um cantor de funk ostentando tanto, essas pessoas que chegam querendo mostrar tanto que têm dinheiro. Vai chegar um momento que você não é querido nem pelos seus e nem pelos outros. Pros brancos, você está no lugar dos brancos, e as pessoas brancas não querem que você esteja ali. E os negros vão olhar pra você e dizer: ah, ele agora só está no lugar branco, ele perdeu a essência dele. Então. Você está ressabiado que todo mundo quer chegar no lugar onde você está, e você não mostrar que você está mal.

PAS: Você é um artista que prefere dizer.

BEB: Você não pode mostrar que está mal nem pras pessoas que não gostam de você nem pras que gostam. Esse não é o meu caso, mas é o caso de vários: o motivo de você estar ali em cima é porque as pessoas entraram na coisa que você falou que você não é e elas queriam ser. E agora você é aquela coisa ali e as pessoas querem chegar naquela coisa ali. Então não adianta, você não pode ser triste, você não pode sair desarrumadinho, não pode. Porque no momento em que você atinge um lugar social e econômico onde as pessoas almejam chegar, teoricamente na mente delas você não tem o direito de sentir as mesmas dores que elas sentem. Você não pode mostrar quer sente essa dor. E qual é a forma mais prática de você mostrar pras pessoas que não sente a dor? Tendo tênis caro, roupa boa, saindo pra festa cara que todo mundo queria ir, mas ninguém vai estar.

PAS: O que você está dizendo é que você, mesmo muito jovem, sabe que fazer sucesso não é tão legal assim?

BEB: Claro. Meu disco é sobre isso (ri). É sobre a depressão que o sucesso me trouxe. Eu penso muito sobre isso. Se você vê, a gente está numa corrida de rato numa rodinha de hamster. O negro, numa rodinha de hamster, não importa onde ele vai estar, ele vai sempre se sentir mal. 

PAS: Quando você diz que quer ser famoso no mundo inteiro é encontrar um antídoto?

BEB: Não, eu vou ser famoso no mundo inteiro, mas vou sofrer racismo no mundo inteiro. O Uber não vai parar pra mim, o bagulho vai continuar sendo louco. Tem o caso do jogador de basquete, esqueci o nome, que chegou em casa e tinha uma pichação gigante no muro da casa dele falando assim: “Não queremos sua gente aqui”. Véi…

PAS: É destruidor.

BEB: Dennis Rodman. O cara ganhava mais que o bairro todo dele, e mesmo assim ele não era querido ali. É muito complicado isso. O dinheiro não legitima a gente, tá ligado? Isso é uma coisa que tem que ser deixada clara pra todo mundo, tanto pros negros quanto pros brancos. Essa falsa sensação de que o dinheiro compra o respeito das pessoas brancas é mentira. Eu não quero comprar o respeito de ninguém. Se eu tenho dinheiro é porque eu trabalho pra caralho. Não tenho vida. Se perguntar como é São Paulo eu não sei. Quando falo que quero conquistar o mundo, não quero conquistar o mundo pra ser aceito por ninguém. É só porque acho que a minha arte merece que o mundo conheça minha arte. Eu quero ter o potencial de mudar pessoas não só no Brasil. Eu quero trazer conforto pra pessoas do mundo inteiro, tá ligado?

PAS: De algum jeito você quer que o Brasil fique famoso junto com você, por razões boas?

BEB: Se eu conseguir isso, o Brasil vai junto comigo, obviamente. É muito plausível a gente pensar que é capaz das coisas acontecerem. Eu falo isso desde sempre. Minha meta é atingir o internacional. É o topo do mundo. Eu admiro várias pessoas, vários gênios, mas sempre me pergunto por que nunca ninguém chegou lá, por que nunca habitou lá, de pegar um estádio gringo, pá.

PAS: Você não acha que uma das razões é a barreira da língua?

BEB: Foda-se a barreira da língua. O samba está aí, mostrou isso pra todo mundo, a bossa nova. Eu ouço rap estrangeiro e não sei nenhuma palavra em inglês.

PAS: Você quer continuar cantando em português então?

BEB: Sim. Bagulho de fazer em inglês, não é isso. 

PAS: No Bluesman você fala do Kanye West e do Jay-Z. De alguma maneira eles são referenciais.

BEB: Cara, pra caralho. O Kanye West é até mais que o Jay-Z. Pra mim o Kanye West é um… São palavras muito fortes, mas o Kanye West é talvez o maior artista que já foi visto. 

PAS: Por quê?

BEB: Porque, véi, ele é uma mente genial, criativa, muito irreverente. Ele faz acontecimentos. Ele não acha que vai fazer um álbum e o álbum vai ser clássico por isso e por aquilo. O álbum dele vai ser clássico porque é um acontecimento. Ele faz um tênis, depois de quatro anos é um dos tênis mais queridos do mundo. O cara sai de uma esquizofrenia e consegue soltar quatro discos num ano. Ele produz como ninguém, não para de produzir. É sinistro a forma como produz, o que produz. Ele fala várias merdas, o bagulho de ter apoiado o Trump. Aí você vê, o motivo de ele apoiar Trump não faz sentido nenhum, mas faz sentido pra ele. “Ah, estava todo mundo falando uma coisa, e eu entendi que fazer o que os outros estão fazendo não é liberdade, é prisão também”. Aí você pergunta em quem ele votou: “Nunca votei na minha vida (ri)”. E ao mesmo tempo que ele apoia o maluco você vê ele dizendo que pra ele o certo pros Estados Unidos é ter um partido republicano negro, só de negão. É doido, ele é maluco, fora de série.

PAS: As mesmas perguntas pra você, quais seriam as respostas?

BEB: Cara, eu também nunca votei em minha vida. Não tenho título. Eu estou resolvendo tudo aí. Vou começar a votar.

PAS: Mas você falaria bem do Bolsonaro?

BEB: Não, não, não. Já xinguei pra caralho ele. Eu tenho lado. Essa foi a única eleição que disse ao meu público: não votem nessa pessoa, pelo amor de Deus. Eu penso da seguinte forma: meu discurso é político, saca? Meu discurso é muito político. Pra você achar que eu tenho qualquer ideal de direita você tem que ser no mínimo retardado. Tem que pegar tudo que eu falo e jogar no lixo e só ouvir o beat. Eu nunca me posicionei politicamente antes dessa eleição, porque não achava necessário, minha música está falando por mim. Mas chegou num momento que vi que a cegueira estava tão grande… Se alguém teve essa dúvida é porque os tempos estão sombrios.

PAS: É que tem artistas que criam essa confusão na nossa cabeça, como por exemplo Ivete Sangalo e Anitta.

BEB: Pô, mas Ivete Sangalo e Anitta não têm o posicionamento político que eu tenho nas minhas letras. 

PAS: No íntimo delas é claro que devem ter opinião, é que elas não podem dizer porque vão desagradar a outra parte do público. 

BEB: Velho, mas eu estou muito pouco me fodendo pra o que todo mundo pensa sobre mim. Eu falo que espanquei Jesus nas músicas. Isso me irrita muito, quantas pessoas no Brasil já falaram que espancou Jesus? Como é que a Vejinha deu essa porra (risos)? Eu sempre falo que tenho um problema com Jesus surfista. Jesus negão é nós, Jesus surfista não dá pra mim. 

PAS: Você acha que tem que existir um partido negro brasileiro?

BEB: Eu acho que antes de existir a gente precisa organizar o nosso movimento negro. Por quê? Aí a gente vai entrar num lugar onde eu não gosto de entrar. Eu acho que o grande problema dos movimentos negros são os homens negros ainda. E a tratativa das mulheres negras com os homens negros. Porque existe uma cobrança, que é assim. O homem negro, que geralmente é morto e preso, ele não tem a estrutura de força e intelectual que a mulher negra tem. 

PAS: E o homem branco também não tem, né?

BEB: O homem branco nem precisa ter. A realidade é essa.

PAS: No fundo ele não tem e vive dando vexame.

BEB: É que a gente vive num momento em que existe a masculinidade tóxica e esse debate sobre a masculinidade tóxica do homem negro. Esse é um debate que é feito como cobrança, não como diálogo. É como se as coisas fossem mudar imediatamente. Elas não mudam imediatamente. A gente tem que entender isso e ter calma. Tem que existir debate, entre os próprios homens negros. Não existe debate entre homens negros. 

PAS: Mas sua música propõe um debate sempre.

BEB: Propõe, mas pra ter um debate… Não existem debates. Existe numa minoria da minoria da minoria da minoria da minoria da minoria da minoria. Eu espero que seja debatido de forma mais tranquila, mas o lugar onde vão parar os posicionamentos é muito complicado. Às vezes parece que a pessoa está dando uma desculpa pra ser escrota. A real é que, se a gente for parar pra pensar, o incentivo intelectual dentro da comunidade negra é bem maior nas mulheres. Você vai conseguir me dizer bem mais nomes de militantes negras famosas que de militantes negros famosos. 

PAS: Mas elas conquistaram isso, não?

BEB: Claro, claro, historicamente falando. Eu não sei explicar direito como isso acontece e por que isso acontece. As conquistas de ser um homem ideal são destrutivas pra qualquer homem negro. E o homem ideal é um babaca, se você parar pra perceber, o homem hétero cis branco é uma merda.

PAS: É o Bolsonaro.

BEB: Imagina agora essa pessoa que quer ser aquilo ali e não consegue ser. Ele foi ensinado a ser o ruim, a querer ser o ruim, o tenebroso, o predador da cadeia alimentar. Imagina você querer ser esse predador da cadeia alimentar, mas na real você está preso. Tem que existir um debate pra criar essa barreira do “eu quero ser isso aqui”. A gente tem que ter um movimento de destruição de padrão do homem perfeito, do homem ideal. No momento que tiver e passar a ter um homem ideal negro, ou um homem ideal que seja livre de todas as paradas, desse local, a gente vai começar a conseguir a ter um debate não só com algumas pessoas que são politizadas, foram educadas e tiveram acesso – o homem branco.

PAS: Você já fala pra muitos, você tem um poder quanto a isso.

BEB: Cara, (ri) poder é uma palavra muito forte. Eu acho que eu tenho que falar. Tem quem vai ouvir e quem não vai ouvir. Isso eu estou fazendo. Eu falo. 

PAS: Uma música sua fala do Jay-Z, e aí você ganha o prêmio dele. Como fica a cabeça?

BEB: Se você falar se eu acredito até hoje, falo que não. Acho que só vou acreditar quando estiver segurando o bagulho na minha mão. Isso foi muito doido, porque pra mim trouxe um caminho. Tipo, você sempre falou que queria isso, e essa é a primeira fresta a se abrir. Você pode conseguir aumentar essa fresta ou deixar ela aí e daqui a pouco ela se fechar. Esse é o pensamento, conseguir aumentar essa abertura.

PAS: É um momento em que a fresta está aberta pro Brasil, com Madonna pegando Anitta, uma coisa que nunca tinha acontecido antes.

BEB: A Cardi B está ouvindo Kevin O Chris. Está aberta. Só que a gente tem que invadir mais do que já foi. Tem que parar de ser uma música com uma pessoa e essa música ser mais divulgada no Brasil. É recorrente artista fazendo música com brasileiro pra estourar no Brasil, mas não estourar fora. Aumenta o público deles no Brasil e não exporta artista pra fora, isso é o que sempre aconteceu com a gente aqui. Eu posso chegar lá com um feat, mas também posso chegar sozinho, encabeçar um top 10 Billboard sozinho.

PAS: O que você avalia que alcançou com o segundo disco?

BEB: Cara, acho que o meu público aumentou de uma forma gigantesca. Eu me permiti mais a ser eu, a me entender. Acho que aprendi a lotar casa, eu ainda não tive a experiência de casa meia bomba com o Bluesman. Até agora foi tudo sold out. Não sei, cara, mudou tudo na minha vida na real, velho. Tudo, tudo, tudo, tudo.

PAS: E o terceiro, já está a caminho?

BEB: Já. Eu vou soltar um trabalho este ano que não é disco nem EP, é um compilado tratado de uma forma diferente. É eu falando de eu e eu falando de eu mais vezes, aquela coisa bem pessoal de passagem de rito. Já que a gente chegou até aqui, vamos voltar um pouco pras origens e saber o que fez a gente chegar até aqui, pra dar o próximo passo. Esse próximo trabalho que vai sair é meio que isso, e no próximo ano vem o meu grande chute. 

PAS: Sem gravadora? Ou pode ser que tenha alguma na parada?

BEB: Não, sem gravadora. 2021 é que é meu golpe final. Não quer dizer que vou parar de lançar disco, mas vai ser onde vou chegar no meu objetivo.

PAS: Como é a preparação pra isso?

BEB: É o que acabei de falar, tem o projeto de agora, pra esse ano, e o projeto pro outro ano, que vai abrir a porta, mais uma fresta. Exu é o caminho. Só sei o que vim fazer, intuição, feeling, sentimento, lembrança das coisas, pensamento futuro, juntar as coisas e fé em Deus.

 

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