O Roy Rogers Trio toca no palco do Bourbon Street

 

Os nomes históricos do blues estão quase todos desaparecendo: B.B. King morreu, Dr. John morreu, James Cotton morreu.

Por isso, quando um cara como o bluesman Roy Rogers, de 68 anos, está de passagem pela cidade, é bom tirar um tempo que você provavelmente nem tem para vê-lo, porque ele é uma ponte entre mundos. Roy tocou com John Lee Hooker e com a lenda folk Ramblin’ Jack Elliott, para citar apenas dois nomes. Gravou com Bonnie Raitt, Carlos Santana, Steve Miller, Sammy Hagar e Ray Manzarek, tecladista dos Doors.

O trio de Roy Rogers é complementado por outros dois sujeitos que têm tanta história quanto o frontman. O baterista Kevin Hayes tocou 20 anos com Robert Cray. Acompanhou Etta James, e também B.B.King, Van Morrison e o britânico Matt Schofield, entre outros. O gigante baixista Steve Ehrmann gravou com Coco Montoya, Robben Ford, Charlie Musselwhite.

Roy Rogers e seu trio tocaram na noite passada no Bourbon Street Music Club, em Moema, São Paulo. Ele é um mestre do slide (slide é aquela forma de tocar a guitarra com um tubo em um dos dedos, geralmente de vidro, deslizando o dedo pelas cordas). Da última vez que passou por aqui, se não me falha a memória, a companheira fundamental de Rogers era uma guitarra Gibson de dois braços. Ontem, ele tocou primordialmente um violão Martin (tocou também duas miniguitarrras vintage que trouxe na bagagem). Mas, pela potência sonora e a escolha do repertório, parecia que o Led Zeppelin tinha reencarnado nuns malucos de feira agropecuária.

Rogers abriu o show com Baby Please Don’t Go, canção tradicional que ficou mais conhecida após a gravação de Muddy Waters, em 1953. Ou seja: essa canção já era uma centelha de rock’n’roll muito antes de desabrocharem Elvis e Chuck Berry. Nas técnicas de slide de prestidigitador de Roy Rogers, a música evocou o grito emancipatório do blues, antigo refúgio das almas dos oprimidos.

Ele tocou Terraplane Blues e Walkin’ Blues, duas pepitas do pioneiro Robert Johnson (1911-1938), mas a segunda canção com aquela levada irresistível do Slowhand, Eric Clapton, ensandecendo a plateia. Tocou Ramblin’ Blues, de Woody Guthrie, embalando a gangorra entre o passado e o futuro.

Em Rockin’ at the Hey Hey (o incendiário blues do Hey Hey Club) a farra com gosto de stride piano encorajou alguns fãs mais destemidos a arriscarem abrir clareiras para dançar.

Patron Saint of Pain (de seu disco de 2009, Split Decision) foi o blues mais plácido da jornada, mais acariciante, com um show inacreditável de slide. Muitas vezes, não se veem as mãos de Rogers, tão rápidas as notas.

Razor’s Edge era a materialização da imaginária conexão entre o blues do Delta do Mississipi e a tradição da circularidade oriental, uma doideira. O blues traz sempre revelações, porque seu som transporta a verdadeira demolição de fronteiras, como já dizia o griot malinês Ali Farka Touré.

Roy Rogers não capricha demais nos vocais nas canções, às vezes sua voz sai apenas como se fosse uma sucessão de scats, em vez de palavras. Mas ele também sabe manusear a tradição das crônicas urbanas, como em Crawfish City, na qual narra um passeio pela noite do French Quarter de New Orleans a bordo de um táxi dirigido por um taxista chamado Júnior.

A fúria do violão Martin e dos slides perfeitos parecia uma miragem. Se não era guitarra aquilo, o que era?

“Não é tecnologia. Uso apenas alguns amplificadores dos anos 1960”, disse Roy, explicando a este espectador, após o show, à frente de um bife com salada, a acachapante sensação de amplitude que seu instrumento causa. Ele disse que apenas dispõe os “amps de um jeito 10h10”, ou seja: em forma de V, e alcança o efeito sonoro robusto que parece um estouro de uma manada de búfalos no coração do clube.

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