O cosmopolitismo da banda pernambucana Ave Sangria no Nordeste dos anos 1970 desmente todas as teses sobre a evolução do som regional que desenvolvemos nos últimos anos.

Na Choperia do Sesc, ontem à noite, eu ficava ouvindo o som hipnótico daquelas guitarras (Paulo Rafael e Almir de Oliveira), do baixo e das vocalizações do grupo e dizia a mim mesmo que nada poderia ser mais equivocado do que o Nordeste sonoro que eu tinha imaginado para aquela década dos 70. Eu sempre imaginei um universo sonoro de celebrações coletivas (o frevo, o maracatu) e as derivações híbridas que juntavam asteróides do sertão com Beatles (Os Quatro Batutas de Zé Ramalho), Stones e Hendrix.

Mesmo o disco Paêbirú, de Zé Ramalho e Lula Côrtes, que é visionário, é fruto de uma cópula entre cogumelo alucinógeno e progressões infinitas e circulares de martelos agalopados.

Mas, no sábado à noite, estava ali à minha frente, sob a pele de um Ave Sangria redivivo (fazendo a primeira turnê de um novo disco após 45 anos), um produto da fissão nuclear entre John Bonham e o Cego Aderaldo, Tony Iommi e Jackson do Pandeiro, Keith Relf e Patativa do Assaré. Caiam por terra ali, frente aos meus ouvidos incrédulos, todas as minhas profecias de paróquia, todos os diagnósticos da assimilação acidental.

“Isso é rock nordestino.Aliás, eu queria dizer que está aí entre vocês um amigo nosso: Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado.A gente queria dedicar essa música a ele”, disse o vocalista Marco Polo, antes de espalhar ferro sobre o mangue.

Os versos do Ave Sangria que se separam da massa sonora de guitarras e estrondosa bateria (de Júnior do Jarro, novo na trupe) parecem reerguer uma encíclica antiga, uma declaração de princípios esquecida: “Só resta eu com a minha faca”, canta Marco Polo. É uma lírica que tem um tanto de Rimbaud e outro de Zé Limeira.

O poeta suicidou-se de repente

Deu um teco na ideia e silenciosamente
Nos abandonou

(O Poeta)

    
E era evidente que os veteranos do Ave Sangria tinham sido mais do que alfabetizados políticos: “Tem que despertar o senso crítico. Sem sociologia e sem filosofia não tem senso crítico. Por favor, né?”, disse Marco Polo na Choperia.

O único “hit” do Ave Sangria, se é que se pode dizer isso, é o samba psicodélico Seu Waldir, um verdadeiro colar de alho para os homofóbicos, que pode ter levado inclusive a censura a tolher o desenvolvimento do grupo no passado. Um estudioso e amigo, Rafael Pinto Donadio, fez um estudo do udigrudi nordestino e biografou a banda, que foi Tamarineira Village antes de ser Ave Sangria (e mudou de nome para não ter que ficar explicando a origem daquele). Tamarineira Village foi homenageada por Zé Ramalho no disco Opus Visionário.

“Nada de novo no front. E na retaguarda também”, diz a música Por quê?, que lembra terrivelmente Belle de Jour, de Alceu Valença, banda para onde foram tocar Paulo Rafael e Almir, após o final precoce do Ave Sangria. Não é apenas dali que se vê o futuro a partir do passado do Ave Sangria: o mangue beat teve boa cama, todo mundo bebeu fartamente dessa fonte. O mais bacana é que agora eles também podem beber do próprio destilado psicodélico que criaram, resgatados pela própria grandeza.

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