A cantora cearense Nayra Costa


Jorge Helder, aos 56 anos, já tocou com Caetano, Gil, Chico, Bethânia, Ney, Cassia Eller, Zelia Duncan e toda a constelação da MPB. Mas é interessante: mesmo com tal prontuário, Jorge não exauriu sua curiosidade acerca dos novos intérpretes e das novidades frescas da música. Parece um garoto no meio dos garotos, insuflando uma divertida irresponsabilidade em si mesmo. 

 Durante esse Carnaval, Jorge, que é cearense expatriado, praticamente carioca, foi astro da segunda edição do festival Cocoricó Jazz, no restaurante Cantinho do Frango, em Fortaleza. Helder se apresentou com seu quinteto esgrimindo o refinado  repertorio de Toninho Horta – acompanhado de Marcio Resende (sax), Hermano Faltz (guitarra), Tito Freitas (teclado) e David Krebs (bateria), tocou Viver de Amor, Essas Coisas Todas, Waiting for Angela, Pecém, Mountain Flight, Diana, Beijo Partido e Manoel, o Audaz. Mas Jorge Helder também fez o solidário papel de satélite de um combo apetitoso de novas (e insolentes) caras da música. 

Uma dessas criaturas deu o ar de sua graça no Cocoricó. Cearense de 34 anos, a cantora Nayra é provavelmente uma das mais impressionantes cantoras da nova safra em atividade. E põe atividade nisso: na mesma noite em que encarou o repertório do jazz e do blues, após cantar por quase duas horas, sob pedidos insistentes de bis, Nayra se desculpou por não poder atender, já que cantaria em outras duas casas na mesma noite.  

 O que a torna extraordinária? Poderia ser a potência vocal, mas certamente isso sozinho não credencia cantora alguma ao Olimpo. Sacrílega, selecionou um lote de canções do repertório de Etta James e Nina Simone para seu set. Entre elas, I’d Rather go Blind, I wish i knew how it would to be free, Summertime, Ain’t Got No, I Got Life, Feeling Good, entre outros clássicos. Como essa menina se atreve?, perguntaria um desavisado da plateia.

 “Eu toquei com Cassia Eller”, diz Jorge Helder. “Ela (Nayra) é da mesma categoria”. Jorge sabe que pode soar herético, mas diz a frase sem qualquer empostação, maior naturalidade. Quem também concorda que Nayra pertence ao grupo dos ETs é o impressionante saxofonista Márcio Resende (que foi aluno de Joe Lovano em Nova York durante 6 anos).

Nota-se que, a partir do momento em que Nayra solta a voz, ela não mais se preocupa em se poupar, em momento algum do show se percebe que ela esteja se guardando para explodir mais adiante (algo bem legítimo, por sinal). Canta sempre no centro do ciclone, como se fosse a última vez. A maquiagem que cobre totalmente suas pálpebras,  como uma máscara de melindrosa de J.Carlos, realça seu estilo blasé, de distraído desinteresse. Parece que Nayra é a ponta de um iceberg de uma geração de novos intérpretes colossais no Ceará. O outro monstrinho dessa safra é Oscar Arruda e a sua Bird on the Wire Band. Ele canta Leonard Cohen, simplesmente. Fez da canção The Partisan um manifesto da nova rebelião. Pedi um vinil, ele não conseguiu trazer porque está enrolado com seu doutorado. Daqui a pouco falo mais dele.

          

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