Cena 1: A CRUELDADE

As patas da besta frequentam Porto Alegre (RS) na semana histórica do dia 24 de janeiro de 2018. A crueldade é a prova dos nove na cidade de onde o borjense Getulio Vargas partiu em 1930 para fazer uma revolução mista autoritário-trabalhista e tomar o poder dos territórios tupis-guaranis ao norte.

A operação de guerra peemedebista-tucana-direitoextremista está montada sobre os pilares da crueldade contra as brasileiras e os brasileiros mais pobres, como estamos carecas de saber desde que o golpe de Estado passou a governar o país via usurpação e ocultação de cadáveres.

Tal qual no desmonte de uma estratégia para a educação, na entrega do pré-sal, na ~reforma trabalhista~ (ou melhor, re-escravagista) ou na tentativa ~reforma da previdência~ (ou melhor, de extermínio e assassinato programado), tudo converge para o isolamento radical da maioria pobre brasileira. Quando marchamos da Esquina Democrática para o acampamento campesino, percebemos facilmente que a estratégia da reação é de nos isolar, tal como se fôssemos um tumor instalado no tecido social brasileiro.

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O acampamento de rebeldes da resistência democrática (com avassaladora maioria de pobres) foi deslocado para uma zona árida do coração de Porto Alegre, espremida na orla do rio Guaíba, de acesso à margem de um canal poluído por vias expressas desérticas, desossada de carros, ônibus ou seres humanos isentões nas redondezas.

Muitos agentes de trânsito, muita polícia de diversas fardas, muitos destacamentos de choque posicionados para o ataque a cada poucos metros.

Vestidos majoritariamente (e orgulhosamente) de vermelho, de peles majoritariamente (e orgulhosamente) morenas e de origem majoritariamente (e orgulhosamente) pobre, nós que participamos da resistência fomos isolados do convívio do resto do tecido social como se fôssemos a febre amarela (ou vermelha), a lepra, a aids, o câncer cujo alastramento a quimioterapia narcocapitalista (sem médicos cubanos!) precisa a todo custo interromper.

Estamos colocadas a muitos e muitos quilômetros do sítio jurídico-golpista onde o golpe (não) se consumará. No trajeto não há água, não há comida, não há sombras, não há solidariedade extramuros. Estamos numa enorme prisão a céu aberto, a única capaz de confinar os ideais que expressamos.

Não há possibilidade de corpo-a-corpo com a maioria indecisa e titubeante que hoje pende para todo tipo de golpismo e que é preciso chamar à razão. Tudo é modulado para nos desanimar, desolar, desossar.

Mas o diabo mora nas inversões: nós sabemos que nós somos as células saudáveis num tecido social hoje corroído pelo câncer de pâncreas do ódio aos pobres e pelo câncer de pulmão do falso isencionismo protofascista que tira o ar e o fôlego do Brasil de 2018. Marina SilvaMarcelo FreixoRegina DuarteWilliam WaackFernanda MontenegroGisele Bündchen, Caetano Veloso e a trupe protofundamentalista 347 não estão presentes nestas manifestações fincadas na terra por onde campearam Erico Veríssimo Mario Quintana e João Goulart Elis Regina e o gringo Samuel Wainer Júpiter Maçã etc.

Glauber Rocha estão mortos, e os golpistas do campo supostamente progressista são parte do câncer que nos acometeu. O câncer é suicídio, todo mundo aqui em Porto Alegre tem um amigo ou uma amiga que se suicidou. As ruas estão apinhadas de ~moradores~ famélicos, igualzinho a São Paulo e a qualquer grande cidade do país golpeado.

As células de câncer são suicidas, mas elas estão do lado de fora dos cordões de isolamento. O paciente morrerá tão mais rápido quanto mais se tentar nos isolar e extirpar a saúde de nós.

 

Cena 2: AS CONVICÇÕES

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A solidão do choque

Embora mineira, Dilma Rousseff discursa feito anfitriã nas ruas de Porto Alegre. Conforme Luiz Inácio Lula da Silva fica rouco, hoje é ela quem fala de modo mais nítido, firme e direto aos corações de nós todas mulheres pretas pobres que aqui estamos nas imediações do bairro porto-alegrense de Tristeza. Não por acaso, quando o golpe misógino sofrido por Dilma se abate, com a força violenta do abuso e da tropa de choque, sobre Luiz Inácio, é ainda ela que os exércitos de trolls e robots temem e atacam mais ainda que a Lula. A voz de Dilma é tóxica para as células cancerosas isoladas extramuros.

Globo, a Rede Câncer, não transmite a voz de Dilma porque está com a grade tomada pelas vozes de Big Brother Brazil. O câncer se alastra velozmente, mas o trabalhista gaúcho Leonel Brizola está vivo, vivo, muito vivo, vivíssimo.

E o que Dilma nos diz? Tal como quando foi pela primeira vez panelada, no Dia Internacional da Mulher de 2015, Dilma diz muito e eu não vou tentar decifrá-la (você, célula saudável, cancerosa, mista ou indecisona, tem 100% de ouvidos e cérebro se quiser usar). Apenas arrisco dois comentários.

1. Na Esquina Democrática, Dilma se reporta a Lula como seu (nosso) comandante, ciente de que Lula, e mais nenhuma outra palavra-símbolo, é que é anagrama de povo. Mas ela está ciente, também, de que está mais forte do que ele para aguentar e superar o tranco. Ambos conhecem o câncer.

2. Na praça Marechal Deodoro (ó, santa praça republicana positivista militarista ultracatólica medrosa de povos e gentes) em frente à Assembleia Legislativa Gaúcha, Dilma professa palavras mágicas. Deixando subentendido que, como todo(a)s sabemos, o trabalhador que virou líder trabalhista Lula é um negociador por excelência, ela antecipa algumas casas do jogo (faço de memória e intuição a transcrição distorcida das palavras d’Ela): “O que Lula não negocia nem nunca negociou são suas convicções”. As convicções de Lula estão diante dele, dela, de todas nós: 40 mil, 70 mil, sei lá quantas mil células saudáveis de sinapses azeitadas pela serotonina da democracia, da justiça, da cidadania, da quimera da igualdade.

A quantas devem andar as negociações no submundo subterrâneo dos cérebros que nos governam a todas? Será que las bruxas, las hay? Aguardamos.

 

Cena 3: GATO-E-RATO

Como diz Jessé Souza, o golpe é burro, apesar de (acrescento eu) muito, muito, muitíssimo esperto e insidioso – o câncer é esperto em provocar o suicídio de seu hospedeiro e a morte final da própria moléstia.

E, menina, a guerra entre o câncer e o organismo provoca cenas engraçadas de caçada, tipo gato-e-rato de cartum.

IMG_5855Pela manhã da véspera 23, as luzes da Assembleia Legislativa se apagam na hora em que Dilma e mais um tanto de mulheres deveriam discursar em prol da cura e da sanidade mental. (Que país é este onde nem as luzes da Assembleia Legislativa, do Parlamento, do Supremo Tribunal Federal, do TRF-4 e de Moroland funcionam mais?) O golpe é esperto para apagar as luzes, mas é burro porque, privadas do espaço confinado, as mulheres temos de descer à praça, ao ar livre, à liberdade, à ágora lotada de vermelhos e furta-cores.

O Estado de exceção é esperto feito o câncer ao erigir o gigantesco cordão de isolamento ao redor das células saudáveis que ameaçam o progresso do câncer. Empurra as sem-terra, os sem-teto, as sem-mídia, os sem-democracia e as sem-nada para quilômetros e quilômetros e quilômetros longe do epicentro jurídico-midiático-golpista que cortará o pescoço de Antônio Conselheiro, de Lampião, de Zumbi dos Palmares. A exceção é burra (além de cruel), porque ao tentar nos diluir nos concentra, nos avoluma, nos faz alastrar pela cidade sitiada, pelo país sitiado.

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O golpe cancerígeno é esperto, porque precisa cortar celeremente o pescoço de Luiz Inácio Virgulino Palmares Brizola Rousseff Goulart Vargas da Silva BraSil. São Borja palpita a ponto de fervura. O golpe é burro, porque na inevitabilidade de decretar a sentença faz enfim o serviço de pela primeira vez concentrar num só tempo-e-espaço toda a resistência nacional dissipada pelo próprio desânimo, pelo próprio cansaço, pelo próprio medo das botas, das bombas, das bandeiras. Mas que doença letal tem coragem de bombardear 40 mil ou 70 mil ou 54 milhões de células de uma só vez?

A marcha se espalha feito fumaça por Porto Alegre
A marcha se espalha feito fumaça por Porto Alegre

 

Cena 4: A GUERRA DE POSIÇÕES

Há quem se queixe (é caso do bravo italobraSileiro Mino Carta, célula anticâncer incansável do alto de 84 anos de vida) da passividade inquebrantável do povo pobre brasileiro. Todas nós nos queixamos, frequentemente no mesmo parágrafo em que trocamos o bafo quente das ruas pelas quatro paredes solitárias da vida virtual.

Mas a operação de guerra montada pelo câncer antipobre (etc.) renova em mim a dúvida. Somos mesmo esse povo ~ordeiro~, ~cordial~, ~malandro~, ~(corno-)manso~, feito do barro híbrido de malemolência, benevolência, subserviência e ~jeitinho~? É o sono dos fracos que nos colocou e nos perpetua no câncer leitoso suicida contra nós mesmos?

Tenho sinceras dúvidas. Ao mesmo tempo em que reconheço que a maioria de nós está GOLPISTA (seja pela ação, seja pela omissão), sei que estou prestes, tal qual a tropicália e o AI-5, a completar 50 anos. Temos memória, ao contrário do que a Rede Golpe tenta há décadas nos impor. Sabemos as mortes e as perdas que o golpe e a ditadura anteriores provocaram. (Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais?)

A tarde de 23 de janeiro de 2018 cai feito um viaduto sobre Porto Alegre
A tarde de 23 de janeiro de 2018 cai feito um viaduto sobre Porto Alegre

Dito isso, que guerra de posições é esta em que nos encontramos na manhã de 24 de janeiro de 2018?

Nos encontramos apáticos, inertes, isolados?

Estamos brincando de gato e rato com um regime fascista-autoritário-violento louco para endurecer?

Caímos na tosca ladainha pata da Fiesp de que este não é um golpe mole, ditamole, tíbio, sem direção nem destino?

Ou estamos dando corda para o suicídio épico e estrondoso do câncer que quer nos (se) matar?

Quem é mais burra, quem é mais esperto, quem é mais inteligentA neste macabro filme de zumbis sul-estadunidenses?

Quem se arriscará a nos dizer de que é feito o GOLPE, de que é feito o golpismo (im)popular braZileiro que quer nos suicidar?

Quem vamos ficar vivas até o último episódio desta nossa linda saga cabocla? Acompanhemos.

 

(P.S.: Sem hora certa para parar, continuarei fazendo transmissões ao vivo de Porto Alegre via Twitter, pelo @pdralex. Esta cobertura está sendo financiada exclusivamente por um sistema de vaquinha entre células saudáveis, marotas, que fazem sinapses gostosas entre si. Se puder e quiser colaborar, o caminho é este.)

(P.S.2: Agradeço emocionado a quem já colocou o próprio suor no engordamento da vaca, assim como aos geniais anfitriões Katarina Peixoto Marco Weissheimer e à adorável cicerone Paola Oliveira, que me proporcionou, entre outras maravilhas, a vista privilegiada das fotos de multidão acima. A Rede Golpe e o Partido da Imprensa GOLPISTA cometerão assassinatos, se for necessário, para ocultar de nós estas quentes imagens.)

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