Aldir Blanc não é um contemporizador. Aos 71 anos, rema contra a maré contemporizadora da maioria de seus pares e faz as honras de compositor de peças colossais da música brasileira como “O Mestre-Sala dos Mares” (1974), “De Frente pro Crime”, “Corsário” (1975), “O Rancho da Goiabada” (1976),  “Tiro de Misericórdia” (1977), “Querelas do Brasil” (1978), “O Bêbado e a Equilibrista” (1979), “Da África à Sapucaí” (1986), “Catavento e Girassol” etc. etc. etc. – e fala, aberta, livre e corajosamente, sobre golpes e golpistas, estados de coisas e estados de exceção, ditabrandas e ditaduras.

Sem querer se encontrar pessoalmente, Aldir prefere o e-mail, e a conversa começa e prossegue caótica, desobediente, desaprumada – e enfeitada por tiradas tão agudas quanto as que povoam a obra poética costurada desde 1968 com parcerias musicais que fez e desfez com Sílvio da Silva Jr.Cesar Costa FilhoJoão Bosco (o quase engenheiro civil que deu vida musical perene às letras do ex-médico psiquiatra), Sueli CostaMaurício TapajósDjavanEduardo GudinMoacyr LuzGuinga (o ex-dentista cuja música exigiu versos intrincados do ex-médico), TavitoEdu Lobo, Ivan LinsCristóvão Bastos etc. etc. etc. Aos parceiros tenta dispensar tratamento mais cuidadoso, mas nem com eles chega a guardar muitas papas na língua.

Mais amoroso que nunca se mostra diante das inumeráveis intérpretes femininas que se encantaram por sua poética. O arco é amplo e inclui, em ordem mais ou menos cronológica, Clara Nunes, Maria CreuzaClaudette Soares, MaysaElis Regina (a gaúcha que elevou o carioca ao panteão dos maiores), Eliana PittmanElizeth CardosoMaria AlcinaMarleneSimoneAdemilde Fonseca, Angela MariaVanusaClementina de JesusJoyce MorenoClaudiaQuarteto em CyMarília Medalha, Nana CaymmiZizi PossiZezé Motta, MiúchaCristina BuarqueBeth CarvalhoTelma CostaElza Soares, Leila PinheiroEliana de LimaAlaíde Costa, Leny AndradeFatima GuedesElba RamalhoFafá de Belém, TitaneMaria BethâniaSandra de Sá, Angela Ro RoVânia BastosZélia DuncanClarisse GrovaDorinaRebeca Matta, Ana de HollandaRosa PassosAlcioneCéuDaniela MercuryMariana BaltarFabiana CozzaMônica SalmasoMaria Rita etc. etc. etc. Tampouco Aldir, à esquerda, mas aparentemente rebelde à correção política, abdica de agulhar um feminismo que reprovou a letra d'”O Coco do Coco” (1996) (*), feita sobre alusões sexuais explícitas em pessoa feminina. Em 2017, na voz endiabrada da cantora portuguesa Maria João, “O Coco do Coco” provavelmente não escaparia nem das feministas, nem da juventude de direita que se vê no direito de fechar exposições de arte por (supostamente) confundir denúncia de pedofilia com apologia à pedofilia.

Nas linhas abaixo, Aldir Blanc fala sobre Aldir Blanc – um bocado, mas nada perto do que as letras de Aldir Blanc já falaram, frequentemente avançadas no tempo em algumas décadas, sobre o Brasil e a condição humana dos humanos mais oprimidos pelos humanos.

2005 Vida Noturna

Pedro Alexandre Sanches: Acabou de chegar aqui em casa o disco da Maria João, que estou neste mesmo momento ouvindo (o exu caveira aparece no exato instante em que escrevo esta linha). Há pouco passou a sua voz, na introdução de “Sede e Morte”, e não paro de me perguntar que sentimentos passam por você ao ouvir este A Poesia de Aldir Blanc. Pode contar um pouco a respeito?

Aldir Blanc: É incrível, o Sesc não mandou ainda o CD para mim. Estou pressionado por vários pedidos de entrevista, mas quero dar uma resposta com o CD na mão, ao invés de falar sobre um trabalho tão corajoso da Maria João por faixas soltas recebidas por e-mail, às vezes sem a mixagem definitiva.

PAS: Pulo então essa pergunta, enquanto você não ouve o disco inteiro. Ouvindo no disco da Maria João uma nova versão de “O Coco do Coco” (1996), fiquei pensando nas canções de aspereza e de intimidade que você tem escrito em anos recentes. É bonito – e desafiador das normas – ouvir uma dama rimar “peteca” com “xereca”, falar do “ovo no cu da galinha”, mas, junto disso, cantar o sexo de uma maneira tão crua e sincera. Como você definiria a poesia da sua maturidade, tomando exemplos como esse do “O Coco do Coco”?

AB: “Coco do Coco” é um caso muito particular. A Leila Pinheiro já estava entrando em estúdio. Os caras da gravadora (a multinacional EMI) não queriam um CD dedicado ao repertório Guinga/Blanc. Diziam que ia encalhar. Chegaram a exigir que apresentássemos cerca de 30 músicas, para que o repertório pudesse ser selecionado… Mexeram com os compositores errados. Fizemos umas 30 músicas inéditas para o CD. Várias forem gravadas depois, e outras se perderam na esculhambação crônica do Guinga, o que acabou me fazendo cortar a parceria e as relações pessoais, devido à estupidez de uma resposta dele à cantora Mariana Baltar e ao Jayme Vignoli, meu amigo e parceiro, produtor da Mariana. Bom, Catavento e Girassol, graças à coragem da Leila, vendeu perto de 100 mil cópias. Até hoje, acho que maquiaram os números pra baixo só para não dar o braço a torcer. “Coco do Coco” inspira-se na belíssima tradição picaresca de músicas nordestinas, baiões, cordel, que tratam o sexo de forma escrachada – e verdadeira. Claro que algumas feministas politicamente corretas sentaram o pau e o fizeram porque se arvoram a saber uma porção de merdas, mas não conhecem picas de cultura popular. O CD da Maria João acabou de chegar. Vou ouvir e responder amanhã à primeira pergunta.

PAS: O disco da Leila é de 1996, já meio reta final do reinado absoluto das grandes gravadoras multinacionais. Você descreveu uma situação oposta à que a maioria dos artistas descrevem – eles geralmente afirmam que não há interferências das gravadoras no trabalho artístico, que trabalham em total liberdade etc. Não é assim? Não era assim antes, quando Elis Regina gravava o repertório de Aldir e João Bosco? E hoje, depois do declínio do poderio das multinacionais do disco, como é?

AB: Ninguém era louco para se meter com Elis ou Maria Bethânia, mas havia interferência, sim, e muita. Só para contar um causo: quando Fafá de Belém estourou o tema especial para a novela Tieta (“Coração do Agreste”, de Moacyr Luz/Blanc), a gravadora (a também multinacional RCA) quase pirou, porque se preparava para lançar a Fafá no mercado latino de salsas etc. As rádios, no dia seguinte à primeira excução na novela, não aguentavam mais os pedidos para tocar a música. A gravadora ficou louca de raiva com seus planos mirabolantes frustrados, mas teve que engolir. A música – o que mostra bem a burrice de certas “invenções” de produtores – foi sucesso durante quase um ano. O LP vendeu cerca de 2 milhões de cópias…

Você sabia q o primeiro LP do João Bosco (João Bosco, de 1973), aquele com capa verde do grande pintor Carlos Scliar, era com o Tamba Trio e arranjos do Luiz Eça? A RCA vetou o LP inteiro e chamaram o Rogério Duprat para refazer tudo. Tiraram uma suíte para os Arcos da Lapa de quase 12 minutos de duração, lindíssima. Deve ser gravada agora pela pela vez pela Mariana Baltar, graças a uma pesquisa de Jayme Vignolli e Rildo Hora, que acharam a gravação perdida.

PAS: Aldir, nesse sentido das interfências você diria que o desmoronamento das gravadoras foi bom para a música? Ou os mecanismos de controle se renovam por outras maneiras? E quanto à sua trajetória artística, como você avaliaria hoje o balanço entre a necessidade de resistir e continuar existindo, desde a juventude até hoje? Não deve ter sido fácil para o João Bosco (mas também para você, como co-autor de quase todas as músicas) se espremer entre a alegria de gravar um primeiro disco e as pressões de fora para dentro.

AB: Trata-se de uma resposta muito complicada, Pedro. Esse desmoronamento se deve a um outro tipo de roubalheira: a pirataria e os criminosos que vivem de gigantescas empresas de baixar downloads. Você deve ter visto a prisão, por pouco tempo, de um neozelandês tipo Geddel, a mansão inacreditável, as dezenas de carros de grife que o ladrão colecionava etc. Foi preso um tempinho, foi solto e postou debochadamente de enorme piscina. Um outro dado que posso dar: por mais discutíveis que fossem os pagamentos trimestrais das editoras ligadas às grande gravadores (já que nunca permitiram a numaração de LPs e CDs como sendo “inviável”…), os compositores sabiam que haveria o recebimentos do trimestre de vendas de direitos fonomecânicos de três em três meses. Isso era quase comemorado – e agora murchou para quantias humilhantes -, e é preciso lembrar, trimestrais! Pega-se lá e mixaria, por exemplo, R$ 2.000, mas a realidade desse pagamento e dividida por três ao mês. Dou em exemplo: expulso da Sicam (Sociedade Independente de Compositores e Autores de Música) por um simples pedido de prestação de contas nos anos 1970 – o único período em que botei quatro músicas diferentes entre as primeiras 12 colocadas -, deixei de receber os direitos autorais de execução pública dessas e de outra músicas. Mas, mesmo assim, só com os direitos das vendas dos LPs de Elis, João Bosco, Maria Alcina, Simone e MPB 4, pude sair de um quarto pinico-e-fogareiro para um apê velho, mas grande na Muda, comprado por mim, onde moro até hoje.

Faltou o comentário sobre o CD de Maria João. Acho um disco assombroso, pela ousadia, pela coragem da Maria João. Uma cantora consagrada em Portugal, adotada na África, apaixona-se pelas letras de um autor de 70 anos e lhe dedica um CD inteiro, inclusive regravando músicas que tinham gravações clássicas, de Elis, Fatima Guedes, Leila Pinheiro… Adoro o CD por essa capacidade de ousar, arriscar-se com arranjo, com o apoio de grande músicos. O resultado pra mim é belíssimo, de lavar a alma. E ainda começou minha parceria com André Mehmari, gênio total, e logo a canção (“O Sonho”) que homenageia a família Veríssimo, que todos aqui em casa amamos de paixão.

PAS: E há quem acredite que Geddel e correlatos são fenômenos exclusivamente brasileiros, não é mesmo? Aproveitando esse tema. Quando estávamos na era Lula, inúmeras vezes eu reouvi sua obra com João Bosco tendo a impressão de que vocês anteviram em 30 anos o Brasil de Lula. “Dois pra Lá, Dois pra Cá”, “Kid Cavaquinho” (1974), “O Ronco da Cuíca” (1975), “O Rancho da Goiabada”, “Incompatibilidade de Gênios”, “Miss Suéter” (1976), “Linha de Passe”, “Boca de Sapo” (1979), “Nação” (1982) ou “Jeitinho Brasileiro” (1984), só para citar alguns exemplos, narram um Brasil que resplandeceria com Lula, e que vive ainda hoje, nas caravanas dele pelo Nordeste. É um delírio meu, ou você tem essa dimensão também?

AB: Dizem que ninguém é profeta em sua própria terra, mas João e eu fomos! Veja o caso de “De Frente pro Crime” (1974). Mais de 40 anos depois, ainda retrata o Rio de Janeiro. E mais: deu dois versos para o nosso futebol: “de frente pro crime”, quando o goleiro aguarda a cobrança do pênalti, e “tá lá o corpo estendido no chão”, quando a falta é feita e derruba o jogador. Sabe o que parte da crítica da época dizia desses sambas? “João Bosco e Aldir Blanc , com suas habituais obsessões com uma violência inexistente…”. Como disse num filmete de divulgação para o próximo CD do João, gostaria de soltar todos esses críticos no Jacarezinho para uma injeção de Brasil na bunda, ciceroneados por essa peça incrível, mistura de incompetência e farsa, o ministro da defesa neocoreano Jung Jong, que fugiria para Portugal no primeiro tiro.

Gostaria de fazer um adendo à parceria com o Guinga: Ele entrou aqui em 1988, mandado pelo Raphael Rabello e pelo Paulinho Pinheiro (Paulo César Pinheiro), porque stava pensando em desistir. O violão era pouco mais que um cavaquinho, todo remendado com fita crepe. E, no entanto, que músicas saíam! Fiquei fascinado. Ele estava nervosíssimo, falando palavrões pelos cotovelos (não conheço ninguém que fale tanto palavrão). Fizemos a parceria com bons resultados, mas notei logo que havia implicâncias com palavras, cismas, e que muitas músicas eram abandonadas logo depois de feitas. Ora, para resumir, o que adianta letrar nota por nota (Guinga não musica letra) músicas que chegariam a ter 50 ou 60 versos ou mais para não serem ouvidas??? Quando estourou a crise de estupidez com Mariana Baltar e Jayme Vignolli, preferi terminar logo com a constante chateação. Foi um alívio. Sabe que entre as músicas perdidas está “Mar de Rosas”, elogiada por ninguém menos que o (Jean-Claude) Carrière, escritor ilustre, roteirista do (Luis) Buñuel? Minha mulher tem tudo organizado, mas, por azar, o computador sumiu com essa, uma das minhas maiores tristezas. Vez por outra, desesperado, reviro cadernos e papéis, mas ainda não dei sorte.

PAS: Nossa conversa está pra lá de anárquica, mas vai ser um desafio delicioso editá-la. Esse adendo do Guinga me leva à sua relação com os parceiros, que são tantos e de tamanha estatura. De Cesar Costa Filho ao Guinga, passando pelo próprio João, você não parece hesitar em romper parcerias, não sei se amizades também. É seu temperamento que é, digamos, difícil, ou eles fazem por merecer? Também gostei muito do disco de Maria João. A empatia das cantoras com suas letras é espantosa, não é? São tantas e tão variadas, de Elis a Maria Alcina, de Simone a Marlene, de Clara Nunes a Dorina, de Clementina de Jesus e Elizeth Cardoso a Vanusa e Fafá de Belém… O que explica essa empatia?

AB: Essa relação com as cantoras é uma das grandes alegrias da minha vida profissional. Sim, depois do CD pra lá de corajoso que a Dorina lançou se endividando só de músicas minhas – e agora está no Catarse para poder lançar também  o DVD -, há o CD da Maria João, e Mariana Baltar prepara um CD com a participação do grupo Água de Moringa, já que o produtor dela, Jayme Vignolli, é meu parceiro e amigo e é cavaquinista do Água. Também o marido da Mariana, é meu parceiro, o violonista Josimar. Eles vão convidar vários músicos para cada faixa, encorpando os arranjos.

PAS: Há um projeto com Mariana em curso? Envolve a suíte perdida com João Bosco?

AB: Sim, Mariana Baltar deve gravar “Os Arcos – Paixão e Morte”. Se essas três lindas homenagens, quase simultâneas, não me matarem, nem preciso fazer novos exames… Por trás da pose, sou um tremendo chorão. Às vezes, um neto telefona de outro estado e minha mulher tem que tirar o telefone da minha mão e dizer: “Peraí um pouco! Deixa ele acabar de chorar!”. E é assim com música também.

Sobre histórias com parceiros, prefiro não falar. Impossível falar do Guinga sem entrar em detalhes terríveis. (O jornalista) Hugo Sukman salvou a carreira do Guinga ao não publicar as monstruosidades que ele disse sobre outros grandes compositores. Com o Bosco, Cristóvão Bastos, Jayminho, Moyséis Marques e muitos outros, tudo joia. Sobre Costa F. não posso falar por acordo judicial. E por opção minha, já que mortos não podem se defender, não falo sobre o MAU, o Movimento Artístico Universitário.

PAS: Puxa, minha próxima pergunta era sobre o MAU, então nem vou perguntar… Nem sobre se você viu o filme sobre Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, se gostou etc. Mas está para sair disco novo do João Bosco… Terá parcerias novas?

AB: Tem uma parceria nova que acho da maior importância, o samba “Duro na Queda”. Começa com um clima sombrio dos nos sambas de antes e se abre, como se a Esperança Equilibrista se recusasse a cair.

PAS: Você não acha que esse Brasil suburbano teu e do João, nunca frequentado abertamente pelas nossas chamadas elites, se revelou e se tornou inescondível (desculpe o palavrão haha) com os governos progressistas deste início de século? Como você mesmo explícita, talvez fosse mais fácil negar a existência da violência de “De Frente pro Crime” quando ela não explodia na nossa cara do modo como explode hoje… O mesmo dá pra dizer dos pais de santos, orixás, camelôs, boias frias, misses suéter etc etc que povoam tão lindamente teu imaginário. De onde e por que brota esse imaginário, Aldir? E, indo mais direitamente agora à política, onde e como fica agora essa população tua (e do Brasil), com o avanço de Michel Temer e a ampliação do estado de exceção?

AB: O que mais me revolta, Pedro, é que esse Brasil sempre esteve na cara de todos, só que aparece maquiado até hoje. Estou agora, a pedido de filhas, procurando dados sobre dois massacres na Alta Amazônia. Ocorreram, aí pelo sábado passado, muitos mortos por garimpeiros atiçados por um big boss(ta) ruralista. Sabem quem é. E daí? Ninguém vai preso. Não há notícia desses massacres recentes nos jornais, tevês, blogs. Um escândalo. Quanto ao Temereca, é o maior criminoso e entreguista do país! Sou contra a pena de morte, mas quando vejo o que esse merda está fazendo fico em dúvida se não seria melhor julgá-lo com rigor, direito amplo de defesa, mas com fuzilamento incluído na pena. Há muitos anos defendo que esse tipo de criminoso mata sem parar. Vi, trabalhando como médico, crianças morrerem porque as verbas para esquistosomose tinham sido roubadas. Elas entravam num rio considerado “limpo” e pegavam a doença. Institucionalmente, Temeroso é muito pior que Marcola e Fernandinho Beira-Mar juntos.

PAS: Na tarefa prazeirosa de revisitar sua obra para entrevistá-lo, me deparo com Maria Alcina cantando, em 2014, uma parceria com João chamada “O Chefão”, que salvo vacilo meu tinha lançada pela Marlene em 1974. Fez sentido ouvir Alcina cantando, antes mesmo de Dilma Rousseff se reeleger e ser trocada por Temer, sobre ter “as janelas sempre bem fechadas contra o perigo de um golpe”.  A letra fala de um golpe de ar, mas me traz duas reflexões: que já se podia falar de golpe (de ar) dez anos depois do golpe de 1964 (podia mesmo?), e que, incrivelmente, 53 anos depois daquilo tudo, estamos novamente sob golpe de estado. Como testemunha das duas situações históricas e autor de “O Bêbado e a Equilibrista” (1979), qual é a tua percepção sobre as semelhanças e diferenças entre 1964 e 2016? Você tem a sensação de estar vivendo tudo outra vez, ou são experiências distintas?

AB: Em um dos romances policiais do (espanhol ManuelVázquez Montalbán, se não me engano aquele em que o magnífico escritor devasta a Argentina (conheci o escritor no Rio, o entrevistei junto com o Paulo Roberto Pires, ou melhor, fiz duas perguntas enquanto o Pires o entrevistava de fato e sofri muito quando morreu; ninguém merece morrer no aeroporto, na hora de voltar pra casa), uma deslumbrante mulher, e é argentina, diz algo como: “Eles estão aí, esperando para nos matar de novo”. E isso num país onde um dos ditadores militares morreu na cadeia. Aqui ficaram todos os torturadores (crime que não prescreve nunca) soltinhos da silva, conspirando. O golpe voltou, um golpe constitucional. Isso existe. A Constituição pode abrir frestas para vários tipos de golpes, e só babacas dizem “se está na Constituição, não é golpe!”. Vão se fifar, burros – ou coniventes! O que vi de palhaço, que pegava jabá, era corrupto até a alma, considerando julgamentos de pedaladas “técnicas e corretas”, sem levar em consideração que Tribunardis levava bola quando parlamentável, Anastasia é corrupto, Cunha já está com a mão na grade, sem falar da Dra. Janaraca, pelo amor dos meus netinhos, sejam golpistas menos cínicos e safados!

PAS: Nesta semana já tivemos cancelamento de exposição de arte promovida por banco espanhol, supostamente por afrontar “a moral e os bons costumes”. Fiquei pensando quantas letras suas, especialmente as mais contemporâneas, poderiam caber nessa sanha repressora. Você acha que podemos voltar a uma treva comparável à dos anos 1970? Acredita que estamos numa ditadura, ou sob perigo de entrar numa?

AB: Bom, Pedro, sociólogos, historiadores, professores e artistas (como o imenso Raduan Nassar) mais importantes do que eu já escreveram que estamos num estado de exceção. Marun Maromba é o “novo relator” para barrar qualquer coisa contra Temereca, embora tenha recebido propina -assim como o presifraude – daquilo que vai “relatar”. Estamos vivendo uma ditadura com luvas de pelica (fedendo a fezes): tudo que se referir aos ladrões do Centrão e ao presidrácula será blindado. Isso não é democracia. E o Supremo, aquele do Teori que poderia tomar as rédeas, é incrivelmente frouxo. A Dra. Carminha só fala para proteger os seus. A Cega está com a venda erguida num olho só e vê o que lhe convém. Quero ver como farão para manter Joesley preso e livrarem a própria cara, já q estão todos – Janot, Temer, Gilmar, Meirelles… – no mesmo iate afundando.

PAS:  Queria perguntar sobre sua outra profissão, por dois flancos. Primeiro, sobre o papelão de parte da sua ex-categoria profissional (posso tratar assim?) em relação aos médicos cubanos, ao Mais Médicos, aos desrespeitos ao fundamento da medicina que é o de ajudar quem está precisando de ajuda. Segundo, queria saber o que há do psiquiatra nas suas letras, sejam as do jovem Aldir ou as de agora. Apenas divagando, a propósito, por que será que tantos médicos viram músicos?

AB: Começando pelo fim: acho que pode ser porque vemos tantas coisas horrorosas que procuramos um pouco de thleza, consolo, sei lá, em outra área – embora devo também dizer que uma de minha maiores honras é ter recebido do CFM a Comenda Moacyr Scliar por serviços prestados à medicina e às artes. Eu vi de tudo, Pedro, de tudo. Biópsias dolorosas feitas sem necessidade para engrossar a documentação de casos a serem apresentados no exterior, esparadrapo fechando “curativo espontâneo” onde deveriam ter sido dados uns oito pontos porque estava na hora da noturna dos cavalinhos… Qualquer médico tem muitas histórias assim pra contar, mas também vi muito heroísmo e dedicação.

PAS: Gostaria de ouvir você falar sobre suas letras, uma por uma, de cabo a rabo. Como infelizmente não é possível, me atrevo a pedir um comentário seu sobre duas delas. Uma, porque talvez seja minha mais amada (junto com “Tiro de Misericórdia”), é “O Rancho da Goiabada”. A outra é “Falso Brilhante”, por conta também da tensão que houve entre Elis/”Falso Brilhante” e Maria Bethânia/”Diamante Verdadeiro”.

AB: Rancho da Goiabada foi MUITO atacado, inclusive por babacas ortodoxos q diziam q b[oia-fria quer terra e não mulata ou fogão-jacaré. Foi um choque pra mim e João na época esses ataques – mas a música está viva até hoje. Quanto à segunda, se eu não estiver esclerosando, desconheço qq tensão entre Elis e Bethânia, Falso Brilhante/ Diamante Verdadeiro. Nunca ouvi falkar nisso. Fizemos “Falso Brilhante” p/ homenagear o pai do João, o excelente Seu Daniel, q era dublê de vendedor de seguros e mascate pelo interior de Minas, c/ brinquedos do tipo descrito na mala.

(*) como me alertou posteriormente o colega jornalista Mauro Ferreira, existe uma gravação de “O Coco do Coco” anterior à de Leila Pinheiro, de 1996; data de 1995, no disco Grande Tempo, de Fatima Guedes.

(Leia em CartaCapital a reportagem resultante desta entrevista.)

2 COMMENTS

  1. A única menção à tensão entre Elis e Bethânia que eu conheço foi em um comentário no blog de Mauro Ferreira,onde um fã-ardoroso de Maria Bethânia disse que preferia o diamante verdadeiro de uma ao falso brilhante de outra.Não entendi a comparação,segundo o Gilberto Gil,as duas tem temperamentos muito parecidos,quanto ao talento,a comparação também é injusta.

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