Os chicos Buarque e Brown - foto Leo Aversa
Os chicos Buarque e Brown – foto Leo Aversa

Desde que surgiu, antecipada, a cantiga “Tua Cantiga” tornou-se famosa no sentido polêmico do termo, graças aos versos adúlteros “largo mulher e filhos/ e de joelhos/ vou te seguir”. Antes mesmo de conhecermos o conteúdo todo do novo álbum Caravanas, o autor Chico Buarque foi fustigado no mundo virtual com adjetivos como “ultrapassado” e “antiquado”.

Não é novidade, já que é assim que nossa sociedade de juventude costuma tratar senhores que, como ele, somam 73 anos de vida.

É novidade, pois o flanco crítico principal brotou do universo feminino, das cada dia mais famosas e requisitadas feministas, outrora submissas apaixonadas (reciprocamente) pelo chicobuarquismo.

A capa de "Caravanas", que deve "vazar" a qualquer momento, mas foi antecipado para a imprensa
A capa de “Caravanas”, que deve “vazar” a qualquer momento, mas foi antecipado para a imprensa

Caravanas vem agora à tona, e há novidade no ar para além da antiga cantiga “Tua Cantiga”.

Toda aliterativa, a nova e cativante Massarandupió é uma parceria do respeitável senhor com o jovem Chico Brown (leia a letra abaixo).

A antiga Dueto (1980) é retomada em nova versão, com a substituição, no dueto, da voz original de Nara Leão pela de Clara Buarque. Francisco e Clara são netos de Chico Buarque, e filhos do homem-ritmo baiano Carlinhos Brown. O avô brinca com Clara em cacos adicionados à velha letra sobre astros, signos, dogmas, búzios, ciganas etc.: “Consta no Google, no Twitter, no Face, no Tinder, no WhatsApp, no Instagram…”. “No Orkut”, vovô acrescenta, risonho, para brincar de ressuscitar uma rede social tão ainda jovem quanto já defunta.

Orquestrada de modo antiquado (será?), a espetacular faixa de encerramento, As Caravanas, condensa o mistério e a revelação no novo velho trabalho do artista. A (c)antiga é protagonizada por negros e mestiços da cor de Carlinhos, Francisco e Clara (embora bem mais pobres), às vezes sob rudimentos de som primal de funk carioca. “Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria/ filha do medo, a raiva é mãe da covardia”, versa em momento-chave a canção devotada à ascensão social à revelia de sujeitos antes ocultos na jovem sociedade brasileira. O assunto do velho Chico, aqui, é a ascensão fascista que nos ameaça a todas. Não existe tema mais antigo. Nem mais atual.

Chico que não é Brown e Clara que não é Nunes - foto Leo Aversa
Chico que não é Brown e Clara que não é Nunes – foto Leo Aversa

 

Duas letras

“As Caravanas” (Chico Buarque)

É um dia de real grandeza, tudo azul/ um mar turquesa à la Istambul enchendo os olhos/ e um sol de torrar os miolos/ quando pinta em Copacabana/ a caravana do Arará – do Caxangá, da Chatuba

A caravana do Irajá, o comboio da Penha/ não há barreira que retenha esses estranhos/ suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho/ a caminho do Jardim de Alá – é o bicho, é o buchicho, é a charanga

Diz que maloca seus facões e adagas/ em sungas estufadas e calções disformes/ diz que eles têm picas enormes/ e seus sacos são granadas/ lá das quebradas da Maré

Com negros torsos nus deixam em polvorosa/ a gente ordeira e virtuosa que apela/ pra polícia despachar de volta/ o populacho pra favela/ ou pra Benguela, ou pra Guiné

Sol, a culpa deve ser do sol/ que bate na moleira, o sol/ que estoura as veias, o suor/ que embaça os olhos e a razão/ e essa zoeira dentro da prisão/ crioulos empilhados no porão/ de caravelas no alto mar

Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria/ filha do medo, a raiva é mãe da covardia/ ou doido sou eu que escuto vozes/ não há gente tão insana/ nem caravana do Arará

 

“Massarandupió” (Chico Brown-Chico Buarque)

No mundaréu de areia à beira-mar de Massarandupió/ em volta da massaranduba-mor de Massarandupió/ aquele piá/ aquele neguinho/ aquele psiu/ um bacuri ali sozinho/ caminha/ ali onde ninguém espia/ ali onde a perna bambeia/ ali onde não há caminho

Lembrar a meninice é como ir cavucando de sol a sol/ atrás do anel de pedra cor de areia em Massarandupió/ cavuca daqui/ cavuca de lá/ cavuca com fé/ oh, São Longuinho/ oh, São Longuinho/ quem sabe/ de noite o vento varre a praia/ arrasta a saia pela areia/ e sobre num redemoinho

É o xuá/ das ondas a se repetir/ como é que eu vou saber dormir/ longe do mar/ ó mãe, pergunte ao pai/ quando ele vai soltar a minha mão/ onde é que o chão acaba/ e principia toda a arrebentação

Devia o tempo de criança ir se arrastando até escoar, pó a pó/ num relógio de areia o areal de Massarandupió

 

Mais sobre Caravanas aqui.

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