Era um festival musical como qualquer outro, mas com algumas peculiaridades. A terceira edição do independente Vento Festival aconteceu entre 15 e 18 de junho no centro algo desvalorizado da cidade litorânea paulista de São Sebastião, o que amplificou e democratizou o alcance de público em relação às duas edições anteriores. Até 2016, o festival acontecia na elitizada ilha-município vizinha de Ilhabela, território de influência de um dos homens por trás de Michel TemerJosé Yunes. ao qual se chega de balsa frequentemente congestionada, de barco, ou de iate. Chegaram a acontecer atritos com a população local (que em 2010 contava com 4,48% de cidadãos pobres) na segunda edição, com recorte marcadamente queer, e neste ano aportou na velha São Sebastião, fundada em 1636.

Os guaranis da aldeia do rio Silveiras abrem o Vento Festival 2017 - Foto divulgação
Os guaranis da aldeia do rio Silveiras abrem o Vento Festival 2017 – Foto divulgação

Parecia um festival como qualquer outro, mas guardava especificidades para além do deslocamento de eixo rumo ao litoral norte paulista. O slogan do  Vento 2017 propôs um exercício de “olhar para dentro”, que rapidamente se revelou algo mais que um lema vazio ou meramente mercadológico. Na “Oca” eletrônica, a brasilidade imperava em fusões nordestinas e nortistas para lá dos domínios estreitos do bate-cabelo. Espalhava-se pela escalação de elenco um pendor evidente ao manifesto afrobrasileiro, indígena, libertário (em termos sexuais, religiosos, às vezes até políticos) e sobretudo feminino. No palco e na oca, a cantora Juçara Marçal (em cena com o Metá Metá) e o DJ Mauro Farina celebravam o orgulho, até então invisível, de se considerarem cidadãos de São Sebastião. A criançada da banda Francisco, el Hombre olhava para um futuro pan-americano, na mistura inventiva de integrantes mexicanos, goiano e paulistas interioranos de Sorocaba. O “fora Temer”, embora tímido e nada espalhafatoso, percorria cada apresentação e aqui e ali transbordava na camiseta do Movimento Sem Terra de um músico, na doce melodia antiTemer adaptada pelos cariocas do grupo Tono. Eleita por seleção popular como banda-revelação a estrear no festival, a trupe feminina curitibana Mulamba se apresentava como antígeno utópico ao Estado de exceção imposto pelos patrocinadores ocultos do juiz paranaense Sérgio Moro.

As garotas da Mulamba cantam em participação especial com Juliana Strassacapa, a mulher de Francisco, el Hombre
As garotas da Mulamba cantam em participação especial com Juliana Strassacapa, a mulher de Francisco, el Hombre – Foto divulgação

A temática negra, indígena, queer e feminina se concentrava numa homenagem jamais explicitada – mas onipresente – à cantora Serena Assumpção, morta no ano passado aos 39 anos. Filha do paulista interiorano de Tietê (mas criado em Arapongas, no Paraná) Itamar Assumpção (1949-2003), Serena esteve no Vento no show de sua irmã Anelis Assumpção, na presença do filho na plateia, na apresentação do Tono (que conduziu o show de Ascensão, disco póstumo de orixás de Serena), na vanguarda paulista brava do Metá Metá de Juçara, Kiko Dinucci Thiago França, nas várias mulheres DJs que governaram o primeiro dia da programação eletrônica do festival.

O vínculo com Serena é explicitado pelas duas mulheres que capitaneiam o Vento, a diretora de cinema Anna Penteado e a designer Tatiana Sobral, paulistanas radicadas em Ilhabela que se afirmam não só como produtoras do festival por intermédio da produtora Casco Conecta, mas também como casal. O “olhar para dentro” feminino ajuda a explicar as particularidades e especificidades do evento, que neste ano prosseguiu em carência de apoio público e privado (marcas como Red Bull, Estrella Galícia, Spotify e Rider estiveram presentes, mas num modelo anexo ao das ~reformas~ ~trabalhistas~ vampirescas de Temer, de troca de prestígio, transferência de visibilidade e patrocínio sem dinheiro). Na entrevista abaixo, elas contam como se faz, na prática, para ventar contra a corrente e as manadas acorrentadoras.

Anna Penteado e Tatiana Sobral

Pedro Alexandre Sanches: Queria que vocês contassem o que aconteceu para que entrassem nesse ramo de festivais.

Anna Penteado: Foi quando a gente veio morar aqui no litoral. A gente era de São Paulo, nascidas, superpaulistanas. Imaginava só sair de São Paulo e ir para fora. Mas aí a gente se encontrou e começou a debater o que queríamos para nossa vida. E a gente gosta muito de natureza, busca novas formas de economia criativa. Resolvemos vir morar em Ilhabela, dividindo o trabalho com São Paulo, porque ainda é muito difícil conseguir aqui. Nessa foi que a gente começou, descobrindo a cidade, a pensar: “Por que não pode acontecer alguma coisa culturalmente relevante aqui?”. Aqui é o poder público que dá cultura. Não vem de outra forma. Por ser de São Paulo, a gente veio trazer um pouco dessa energia para a cidade do litoral. E dentro disso surgiu o Vento, com essa ideia. Por que as coisas tinham que estar sempre entre aquele eixo de Rio e São Paulo, sendo que temos outros estados e cidades muito interessantes? Talvez até fosse muito mais impactante fazer numa cidade dessas do que onde já se respira cultura o tempo inteiro.

PAS: Vocês chegaram em que ano?

AP: Em 2014, na Copa do Mundo.

PAS: Mas já trabalhavam com isso? A Casco Conecta já existia?

Tatiana Sobral: Eu fiz design e depois trabalhei em agência de publicidade. Trabalhei numa agência em Tóquio e pirei com essa coisa de natureza, tecnologia, essa calma, esse estilo de vida. Voltei, pedi demissão da agência e criei a Casco, mas era design de produto sustentável, várias coisas em madeira. Era só a Casco. Quando a gente veio para a ilha, tentamos montar o ateliê aqui, montamos, e começamos a fazer alguns acontecimentos culturais da Casco aqui na ilha.

PAS: Qual a sua profissão de origem, Anna?

AP: Sou diretora de cinema. Fiz um longa e três curtas. Fiz o longa pela TNT, chama Empacados, produção 100% argentina. Dirigi lá. E trabalhava com publicidade, já dirigi campanha eleitoral, fiz a campanha para prefeita da Soninha Francine em 2008. Antes tinha uma produtora de conteúdo, em 2005 trabalhei com funk carioca, que foi minha primeira proximidade com música. Fui para o Rio fazer um documentário, morei um ano, no Borel com um QG na Tijuca. Aí conheci Mr. Catra, fiz algumas coisas com ele, fazia VJ para ele. Trouxe a Deize Tigrona para São Paulo. Fiz a primeira noite de segunda-feira do Vegas, que chamava The Royal Baile Funk. Sempre flertava com a música, porque era uma paixão minha, mais do que cinema. Mas achava que só amava e admirava e tinha amigos. Era muito mais da turma da música que do cinema. Achava o pessoal do cinema um pouco chato. Nessa época, morava com a Tiê, dividia apartamento com ela, em 2004, 2005, uma época muito rica. Era época do MySpace, foi quando todo mundo se encontrou, Tulipa Ruiz, Gustavo RuizTatá Aeroplano, os meninos do Mombojó, chegando em São Paulo, o pessoal da Nação Zumbi que tinha vindo morar aqui. A MTV ainda era muito forte. A gente morava do lado da MTV, tudo girava em torno, e eu vivia nesse universo. Como filmava, comecei a fazer o primeiro clipe de todas as galeras. Fazia uma noite na Lov.e, no anexo. Em 2010 resolvi fechar a produtora de conteúdo e focar em música mesmo, e montei o Indahouse, o projeto chamado Sound Hunters. Eu buscava bandas que estavam para estourar e filmava elas antes de qualquer um. Comecei a filmar não só o Brasil, mas outros lugares, principalmente Estados Unidos, a cena da Califórnia toda. Numa dessas teve uma banda que ficou muito famosa depois, The Lumineers, a gente que fez o primeiro conteúdo deles, a EMI comprou tudo depois. E comecei a filmar para vários festivais lá fora. Foi quando comecei a ter essa relação mais forte com os festivais, de enxergar, como estava filmando…

PAS: …Resolveu fazer um.

AP: Meio isso. Comecei a entender a dinâmica, como funcionava.

PAS: É sustentável esse negócio? Que balanço fazem dessa edição?

AP: Não. Não é sustentável. Ele pode ser sustentável, porque é algo feito como se fosse um momento de celebração. Conseguimos montar um grupo que já não é mais um grupo que se junta para fazer um trabalho. É um grupo que tem um ideal de vida. Todo mundo é todo mundo, tem o mesmo sonho, vive o sonho do outro, ajuda o outro a realizar o sonho. Nesse sentido é sustentável, porque não depende de uma estrutura ou da contratação de pessoas. Para o tamanho que tem, é de muito baixo orçamento.

PAS: Quanto custa? Quanto é dinheiro público, quanto é privado? Como se paga?

AP: É relativo dizer quando custa. Como a gente faz um evento de graça, não tenho uma planilha que fala de quanto vou sair. Isso vai sendo criado à medida que vamos construindo a história. Aí a gente vai vendo. Realmente é muito flutuante, já trabalhamos com orçamento de R$ 200 mil, de R$ 230 mil e com o dessa edição, de zero.

PAS: De zero é impossível… Os artistas custam dinheiro, não?

AP: Sim, mas a gente entrou no festival com zero. Das outras vezes a gente entrava já com o approach do patrocinador, que era a prefeitura. No ano passado a prefeitura deu menos já. No primeiro ano a gente estava muito limitado, deram o valor justamente para a gente não poder botar nenhuma outra marca, bar, nada. Foi só, dizendo a grosso modo, fazer uma curadoria. Nesse caso, a prefeitura bancou o patrocínio que seria todo, geral, do primeiro ano.

PAS: Quer dizer, pagou infraestutura e bandas?

AP: É, deu R$ 230 mil, que pagou tudo. Era muito mais tranquilo entrar no festival, porque já estava pago. No ano passado, já começou a mudar. Mudaram a gente de lugar, fomos para a praia. Começamos a ter outras questões, porque demorou um pouco a verba, e começamos a lutar um pouco mais, até para se entender um festival mesmo. No primeiro ano a gente deu o nome festival mais porque o cara deu três dias para a gente do que porque queríamos fazer um festival. Na verdade, queríamos fazer shows, mostrar cultura. E neste ano encontramos algumas dificuldades. Dependemos de um triângulo, que é a gente, o poder público e a sociedade. Se esse tripé não estiver encaixado direito, não adianta. Tenho que ir para o privado porque aí vou ter controle do público, vou fazer da maneira que quero. É um ano bem difícil, na real. Realmente foi um festival de resistência. É óbvio que chegamos num momento muito fácil, se compararmos com festivais mais antigos, como Molotov, Bananada, Goiânia Noise, RecBeat, que estão cortando grama há muito tempo. O Vento nasceu num momento em que a cena independente já estava numa ascensão. Talvez por isso em três anos ele já seja tão falado. A cena, até pelo que os outros festivais já fizeram, cresceu e acredito que vai crescer, vai ser a maior coisa. Não vai ter mais como abafar esses artistas e tentar nos colocar como algo amador. Por isso adorei aquela música que Anelis Assumpção fez, do Isca de Polícia, que fala que ele (Itamar Assumpção) quer tocar na televisão. Já tocou em terreiro, agora quer a TV. A cena agora é isso.

Anelis Assumpção canta no Vento Festival 2017 - Foto divulgação
Anelis Assumpção canta no Vento Festival 2017 – Foto divulgação

PAS: Se é zero de início, como faz? Como traz esse monte de artistas?

AP: Primeiro, a gente negocia muito com os artistas. O Vento já se propagou para eles, que acabam topando e entendem que…

TS: …É um novo jeito.

AP: A gente tem algumas coisas que possam ser uma moeda de troca, mesmo que tenha alguns problemas, uma logística de transporte superpequena, enxuta. A gente gostaria de dar muito mais, mas é isso, o que a gente pode. A gente é honesta, falou sempre as coisas. Os artistas sabem, “eu não posso pagar o seu cachê, mas te admiro, tenho essa história para contar, você faz parte dela”. Fiquei particularmente emocionada no final, porque o estado energético, emocional, de catarse das pessoas pós-show do Abayomy Afrobeat Orquestra

PAS: Você estava mais pilhada durante o festival, agora está tranquila, isso é sinal de que deu tudo certo?

AP: Não (risos).

TS: É sempre o mesmo problema de grana, mas é uma coisa que a gente já estava até esperando. Mas o resto está lindo.

PAS: Vai ter a quarta edição ano que vem?

AP: Acredito que sim. Boa pergunta. Vai ter ano que vem? Vai. Porque se este ano teve, com todas as negativas possíveis e imagináveis… Verbalizando, realmente a gente fala, caralho, como é que pode? Mas a gente realmente entrou com zero, zero, zero. A gente tinha uma grana nossa, atrasou um aluguel aqui, fez uma coisa ali, beleza, se der merda no primeiro dia a gente pelo menos tem uma coisa para movimentar, comprar coisa. A planilha é muito flutuante, mas à medida que vamos construindo a gente vai assumindo os riscos. A gente tem premissas a serem cumpridas, o pagamento dos cachês. Mas hoje a nossa dívida, o nosso custo, é transporte, alimentação, hospedagem e cachê. O resto, sabe quando gastaram para fazer a arte? Zero reais. Batendo em lugares, pedindo, indo no lixão, pesquisando, catando as coisas, retalho. Estou indo para o quarto ano, não sei se quero isso para a minha vida. Acho incrível, fiquei super-emocionada com as pessoas dizendo que foi incrível. Mas, no fundo, sei lá, as pessoas vão lá, mês que vem tem outro festival, quer vai ser tão incrível quanto, e a gente é que fica com isso. Isso é muito forte, a gente está construindo algo, mas onde ele vai chegar? O que você pretende?

PAS: Ilhabela ou São Sebastião?

TS: Eu acho que São Sebastião.

AP: Mas nada contra, moro em Ilhabela, amo Ilhabela, sou apaixonada pela ilha. Teve uma história maravilhosa, o Vento só existiu porque Ilhabela nos acolheu. Mas hoje, para o tamanho que foi esta edição, os policiais dizendo que no sábado tinha 7.500 pessoas aqui… Não acho que Ilhabela tenha estrutura para comportar o crescente que esse festival pode ter. Esta praça, e a própria costa sul, tem toda a possibilidade.

PAS: Esse crescente interessa para vocês? Estão felizes com ele?

AP: Ah, a gente fica, né? Mas ao mesmo tempo assusta, porque, como é um festival de graça, a gente não consegue ter uma dimensão.

PAS: De repente a gente estava num show e aparecia um monte de gente que não se sabia de onde surgiu.

AP: Exatamente. Vieram as informações da hotelaria, a gente não tem essa dimensão.

PAS: Ouvi uma dona de restaurante dizer que foi muito melhor que o Carnaval. Não sei se estava falando de quantidade de gente, ou de quê.

AP: Aqui tem 80 mil habitantes, se a cidade descobre… É um festival para o turista, mas somando a esse turista, o caiçara e quem mora na cidade passam a se descobrir também. A gente é sempre um espelho, né? Você, aqui, já nasceu nesta beleza, e de repente vem aquela pessoa que você acha estilosa, que você gostaria de ser, e aquela pessoa está no seu ambiente dizendo que aquilo é o que ela gostaria de ser. Isso faz você olhar e falar, “nossa, será então que este lugar em que eu nasci e cresci é maior legal?”. Você faz desconstrução e construção, desconstrução e construção. Fiquei emocionada com isso em vários momentos.

TS: Um caiçara da ilha que formou todos os Ventos com a gente falou: “Meu, eu nem sabia que este lugar existia”. Começou a existir porque foi ocupado (refere-se à grande praça em frente ao mar onde foi organizado o festival).

PAS: Sabemos que na Ilhabela no ano passado chegaram a acontecer problemas com o conservadorismo da cidade. Mesmo aqui, pessoalmente acho que a música brasileira está num momento muito forte, de invenção, com artistas com muita coisa para dizer, e novamente esta edição teve muita gente chegando no palco e falando explicitamente, se posicionando, num lugar que em geral está meio esquecido pela cultura. Como vocês estão vendo, nas outras edições e agora, esse encontro, esse espelho que você falou?

AP: Acho que aqui tem uma carga cultural bem mais forte. Hoje a banda marcial estava tocando, tem teatro na praça todo sábado, oficinas que funcionam superem na secretaria, de piano, pintura. Até mesmo os editais de cursos que lançam, tem edital para ser youtubber, game, essas coisas. Ilhabela ainda está com um pensamento… Por mais que tenha muita gente interessante, com tudo para ser uma sociedade pensante onde natureza e progresso caminhem juntos, se amarra muito ainda a, não sei se por ser uma ilha e não ter outros fluxos, outras energias, a às vezes ter algumas energias que quando começam a ganhar mais força vibram e acabam atraindo uma massa que não necessariamente acredita piamente nesse discurso, mais por comodismo ou por ser mesmo manobra acaba indo. O que sinto é que existe uma energia ainda coronelista lá, em que poucas famílias mandam, aquela coisa muito do meu sucesso baseado no fracasso do outro, não do meu sucesso baseado no meu trabalho. Isso é muito, muito difícil às vezes.

PAS: Mas não podemos afirmar que aqui em São Sebastião não exista o mesmo também, podemos?

AP: Não, eu já vi. Estava olhando os facebooks da vida, tem coisas ótimas, mas tem barbaridades, “fui na rua da praia e vi…”.

PAS: Mas é um choque cultural que, em última instância, é saudável que aconteça, não?

AP: É a diversidade, que a gente tanto preza. Democracia é isso.

PAS: Vocês estão ligadas no tema da diversidade, mas chegam num ambiente que não necessariamente esteja talvez. Dá liga?

AP: Mas volto a dizer, essa é a democracia. Uma das coisas que mais acredito que o Vento é, onde ele começa, são em provocações, do que a gente se questiona e acredita, da maneira como estamos enxergando o mundo, do que a gente gostaria de falar. Baseado nessas provocações internas a gente começa a criar essas falas, que ganham corpo da Tati visualmente, nas mensagens subliminares que ela manda dentro daquilo, eu dentro da curadoria. Gosto muito de letra de música. Para mim, se escolher uma de cada artista eu consigo fazer um crescente que faz muito sentido.

PAS: Quais seriam, por exemplo, versos que te representam neste festival?

AP: Uma música que adoro da Anelis, que sempre fico cantando, é aquela “o que que a gente fica esperando/ por que que a gente espera?”. Acredito muito que a vida está dentro da gente e o mundo só existe porque a gente enxerga ele e materializa. Um monte de gente falou “nossa, é muito louco, vou andando no festival, no outro dia aparece uma coisa e eu falo ‘gente, isso aqui estava aqui?, eu nunca vi'”. Falo “talvez estava, talvez não estava”. Naquele momento, no seu mundo, não estava, mas podia estar no mundo de outras pessoas. Ah, e meus cantos de orixá, que foram permeando vários momentos. Era uma coisa que eu queria muito colocar. Na verdade minha concepção de curadoria neste ano veio do meu maior sonho, que não consegui fazer, como uma homenagem interna minha para a Serena Assumpção. O álbum Ascensão foi o que mais mexeu com a gente.

TS: Inclusive o filho dela está aí.

AP: Conhecia Serena por causa do Filipe Catto, que era amigo próximo. Anelis eu já conhecia há muito tempo. Existe uma admiração e um respeito muito grande pela família Assumpção.

PAS: Anelis veio para jogar conversa dentro num festival que queria olhar para dentro. É coincidência ou de propósito?

AP: (Ri.) O show Ascensão só aconteceu duas vezes. Teve a pré-estreia, em que a gente foi, e dois dias no Sesc. Esse álbum tem uma história maravilhosa, dela e de todos os amigos que participaram. Todos estavam lá, e a banda do Ascensão é o Tono. E Moreno Veloso tocava junto, e Ana Mãeana (Ana Cláudia Lomelino, ex-Tono), que fazia a Serena. E Céu, Tulipa, Tatá, Filipe, todos amigos de vida. Quando fui, pensei: “Preciso fazer esse show no Vento”. Fui criando, chamando Anelis, Tono, mas no final achei que ia ser impossível. Ana teve o Sereno, não pôde vir, o Tono mudou de formação. Essa mensagem subliminar dos orixás foi colocada lá.

PAS: Metá Metá é super Itamar Assumpção, de algum jeito…

AP: Sim, todos eles.

PAS: Então foi uma edição em homenagem a Serena, embora isso não esteja explícito?

AP: É, embora não tenha sido explícito.

PAS: O palco eletrônico foi ocupado só de música eletrônica brasileira, eletrobrasileira. É uma tendência, ou é algo de vocês?

AP: Acho que é uma onda muito boa que está vindo. Tem muito produtor musical foda fazendo coisa. Isso vem de uma relação que vem do Free Beats, do Mauro Farina, que já faz festas de rua. A gente se encontrou, nós três, e o irmão dele, a gente é uma família.

PAS: Isso já estava nas edições anteriores?

AP: Em duas edições já. Ao mesmo tempo foi um encontro e uma relação de troca das experiências de ocupação do espaço público, e a gente, mais na experiência de música brasileira. Quando o AfroBeats começou era mais rap, jungle.

PAS: Eles estão apontando mesmo para o brasileiro? Ou é aqui no Vento?

TS: Mauro disse que é desde quando ele foi para o Pará.

PAS: No primeiro dia, na Oca, eram quase só DJs mulheres. Foi de propósito?

AP: Isso foi muito legal. A gente enche muito o Mauro, ele vai ser o pai do nosso filho, o nosso doador de esperma. A gente já é uma família. Ele tem essa fama, “o Mauro só chama homem para tocar”. E ele é um doce, um coração. Essas provocações que a gente também começou a tirar, “você vai deixar o pessoal ficar falando?”, e ele já trabalha a Mari Mats há muito tempo. Mas entendo, antes de ser mulher ou homem para ele tem que tocar bem, não apenas tocar um play e ter o controlador ali para fazer.

PAS: É que encontrar as mulheres que tocam bem pode demandar um esforço maior. Isso está acontecendo em todas as artes.

AP: Sim, talvez sim. E ele acha esse movimento muito legal, mas dentro do que ele acredita não é porque agora é o momento das mulheres então “vou botar um casting de meninas, quem são as bonitinhas, as hipsters, as fancies?”. Eu concordo, porque é o momento das mulheres, mas é o momento de as mulheres ocuparem o lugar delas, não ocupar o lugar dos homens. Eu não quero ser homem.

PAS: Mulheres pensam diferente de homens, e quando fazem filmes ou festivais de música saem filmes e festivais diferentes. Isso aparece no resultado, não? Mulheres, gays, negros, índios, têm coisas particulares a dizer.

AP: A gente sofre um preconceito inverso. A gente é super-resolvida com nossa sexualidade, como casal, só que somos femininas de natureza. Às vezes a gente pega umas pessoas que não estão no nosso meio, “ah, vocês são amigas?”, “não, a gente é um casal”. Acham que a gente não pode ser gay porque a gente é feminina. Várias vezes a pessoa que diz aceitar o gay, quando a gente fala que é gay, ela não acredita.

PAS: Mas quando foram os artistas vestidos de mulher na ilha causaram espécie também, não foi?

AP: Causou, causou, como a gente também causa. É uma questão de energia, os artistas foram lá no ano passado e fizeram história, para as pessoas que estavam lá, para a cidade e, alguns, para eles mesmos. Isso é uma segurança deles. Estão cagando, na genuinidade do que é o momento e do que são eles. A Liniker não tem alguém que vá chegar e dizer “ele” e ela vai ficar insegura e se deixar de achar que ela é tão potente quanto ela é. É a segurança que traz isso, e é a segurança que incomoda. Isso mostra tanto que ali é tão inseguro que até agora na ilha estão debatendo o porquê que o Vento saiu ou não saiu de lá. Sendo que a gente mora lá e ninguém marcou, “olha, vem aqui conversar”.

PAS: Talvez estejam percebendo agora que o Vento saiu de lá?

AP: Na verdade a insegurança é tão grande que eles nem chegam na pessoa. Eles debatem sobre algo que não é deles. Ficam riando as situações. Ficaram ofendidos com o quê? De passarem a enxergar que existem outras pessoas iguais àquelas pessoas que eles fingem que não existem ali. Não faz sentido isso. O cara escreve um texto que dá vontade de vomitar de preconceituoso. E depois escreve assim: “Eu não sou preconceituoso”. As pessoas que mais falam mal do Vento ou criam coisas extremamente baixas no Facebook são vereadores, pessoas que você olha e fala, nossa, o cara nem foi no festival. O cara não tem nem uma opinião própria para falar. Está falando de algo que ele não viu. É muito louco. Como você propaga algo que nem viu?

PAS: Talvez esse seja mesmo o papel da cultura, de passar como vento pelos costumes estabelecidos… Queria falar sobre a história do patrocínio, que é tão importante. Você contou dos patrocinadores que não patrocinam. Achei que o patrocinador entrava com grana…

AP: Nosso mercado independente está crescendo muito. Festivais, artistas brilhantes como Craca e Dani Nega, várias pessoas aqui, revelações, Mulamba. Acho que foi na virada dos anos 2000, quando entrou realmente a internet como marca de comunicação na globalização e as estratégias de começar a mapear e criar essas histórias. Foi crescendo. Estamos completando dez, 15 anos disso. É um amadurecimento, mesmo que seja inconsciente. A gente começou a se organizar desorganizado. Começamos muito desorganizados e sem querer começou a organizar. Os festivais estão crescendo, ganhando público. Os artistas, já que não entram na rádio e na TV, vão entrar onde? Pelos festivais. Pela troca, o intercâmbio entre os produtores culturais. Isso vai ser a mesma coisa, pelo Facebook, pelo conteúdo digital. Esse mercado é nosso. A gente batalhou muito para isso. E é aí que está o independente, porque a gente acredita muito no coletivo. A gente acredita realmente na economia criativa. A gente realmente bota o coração mais do que uma marca de chinelo. E o que acontece? As marcas, principalmente as que falam que trabalham com branding de life style, lá fora já é estabilizado desde quando lançou o iTunes. Foi o boom das bandas independentes, principalmente norte-americanas, por isso veio o indie rock e chegou na gente. Aqui ainda não está. Aqui as marcas agora estão sacando isso, principalmente num momento de crise, quando querem sufocar a cultura, mas sabem que é onde não existe crise. Não existe, é lá, nesse momento, que as pessoas querem outra coisa para pensar, é que saem outras coisas. O que sinto às vezes é que eles estão meio que pegando a gente, com um discurso falso, porque na verdade é.

PAS: Qual é esse discurso?

AP: Que ele quer fazer parte desse coletivo, fazer parte e acrescentar, impulsionar. Ele fala que trabalha com branding de life style, então na verdade ele quer seu life style, porque seu life style combina com a marca dele.

PAS: E qual é a contrapartida?

AP: Então. É isso que é mentira, entendeu? Na verdade ele não quer ser seu coletivo. Ele é capitalista. Ele quer você. Ele quer matar você. Vim de cinema e da publicidade, vejo o quanto se gasta para nada, para o imagético que é fake, que não é nem o real. Ele só te leva para uma coisa que não vale nada. Eu não consigo muito trabalhar isso. Chego nas marcas, o que o Vento dá? O Vento dá ideia. A gente faz cinco, dez reuniões com marcas, monta PPTs de 20, 30 textos, fotos, estratégias…

PAS: E no final?

TS: Nada.

PAS: Nada, ou roubam as ideias de vocês?

AP: Isso acontece com todo mundo. Não é só com a gente.

PAS: Ou seja, a gente é totalmente refém disso.

AP: A gente conseguiu a Spotify, que virou uma parceira muito forte. Estamos falando deste momento, mas tenho que falar que, se tiver que colocar algum nome de marca, é Red Bull. Essa é foda.

PAS: Dá grana?

AP: Não dá grana.

TS: Mas ajuda em várias coisas.

AP: É uma mãe. É uma mãe. Se quiser sentar e chorar no colo dela (risos), ela te abraça.

PAS: É uma mãe que não dá um centavo? Uma mãe judia?

AP: É uma mãe judia, isso, mas aquela carinhosa, bem carinhosa, que não vai deixar o filho sair de casa enquanto não casar com a judia também.

PAS: Ela não vai deixar você ser independente nunca? Não vai te dar grana para você não adquirir autonomia?

AP: Mas a grana, muitas vezes, é relativa. Eu prefiro ter uma Red Bull com a qual eu troque e ela me alimente, emocionalmente, porque esse é o nosso mercado, a economia criativa, o coletivo. Eu enxergo a Red Bull no coletivo. Eu sei que ela é uma puta empresa que coloca o cara na estratosfera. Se eu for pensar nesse sentido, vou falar “os caras têm milhões, por que não podem me dar?”. Só que eu não quero a Red Bull, eu quero um coletivo. Então o que você pode me dar agora neste momento sem me pedir nada? A Red Bull nunca pediu para eu botar um logo nas tendas, nada. Só que ela faz todos os meus cardápios, me bonifica 100%, traz Kombi, traz som, traz carro. Eu ligo e falo: “Meu, fodeu, vai dar 7 contos de impressão de fichas”. “Não, beleza, a gente imprime.” Se for colocar no orçamento…

PAS: É igual o Fora do Eixo então? As marcas dão suporte, visibilidade, e você que realize com trabalho escravo?

AP: Will, trompetista da Teto Preto, estava falando: “Estou sentindo um bagulho aqui que é um bagulho que, meu… Não sei o que estou sentindo, mas é que algo vai acontecer”. Eu também estou com essa sensação, ele falou que todo mundo estava comentando isso no camarim. Aí a gente chegou no Fora do Eixo, ele falou: “Será que realmente a gente começar a entender o coletivo?…”. Cara, eu queria muito chegar nesse diálogo, porque o “olhe para dentro” vem muito da história do ano passado, do coletivo, da diversidade, da minoria. Caralho, para mim seria a melhor definição se a gente terminasse o Vento entendendo o coletivo. É um bando de indivíduos respeitando os espaços e trocando dentro das diferenças e encontrando as semelhanças.

Anna Penteado e Tatiana Sobral falam sobre o Vento na orla sem-praia de São Sebastião.
Anna Penteado e Tatiana Sobral falam sobre o Vento na orla sem-praia de São Sebastião – Foto Tati Pugliesi

 

(Leia mais sobre o Vento Festival 2017 aqui e aqui.)

(Pedro Alexandre Sanches viajou a convite do Vento Festival.)

 

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