Linn da Quebrada

“O seu corpo é uma ocupação”, descreve-se em terceira pessoa a artista paulistana Linn da Quebrada, no vídeo BlasFêmea. Autora de sucessos em tempo de funk carioca (ou melhor, brasileiro) como Bixa Preta e Enviadescer, ela descreve a obra mais radical de sua ainda breve história como “experimento audiovisual”, que engloba, mas não se restringe ao videoclipe da canção Mulher.

Aos 26 anos, Linn, dissidente da masculinidade abusiva, abre em dez minutos de imagem e som toda uma caixa de Pandora de angústias, desejos e reivindicações comuns às identidades (ditas) minoritárias negra, feminina, homossexual, transexual etc. “O corpo é um território a ser ocupado e conquistado diariamente”, afirma a artista formada pela Escola Livre de Teatro de Santo André, que se descreve como “atroz”, “nem atriz nem ator”. “Eu tive meu corpo proibido a mim mesma durante muito tempo, como se eu tivesse de me arrepender por me ser.”

O nome provocativo da artista remete a várias quebradas às quais ela pertence e pertenceu, entre São Paulo, São José dos Campos, Votuporanga, Santo André. “Atualmente estou na Fazenda da Juta, na zona leste de São Paulo. Mas venho de outras quebradas. Transitei muito, e sempre estive próxima da margem, da sarjeta, desses espaços.”

Os dogmas religiosos ocupam o segmento inicial de BlasFêmea, até que surge a voz de bênção da mãe da protagonista: “Você é louca mesmo, né, Júnior? Mas tudo bem, faz o que você gosta. Mas se cuida, tá? Te amo. Do jeito que você é”. O clipe (que daria um filme) prossegue com o noite-a-noite das travestis no asfalto, a constituição de uma rede de proteção feminina (que se reproduz na construção do próprio BlasFêmea, produzido majoritariamente por mulheres), o empoderamento, a aquisição do orgulho trans, gay, negro, feminino. “O que o macho faz muito bem é se articular, formar suas redes e assim conquistar poder. É o que nós precisamos fazer entre nós, entre o feminino, independente de que corpo estejamos”, ela explica a si e à obra.

Pedro Alexandre Sanches: Queria que você comentasse uma frase que está no vídeo BlasFêmea, “o meu corpo é uma ocupação”.

Linn da Quebrada: Sim. Eu uso essa frase como expressão de resistência, o corpo como território a ser ocupado, a ser conquistado, de expressão própria. Eu tive meu corpo proibido a mim mesma durante muito tempo. Sinto que tive meus desejos, meus afetos proibidos a mim, vistos como se fossem um erro, como se eu tivesse de me arrepender por me ser. A partir do momento que vou tomando consciência e espaço dentro do meu próprio corpo, que vou ganhando território dentro de mim mesma, eu sinto que vou me ocupando, ocupando espaços em mim, ganhando esses territórios, tomando bastião de liberdade do meu próprio corpo. Isso é como uma ocupação mesmo, um processo contínuo, ininterrupto. A ocupação tem que sempre estar ativa. Quando uma ocupação deixa de ser ativa, dá margem para que tomem ela, para que ela fique desarticulada. O corpo é um espaço, um território a ser conquistado diariamente, a ganhar territórios e afirmar seu espaço cotidianamente.

PAS: É legal a expressão “ocupação” porque é o mesmo os movimentos sociais de sem-teto e sem-terra usam, enquanto os opressores preferem chamar de “invasão” o que fazem para se impor e manifestar. Há uma briga entre as duas palavras. Tem essa conotação também para você?

LQ: Exatamente. Mas acho invasão um termo muito interessante também, quando se fala de corpo, pelo menos. Nós sabemos que o corpo é um território tomado, que nos foi tomado. Algumas vezes nós temos que invadir mesmo alguns espaços, inclusive nosso corpo. Tem que ser invadido para a gente afirmar a nossa existência mesmo.

PAS: Linn da Quebrada, de qual quebrada você é?

LQ: Atualmente estou na Fazenda da Juta, aqui na zona leste. Mas venho de outras quebradas. Morava em São José do Rio Preto, lá eu morava na Vila Elmaz.

PAS: Nasceu lá?

LQ: Não, eu nasci em São Paulo e cresci entre Votuporanga e São José do Rio Preto. Depois vim para São Paulo. Eu transitei muito, entre muitas quebradas, entre lugares que não eram tão quebradas. Mas sempre estive próxima da margem. Sempre estive próxima da sarjeta, desses espaços.

PAS: Onde, quando, como nasce a artista?

LQ: A artista? Acho que a artista nasce aqui em São Paulo Mesmo. Em Santo André, na verdade, dentro da Escola Livre de Teatro, quando eu estava estudando teatro. Aí tive a possibilidade de começar a investigar o meu corpo, a indagar sobre meu corpo, a experimentar ele em outras possibilidades, a possibilidade de interpretar outras relações, me fazer perguntas, duvidar das certezas que me eram dadas.

PAS: Você é atriz também.

LQ: Sim. Nem ator, nem atriz. Costumo dizer que sou atroz (risos). Atuo com teatro, cinema também.

PAS: Está fazendo filme com Tata Amaral, não está?

LQ: Isso, fiz participação no filme da Tata (Sequestro Relâmpago). Me investiguei muito em performance, foi um grande campo de experimentação. Pude experimentar a ação direta na rua, um lugar que já tinha a ver com assumir o meu corpo, e usar meu corpo como arma, mas pensar as minhas fragilidades enquanto potências. Foi um espaço de pesquisa também muito importante para mim.

PAS: Você está ocupando – ou invadindo, não sei qual é o melhor termo, talvez os dois – territórios que eram proibidos às travestis, transexuais, a praticamente todas as minorias. Quanto mais marginalizada, mais tudo é proibido. O que está mudando para permitir que você exista e apareça da maneira como está aparecendo?

LQ: Eu acho que tem ficado insustentável para a mídia. Nós sempre existimos. Não é novidade. Eu não sou a primeira a fazer isso. A grande novidade talvez seja a visibilidade que algumas de nós estão tendo. Mas está ficando insustentável para a grande mídia, os meios de comunicação, continuar fingindo que nós não existimos, que os nossos saberes não importam, que nós não produzimos pensamento, que os nossos corpos não importam, não têm peso. A internet também acabou proporcionando uma grande visibilidade a muitas de nós, fazendo com que pessoas que se identificam, que viviam de forma parecida, com questões semelhantes, acabassem conseguindo ver que era possível conquistar outros espaços. Com isso começou a se estabelecer uma conexão de redes, de redes de apoio, de fortalecimento, que fez com a que a gente conseguisse ficar mais forte, se articular. Porque é isso que o macho faz muito bem, né? Ele é muito bem articulado. Ele consegue formar suas redes, e assim conquistar poder. Conseguem formar essas redes de apoio, ajudam uns aos outros, ajudam economicamente, admiram uns aos outros. É isso que nós precisamos fazer entre nós, entre o feminino, independente de em que corpo esteja. É formar entre nós uma rede que independa do macho, uma rede entre nós de apoio emocional, econômico, psicológico, material, para que a gente consiga avançar e conquistar outros espaços também.

PAS: Eu ia pedir para você explicar o vídeo, BlasFêmeaMulher, mas você já fez um pouco isso nessa resposta.

LQ: Sim, exatamente (ri).

PAS: É um vídeo longo, de dez minutos. Qual é a intenção dele?

LQ: Olha, BlasFêmea para mim, o que está materializado no vídeo, além dessa formação material de redes, tem uma camada de… A primeira parte da narrativa é a representação do culto ao falo. Tem esse lugar sagrado que o masculino ocupa, o lugar de poder, quase que divino. São essas representações, esses mitos e esse lugar do imaginário social das posições que o masculino e o feminino, o pecado, o sagrado e o profano ocupam no nosso imaginário. Trata um pouco de inventar outras imagens. É uma questão quase de vocabulário e de pensamento também. Como a gente consegue fazer os corpos ocuparem outros espaços no imaginário social? Como a gente consegue inventar em nós outros afetos, outros sentimentos, e encontrar entre nós a força necessária para destruir em nós esses mitos e arquétipos antigos que fazem com que fiquemos no mesmo lugar, da mesma maneira? Como a gente consegue inventar em nós outros desejos, outras vontades? É um pouco isso que é BlasFêmea, o poder, a potência do feminino, o sagrado presente no feminino, inclusive no ato profano de enfrentar o masculino. É um espaço de disputa de poder, BlasFêmea também é disputa de poder.

PAS: Com o masculino estabelecido?

LQ: Exatamente. É o espaço de poder. O feminino nem ocupa esse espaço de poder atualmente, né?

PAS: Perdeu a presidência do país inclusive.

LQ: Exatamente. Não permitem que o feminino ocupe um espaço de poder. Não permitem que novos modos de articulação de poder sejam no mínimo tentados, vividos. Qualquer das práticas do feminino é deslegitimada, e os homens voltam a ocupar o espaço, a mostrar que tudo foi feito por eles e para eles. O homem, feito à imagem e semelhança de Deus. É tudo muito bem construído para que a gente não consiga mostrar as ruínas e as fissuras desse território e desse reino, que já está caduco, obsoleto.

PAS: Quando sai seu disco?

LQ: Depende, né? Agora estou com uma campanha de financiamento coletivo. Se ela vingar – inclusive se você puder contribuir e falar da campanha (encontra-se no site Kickante) – e tudo der certo e a gente conseguir alcançar a meta, acho que em setembro a gente consegue lançar o álbum.

PAS: Mas você já está gravando as músicas?

LQ: Tenho feito algumas músicas do meu bolso, mas para dar continuidade e fazer outras músicas a gente lançou a campanha de financiamento.

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