Ressalvado o fato de O Encouraçado Potemkin (1925) ser um clássico realizado quando o cinema ainda construía sua gramática narrativa, para a qual sua contribuição é inquestionável, pode ser interessante discutir alguns paralelos políticos e estéticos entre a obra prima de Sergei Einsenstein e Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, melhor filme para o público do Festival do Rio e da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, agora lançado comercialmente.

Era o Hotel Cambridge

Claro que o quase um século que separa a feitura desses filmes implica diferenças visíveis, históricas e formais. O primeiro foi feito em 1925, ainda na fase revolucionária do cinema mudo soviético, e o segundo é uma obra digital, colorida, com som direto, feito num dos países de capitalismo mais selvagem do mundo. Mesmo assim é possível estabelecer um diálogo entre as duas obras. O filme de Eisenstein conta a história do famoso motim de 1905, precedente à revolução de 1917. O de Eliane Caffé também retrata, e de certa forma ao vivo, um ato revolucionário. Porque, a exemplo de outros edifícios vazios à mercê da especulação imobiliária, a ocupação do hotel, antigo símbolo da prosperidade paulistana, questiona a essência do sistema capitalista, o uso da propriedade enquanto bem de capital, a ela contrapondo sua função social, o direito básico de moradia.

Há outras coincidências. Eisenstein revolucionou a linguagem e sintetizou a importância política do cinema. Eliane Caffé faz o filme participar da ação e reformula o cinema político atual com uma obra militante e mobilizadora. Além disso, em sua leitura da realidade, onde se destaca o protagonismo feminino no comando do movimento, Era o Hotel Cambridge assume posição rara hoje em dia porque, ao aproximar e unir refugiados e imigrantes estrangeiros e nacionais, é radicalmente internacionalista.

Em termos estéticos a contemporaneidade desse discurso tem seu equivalente na linguagem, que reinventa o uso de intertítulos, recurso clássico do cinema mudo, mistura atores e não atores, ficção, documentário e psicodrama. Com uma dinâmica não vista até agora, isso é feito sem se render à pieguice fácil, mas explorando o lirismo, as nuances e a complexidade da situação, de modo a envolver completamente o espectador na realidade convertida em trama. Porque, como na obra de Eisenstein, roteiro, direção, montagem e som se integram criativamente, fazendo a narrativa crescer em suspense até a apoteose final.

Não menos importante é o posicionamento da diretora. Eliane Caffé assume a direção, mas recusa o papel de “autora pessoal” do filme, tão caro à crítica burguesa que exalta a individualidade. Declara seu desconforto com essa leitura e se coloca como orquestradora ou regente que dá sentido e rumo a uma obra coletiva. Em outras palavras, sabe que ela e o filme navegam numa realidade maior.  Por tudo isso, Era o Hotel Cambridge é o filme mais político e também o mais inovador dos útimos tempos.

potemkin

 

Enfim, é notável que duas obras, à primeira vista tão diferentes e criadas em contextos tão distintos, tenham tanto em comum em termos de postura política e inovação estética. Mas além da ressalva inicial há outra grande diferença entre os dois filmes, essa não visível na tela. O Encouraçado Potemkin foi amplamente apoiado pelo governo soviético, que o utilizou para divulgação e propaganda da revolução ainda em curso – só mais tarde Eisenstein passou a ter problemas com a censura stalinista. Era o Hotel Cambridge já no lançamento enfrenta uma forma de ditadura menos explícita, a de um circuito comercial formatado para a produção dos grandes grupos de comunicação que o controlam e onde, há anos, a produção nacional se canibaliza dentro de uma faixa próxima dos 15% de participação no mercado.

 

(Leia mais sobre Era o Hotel Cambridge aqui, e entrevista com a diretora-orquestradora Eliane Caffé aqui.)

 

 

AnteriorPARIS BRILHA SEMPRE
PróximoVIP-RADA CULTURAL
Ícaro Martins é cineasta e dirigiu "O Olho Mágico do Amor" (1981), "Estrela Nua" (1984), ambos com José Antônio Garcia, e "Luz nas Trevas - A Volta do Bandido da Luz Vermelha" (2010), com Helena Ignez. Agora adotando o nome Francisco C. Martins, prepara o lançamento de "Maria - Não Esqueça Que Eu Venho dos Trópicos".

1 COMENTÁRIO

  1. Arrebatador! Ainda estou sob o impacto do filme. Imperdivel nestes tempos de intolerância e injustiça social que estamos vivendo. É um grito de alerta à insensibilidade dos nossos governantes, preocupados apenas em satisfazer aos interesses dos grandes capitalistas e sacrificando cada vez mais os verdadeiros trabalhadores deste país. Outra coisa: quando um país recebe refugiados de outro países, passa a ser responsável pelos mesmos.

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome