Fomos ao lançamento do livro do Xico Sá, A Pátria em Sandálias da Humildade (Realejo Livros & Edições), mas eu estava durango e não pude comprar o livro, me limitei a abraçar Xico e comer sorrateiramente os amendoins que estavam na mesa do autor, eu, Bento e Tito. Também fiz fotos do rega-bofe. Mas, três dias depois, qual não foi a minha alegria quando, ao abrir a caixa de livros enviados para a redação essa semana, encontrei o livro de Xico presenteado generosamente pela editora.
O livro reúne as crônicas sobre futebol que ele publicou no El País e na Folha de S.Paulo. Dito assim, crônicas sobre futebol, parece que é um funcional exercício de gueto. Mas Xico Sá é um falso ponta-esquerda, tem rompantes de centroavante e visão de camisa 10. Eventualmente, também pode jogar de lateral (ou ala, como prefere o curso que o Ceni fez na Europa). O futebol é seu pretexto e sobretexto. Poderia facilmente enquadrar esse volume na categoria “livro de filosofia”.
Xico é um Neném Prancha do verbo, íntimo tanto de Walt Whitman quanto de Evaldo Braga, autor do clássico Sorria, Sorria. Não se sabe o que é o centro da sua produção escrita, se é a música, a literatura, a política, a mundanidade militante ou a história. “E isso explica porque o sexo é assunto popular”, diria Zé Ramalho. Ou seja: não há o que explicar.
“Existem criaturas a quem os deuses dão muito, mas de quem os homens exigem ainda mais para glorificá-los”.
“Estão no time dos que teimam, na várzea da vida, para não cair de divisão social, a terceirona da existência”.
“Seja você um barnabé da Cobal ou um herdeiro de Onassis, o importante é passar sempre um clima de O Grande Gatsby diante delas”
“Um homem só conhece outro homem depois que joga uma pelada, um baba, um racha – cada região do País tem um batismo -, depois que bate uma bola com o semelhante. A pelada é o único e possível striptease moral do macho”.
“Se é difícil julgar em campo, imagina na vara da existência”.
“O que é o futebol diante de uma mulher de calça vermelha?”.
“Torcer é brega, é lacrimoso. Secar é chique. Très chic, como diria um justíssimo marroquino queimador de carros em Paris”.
“E da costela de David Beckham, Deus fez o metrossexual, como estamos cansados de saber”.
Pantaleão do semi-árido, nos mata de rir com sua entrevista imaginária com Larissa Riquelme, musa instantânea de uma Copa passada por guardar o celular entre as tetas. “Que moça articulada, que inteligência, que repertório. Passamos horas falando do Augusto Roa Bastos, seu escritor paraguaio preferido”.
Herman Melville, Machado de Assis, Gilberto Gil, Poe, Lampião, Jorge Amado, Dostoievsky, Coppola: a citação para o cronista não é muleta, é molho pesto no texto. Xico é o falso embriagado, você o encontra na Virada Cultural no Bar da Dona Onça, pensa que ele extrapolou na pinga, mas logo você cai na real e percebe que é ele que está sóbrio além da conta e é você que ama o passado e que não vê.
Ao final das crônicas, percebe-se que ele vai ficando progressivamente mais combatente e menos distraído face aos desmandos do golpe em curso, e foi aí o patrão não achou mais engraçado e o demitiu pelo delito de expressar opinião política em suas crônicas. Opinião política diferente da do dono do jornal, claro. Que distração do patrão: ele SEMPRE foi muhajidin, um cangaceiro santo profano.É mais ou menos como a gestão João Dória/Sturm querendo proibir manifestação política em grafite de rua, tentando estancar enxurrada com peneira.
Xico combate principalmente o moralismo em seus textos. O senso comum do macho, a cartilha das emoções controladas, o culto ao herói produzido pelo departamento de marketing. Desde Tostão não aparecia um cronista de futebol com tal originalidade.

Às vezes tenho vontade de colocar o Xico em uma saia justa e perguntar na lata: e se o Sócrates chamasse de “impeachment”, você o amaria mesmo assim? Eu sei a resposta, mas eu amo os amigos justamente porque posso blefar e ainda assim eles me presentearem continuamente com suas sensacionais gargalhadas.

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