Ia começar a fazer o tradicional balanço do ano, com discos e shows (e vou fazer isso, claro, é tradição). Mas aí me dei conta, fazendo um retrospecto mental do que se passou, que uma das marcas dos últimos acontecimentos foi o drible nas expectativas. Personagens que pareciam uma coisa e eram outra (ou que deviam ser uma coisa e não eram nada). Que jogavam em um time e de repente tiraram a camisa e tinham a camisa do adversário por baixo. Ei-los:
Marcelo Calero – Dava pinta de bibelô, jogava para a plateia, postava selfie com bichinho, fez devassa macartista no ministério da Cultura como qualquer golpista de resultados, tinha passado de tucano, nomeava tucano, falava como tucano. Mas, ao fim e ao cabo, o ex-ministro da Cultura que ficou somente seis meses no cargo revelou-se um verdadeiro Cavalo de Troia dentro do golpe, evidenciando a gravidade do uso do Estado como instrumento de satisfação de interesses pessoais mais comezinhos. Mais republicanamente ainda, preparou-se para o assédio em graus diversos, sabedor que a carteirada tosca sempre tem um patrocinador tosco um degrau acima. Gravou todo mundo, entregou ao MPF só a gravação que não o tornaria réu e ficou vendo o circo pegar fogo. Vai se eleger deputado federal no Rio com uma mão nas costas. E declarou recentemente que nem tucano era: teria assinado ficha de filiação ao PMDB no ano passado.
Bonde do Rolê – Funkeiro curitibano já era uma contradição em termos quando surgiu o grupo Bonde do Rolê, com apresentações anímicas e que renderam em uma ou duas edições do finado Skol Beats. Pedro D’Eyrot era um terço da trupe que chegou até o Roskilde Festival, no auge da curiosidade. Mas pouca gente imaginaria que ele seria também Pedro Augusto Ferreira Deiro, um dos fundadores do teleguiado Movimento Brasil Livre (MBL). Financiado por partidos para criar uma direita palatável e sem ficha corrida (como já tinha acontecido quando criaram o sindicalismo de resultados), o “movimento” tem faturado em cima da crise política e elegeu até uns bagres aqui e ali. “A música do Bonde estabeleceu pontes entre o funk carioca, o electro e o rock. O MBL estabelece pontes entre conservadores, liberais e sociais democratas fiscalmente responsáveis. Quem rejeita o diálogo, para mim, é intolerante”, disse Diderot, digo D’Eyrot.
Katia Abreu – Ruralista de convicções motossérricas, a fazendeira passou o rodo nas definições masculinas de fidelidade. Primeiro, jogou vinho no mais infeliz piadista de salão desde o Amigo da Onça. “Me respeite que sou uma mulher casada e, mesmo quando solteira, ao contrário de você, nunca traí”, disse ela ao colega José Serra. Depois, postou-se contra seu partido na defesa da manutenção do mandato de Dilma Rousseff, mesmo ameaçada de expulsão. Segue firme ao lado da ex-presidente, citando Fernando Brandt: “Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito”. O lado esquerdo dela é o direito, mas tudo bem. Votou contra a PEC do Teto e disse que é preciso rachar a conta da crise. Faz muita gente da extrema-esquerda parecer malufista. E tem um senso de humor que não estava previsto no roteiro. “E o processo contra mim na comissão de ética do PMDB pedindo minha expulsão foi aberto pelo ex-ministro Geddel. Quanta ironia do destino”, tuitou Kátia, na semana passada. Hahahahaha.
Hipster da Federal – Orgulhoso da única missão que lhe confiaram na carreira, a de babá de preso, não será surpresa se o policial Lucas Valença surgir como uma das estrelas do próximo Big Brother Brasil. Sua escolha, como a de tantos escoltadores, não foi acidental: ele participara de passeatas pelo impeachment, tinha posição política e achava Eduardo Cunha, como outros colegas, “inteligente” e “digno”. Ganhou 200 mil seguidores no Facebook do dia para a noite, após descobrirem que sua segunda profissão era descamisado, e deslizou do serviço de escolta para o de celebridade de programa de TV. Suas últimas façanhas públicas foram negar que tinha sido exonerado e que tinha empresário como qualquer outro astro sertanejo.
Jurado do Oscar – Depois que a Associação Paulista de Críticos de Arte nomeou Aquarius como o filme do ano, a pergunta que não quer calar é: quem era o prestigioso ensaísta nomeado pelo governo Temer unicamente para barrar Aquarius na corrida do Oscar? Se não está entre os críticos paulistas, onde andará? O longa de Kleber Mendonça está na lista dos grandes filmes de 2016 da Cahiers du Cinema, disputa o Spirit Award, etc etc etc. O fato é que esse episódio serviu para mostrar que dirigismo e intervencionismo cultural não são exclusividades do stalinismo, mas podem estar contidos nas mais amplas frentes de “coalizão” partidária.  
Delcídio Amaral – Talvez o mais óbvio dos infiltrados, o ex-senador foi apanhado com a boca na botija, apavorado com a possibilidade de ir em cana. Oferecia rotas de fuga para um convicto. O rito com que foi cassado talvez tenha sido o mais rápido da História da República. Virou disputado delator de imprensa, fazendo o papel de vítima distraída em quase todas as ocasiões. Até que se empolgou: pegou uma Harley Davidson Fat Boy de 1.600 cilindradas e violou a prisão domiciliar, indo participar de passeata na Paulista no dia 13 de março. “É uma coisa. Uma sensação incrível. Se a pessoa está na garupa e não se segura direito, cai para trás quando a gente arranca. Eu coloquei um capacete e fui à Paulista por volta de 2 da tarde de domingo. Uma maravilha a sensação de liberdade. O clima ali era de Copa do Mundo. Acabou o governo”, disse.
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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017) e Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019)

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