Em 1973, o músico carioca Eumir Deodato foi Justin Bieber por 15 minutos. No dia 31 de março daquele ano, Eumir, hoje com 73 anos, chegou ao segundo lugar da parada pop norte-americana, a bordo da versão funk que inventou para “Also Sprach Zarathustra”, de Richard Strauss, cuja versão sinfônica havia sido usada cinco anos antes como tema de força do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick.

Com nove minutos de duração, instrumental e de origem erudita, a “Also Sprach Zarathustra (2001)” do arranjador e compositor de origem bossa-novista só perdia, na parada pop daquela semana, para a terna balada soul “Killing Me Softly with His Song”, cantada ao piano por Roberta Flack num disco que tinha arranjos de cordas de… Eumir Deodato.

Pode parecer esdrúxula a aproximação de um dos mais virtuosos músicos de nacionalidade brasileira com o astro pop-funkeiro de hoje em dia Bieber, mas ela é puxada pelo próprio Eumir, quando ele conta que sua neta Hailey Baldwin (filha da também brasileira Kennya Deodato), de 19 anos, é ou era “uma das namoradinhas” de Justin. O mundo deu 2001 voltas desde 1973 até 2016.

Deu tantas voltas que Eumir, auto-exilado nos Estados Unidos desde 1967 ou 1968, está no Brasil justamente nestes dias em que vivemos mais uma troca traumática de regime, de substituição da democracia por um estado de anomia ainda indefinido. Desta vez não há um golpe militar como o que o artista testemunhou, mas um sucedâneo jurídico-midiático-parlamentar.

Mesmo fugidio enquanto tenta ensaiar para um show no Sesc Belenzinho, em São Paulo, Eumir toca em temas políticos ao falar da mudança para a América do Norte. Também não rechaça o uso da palavra “golpe” pelo repórter curioso. “É que eles esqueceram de acabar o golpe (de 1964). Ficou um golpe em falso aí, um golpe no ar. Como é que chama aquele quando a pessoa pega um vento frio nas costas?”, pergunta?

Eumir Deodato tem um histórico transnacional de causar espécie no mais empedernido dos esnobes do Brasil ou de alhures. Ainda muito jovem, antes de voar para o norte, ajudou a inventar a bossa nova, trabalhando com nomes como Roberto MenescalMarcos ValleElis Regina Wilson Simonal.

Nas turbulências da partida, trabalhando na nascente Rede Globo, foi arranjador da canção que levou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção (FIC) de 1967 – “Travessia”, do novato Milton Nascimento – e da que venceu (sobre Geraldo Vandré) o FIC de 1968, o tema de exílio “Sabiá”, da dupla intergeracional Antonio Carlos Jobim Chico Buarque.

Já radicado nos Estados Unidos, trabalhou com Jobim para Frank Sinatra e com Luiz Bonfá para Luiz Bonfá. E com Roberta Flack e com Aretha Franklin. E aplicou o “Brazilian Rhyme” de Milton Nascimento ao funk de veludo do grupo Earth, Wind & Fire, no tempo do megahit “Fantasy” (1977). E entre 1978 e 1983 produziu os discos de maior sucesso do grupo funk Kool & The Gang, que continham os arrasa-quarteirão pós-discothèque “Ladies’ Night” (1979), “Celebration” (1980) e “Get Down on It” (1981). E virou figura hollywoodiana, atuando como trilheiro da mais voraz indústria cinematográfica do mundo.

No balanço das décadas, a ponte que partiu da bossa nova e fez parada na música negra norte-americana levaria a uma improvável estação polar. Admiradora de “Travessia” e de Milton e de Elis, a islandesa Björk cativou Eumir para arranjos no trio trip-hop de álbuns formado por Debut (1994), Post (1995) e Homogenic (1997).

E de repente aqui está Eumir, numa tarde de sexta-feira num estúdio em Pinheiros, mascando quibes feitos por um refugiado sírio para forrar o intervalo do ensaio e descobrindo que tem uma entrevista para conceder.

Sob polvilhos de efeito “lost in translation” (apesar de entrevistado e entrevistador falarem a mesma língua natal), Eumir conversa de modo entre afetuoso e nietzschiano, meio Zaratustra, entre gênio ímpar de pensamento voltado para a lua e terráqueo preocupado com os problemas do dia a dia, meio sábio chinês que um dia dormiu e sonhou que era um Justin Bieber sem saber se era um astro pop juvenil sonhando que era uma borboleta kafkiana.

 

Pedro Alexandre Sanches: Você foi embora para os Estados Unidos em 1967, ano que vem completa 50 anos fora do Brasil. Virou norte-americano, continuou brasileiro, o que aconteceu?

Eumir Deodato: Não, foi em 1968 que cheguei nos Estados Unidos. A não ser que levou um ano pra chegar lá. Os aviões já estavam… Eu não estava programando pra fazer a entrevista, ninguém me avisa nada.

PAS: Desculpa, não sei se tenho alguma culpa.

ED: Não, nenhuma. A gente descobriu que tem que ensaiar ainda, que os músicos têm que aprender as músicas. Geralmente a situação musical tá meio difícil, pra todo mundo. Mas a gente tem que ensaiar, tem que fazer o show direito. Estamos ajustando algumas coisas no repertório, e isso leva tempo. Tô nisso desde cedo, você viu a hora que cheguei? Você tava aí quando cheguei?

PAS: Não, cheguei mais pro final.

ED: Eu sei que é puxado. Tem dois músicos que nunca tocaram o repertório comigo, isso é uma coisa muito difícil. Eles tão fazendo milagres, milagres.

PAS: Você veio só pra esse show, ou tá aqui por um tempo?

ED: Hum-hum. Fui pra Belo Horizonte, fiz um show lá. Depois vim aqui.

PAS: Depois volta?

ED: Houve uma confusão com questão de repertório, uma coisa simples, mas a gente tá ajustando. Só com ensaio, né? Se a gente não escutar a gente mesmo, fica tudo no ar, é muito teórico. “Ah, por que você não toca ‘O Voo do Besouro’ em si bemol menor?” Eu toco, mNostra como você quer que eu faça. Mas aí ninguém sabe. “Ah, não, você sabe.” Não, não sei. Eu falo, bom, por que não faço “O Voo do Besouro” com a mão direita e “Moto Perpétuo” com a mão esquerda? Só que são dois tons diferentes. Você quer “O Voo do Besouro” em si bemol menor, o “Moto Perpétuo” é em dó, não tem jeito de mudar. Foi um cara chamado Paganini que inventou essa música. Chata à beça. Mas é uma música tradicional, né? Vamos com calma, vamos estudar um pouco. Mas não tem tempo, nunca tem tempo, rapaz, no negócio de viagem. Olha as viagens que tô fazendo aí.

PAS: Você viaja muito ainda?

ED: Ah, dessa vez viajei muito mais do que eu precisava viajar. Podia ter sido uma viagem reorganizada de uma outra forma, mas a gente faz porque o Sesc é a única instituição do Brasil que apoia os músicos e apoia a música. Então a gente tem que sacrificar e fazer o possível pra fazer o melhor. Eu levo tudo muito a sério, esse é um dos meus maiores problemas. Mas eu levei sempre a sério e tô aqui até hoje, tem muita gente que não leva a sério e não está mais aqui já há muito tempo, então como é que fica? Será que é essa a conotação que eu tenho que utilizar? Não, eu não sei se é isso. Olha, eu não sei, rapaz, porque há muitas outras coisas que não têm nada a ver com música, né?, no mundo geral de hoje em dia, que tá muito confuso, muito.

PAS: Aqui no Brasil especialmente… Tô falando por causa da política…

ED: É, mas peraí, vamos pensar. O Brasil é o Brasil, a gente sabe como é que é, a gente nasceu aqui. Eu nasci aqui, eu sou brasileiro, não mudei de identidade, nada. Eu continuo sendo brasileiro e torcendo pelo Brasil o tempo todo. Eu vi esse jogo de futebol, torci pelo Brasil o tempo todo. Fiquei chateado, mas achei que tinha alguma coisa estranha naquilo tudo. Quem sabe se tinha ou se não tinha? Ninguém vai saber.

PAS: Tá falando de qual jogo, do 7 a 1?

ED: Do 7 a 1.

PAS: Porque agora na Olimpíada teve um que o Brasil ganhou.

ED: Eu viajei de Gol quando vim de Belo Horizonte, então eu disse que vim de Gol Contra (ri). Teve gol contra naquele jogo? Não, né? Teve? Eu não me lembro.

PAS: Aquele de 7 a 1 acho que teve…

ED: De Belo Horizonte. Aqui?

PAS: Não sei se teve…

ED: Acho que foi em Belo Horizonte aquele jogo. Foi o que eu entendi. Teve um gol contra. A gente fica chateado, né, quando vê essas coisas. O país da gente é o país da gente.

PAS: Com que frequência você vem pra cá?

ED: Eu venho quando dá pra vir. Eu não fico triste, não, sempre foi do jeito que a vida é. Estamos aí com essa história, e tem gente que quer botar mais confusão na história, os caras que estão dizendo que tem um planeta novo aí. Ah, tem, é? Agora que cês descobriram (ri)?

PAS: Ele já existia, né? É novo porque descobriram agora…

ED: Pô, descobriram até Vênus, esses outros, tão longe que não se enxerga nem daqui. Descobriram que tinha um planeta novo? Não, não tem. Parece que tá pertinho, como se fosse a Lua, é tão cheio disso agora. Sem falar em política, né? Política é uma profissão muito feia.

PAS: Eumir, quando você foi embora tinha acabado de acontecer um golpe militar, agora a coisa tá esquisita de novo e você tá aqui justamente na hora.

ED: É que eles esqueceram de acabar o golpe (ri). Ficou um golpe em falso aí, um golpe no ar. Como é que chama aquele quando a pessoa pega um vento frio nas costas?

PAS: Um golpe de vento? Golpe de ar?

ED: Golpe de ar, isso. Ficou um golpe de ar, é isso aí, todo mundo sofrendo as dores. Eu me lembro de quando falavam do gigante adormecido, aí virou o gigante entorpecido, né? Ficou esquisito. Não, mas isso aí, rapaz, normal. Eu tô falando isso de brincadeira, não tô falando sério. O Brasil é um país espetacular, eu viajei bastante pelo Brasil. É espetacular. É o povo da gente, que tem diversas… Aí você vai analisar, é porque o quê? É o Brasil, né? Nós somos brasileiros.

PAS: Você tá falando que viajou bastante pelo Brasil antes de ir embora, ou depois?

ED: Nos últimos dez anos, com show, para lugares bonitos, lindos. Fiz um negócio em Olinda, numa igreja, espetacular. Antes disso eu dava palestras, né?, genéricas, assim, sem cobrar nada. A gente quer palestrar com as pessoas, ver o que tem dentro da cabeça deles, o sonho de poder ter uma carreira musical. Infelizmente, por culpa dos políticos, nos Estados Unidos, na Europa… Na Europa por culpa de terrorismo, no Brasil por culpa de políticos. Não pode. Além do mais, o pessoal criou uma vida de papel. Ah, tem que conseguir esse formulário, você preenche? Depois que preencher, você vai naquele guichê lá e eles vão dar um carimbo pra você. Com esse carimbo você pode finalmente ir no outro guichê. É fácil, é bem fácil… Mas isso sempre existiu. Ficou muita burocracia pra defender a politicagem, é um negócio que gera um dinheirinho extra, às vezes um dinheirão extra. Eu não vou também ficar falando mal das políticas, qual é a solução pra esses problemas?

PAS: Se alguém souber… E a música? Quais são os problemas da música?

ED: É que não tem mais indústria de disco nem de CD, nada. Agora é talvez pela internet, mas você tem que comprar uma máquina muito forte. Eu tenho uma neta jovem, ela tava sendo namoradinha, uma das namoradas do menino… Como é que é o nome do menino? Minha mulher é que sabe.

PAS: É lá nos Estados Unidos?

ED: É. Ele tem avião, tem tudo. É jovem ainda. Como é que é o nome dele? É conhecido, tá com o número um no mundo inteiro. Ele montou… – o pessoal dele, não ele, ele não sabe nem soletrar ainda, coitado. Bieber! Justin Bieber!

PAS: Peraí, não entendi, a sua neta é namorada dele?

ED: Era, muito tempo.

PAS: Meu Deus!

ED: Levava ela pra todo lugar, pro Caribe. Ele tinha avião, né? E aí ficou nisso, mas eu sabia que não ia dar em nada, esse cara tá a fim é de outras coisas, né? Mas esse cara montou uma companhia, ou montaram pra ele – ele não montou nada, não sabe nem montar em cavalo, muito menos uma empresa, uma companhia.

PAS: E música, ele sabe?

ED: Ele não é ruim, não. Ele pessoa é diferente. Ele praticamente junta as pessoas, e o que ele gosta as pessoas fazem, ou aprimoram, e o que não gosta ele não usa, e vai por aí afora. Mas o sistema que tá sendo usado hoje em dia é uma música de cada vez. Você pode fazer um disco com 12 ou 12o músicas, não faz diferença. A música que eles vão pegar é uma ou outra que acreditam que vai dar certo. E esse é o sistema. Pra botar na internet tem que ser isso mesmo, quem é que vai escutar um disco na internet hoje em dia? Nada a ver. Hoje em dia você tem que comprar a música, pagar seja lá o que for, ou participar do clube. Eu não sei qual é a finalidade então de fazer as coisas. Mas ele não tá nem aí, tá no negócio dele, faz e fez e lança e deixa, tá bom, faz aí. E tem dado certo, ele tá em primeiro lugar em todos os singles que tá lançando. Tá em primeiro lugar, eu tô sabendo. Mas a minha neta tá indo muito bem também.

PAS: Ela trabalha com música?

ED: Não, ela trabalha com modelagem. Já assinou vários contratos, tipo com companhias grandes nos Estados Unidos, Ford, não sei o quê. Tá indo bem. Embora, aí cê tem que pensar… Se eu aprovo ou não aprovo, não faz diferença (ri), as crianças são crianças, mas não são crianças, infelizmente. Isso aí não é um sinal bom pra mim. Não parece um sinal bom, não, pra ninguém. Principalmente pra eles, pras crianças que estão sendo usadas, abusadas e exploradas. Porque depois que passa de uma certa idade acabou, vai fazer o quê? Não tem mais nada. Nós estamos passando uma fase muito difícil no mundo inteiro. As pessoas têm que confiar mais é no ser poderoso que existe, eu acredito. Eu acredito em Deus e acredito que ele é que ajuda ou não certas situações. E que certas situações que não são muito boas de qualquer maneira não vão dar certo, aí depois você pode dizer que foi Deus ou que não foi Deus. No fim é uma questão de julgamento. Você tem que julgar as coisas com muito cuidado, tem muita coisa por aí.

PAS: Você tá falando do primeiro lugar do Justin Bieber, mas você é um brasileiro que já ficou em segundo lugar nas paradas dos Estados Unidos. Que loucura, pra gente que tem orgulho de você.

ED: É completamente diferente.

PAS: É exatamente isso que eu queria perguntar.

ED: Na época foi diferente, hoje em dia não há mais isso, não tem mais companhia de disco. Nos Estados Unidos tem uma ou duas ou três ou quatro talvez que ainda funcionam. Justin Bieber, eu não sei nem qual é a companhia dele. Mas ele tem uma máquina, quem sabe isso bem é a minha mulher, ela acompanha. Eu não tenho tempo pra acompanhar, eu tô tentando sobreviver a estas alturas – sobreviver de uma certa forma, não tô passando fome, nada disso, tem quibe aqui pra comer, tá tudo uma maravilha. Eu não sei, é difícil, viu?, porque não adianta a minha opinião, é uma coisa inútil.

PAS: Eu queria saber como você viveu o seu segundo lugar nas paradas, em 1973. Não deve ser mole, né?

ED: Eu fiquei em segundo lugar, uma coisa assim, não me lembro, não. Mas uma vez só, depois nunca mais.

PAS: Deve ter sido um momento ímpar.

ED: Ela não tem vocal, não é uma música vocal. A única coisa aceita pelo mundo é música vocal, seja aqui, na Arábia, onde for. A música vocal ainda é o maior solista. O som solista do mundo que sempre deu certo é a voz, seguido pelo quê? Talvez pelo saxofone tenor, ou uma coisa assim.

PAS: E como você conseguiu furar esse bloqueio, Eumir?

ED: Eu não penso nessas coisas. Naquela época eu não pensava nisso. Eu ia, fazia da minha cabeça, as ideias. E até hoje tá dando certo, as pessoas até hoje dizem “eu escuto seu disco, eu compro seu disco”. Agora não tem mais companhia pra vender os discos, então eles tão comprando os piratas. Isso é o que dói um pouco, porque você não tá se beneficiando com nada do que você já fez, já produziu, já gravou e preparou. É isso. Eu continuo um dos maiores fãs do Brasil, da música do Brasil. Trabalhei muito com Jobim, com Bonfá, com gente muito boa. O Baden Powell, e o Vinicius de Moraes, a gente se gostava muito naquela época. Depois começou a mudar, começou a virar política, quando chega nesse ponto… Os caras menos avisados, coitados, não sabem. Não pode botar política, começar a gritar que a terra já secou, “vamborandá que a terra já secou”.

PAS: Você achava que não devia?

ED: A terra continua secando (ri), não é uma coisa bonita de se cantar. Tem uma coisa boa, energia, tudo bem, mas vamos cantar coisa bonita, vamos escolher um negócio melhor pra cantar. Quando eu vi isso, disse ih, isso aí é difícil. Foi aí que eu achei que era melhor eu tentar a vida nos Estados Unidos, que é um lugar muito bom.

PAS: É mesmo, teve a ver com esse detalhe?

ED: Teve. Lógico, na cabeça da gente. Não vou ficar escrevendo, “isso aqui não dá”, mas na cabeça da gente, aqui atrás, onde a gente nem sabe o que é que tá pensando… Eu já tinha família, já tinha criança. Fui, deixei as crianças aqui, duas crianças. Fui lá, e batalhei, trabalhei com um grande amigo meu, Luiz Bonfá. A gente se dava muito bem musicalmente também. Aí aquele negócio, quando fiz meu primeiro disco nos Estados Unidos era tiro ao alvo.

PAS: Está falando de Prelude?

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Luiz_Bonfa_JacarandaED: Isso, esse foi o primeiro disco lá. Esses tempos eram bons, eu acho. Qualidade de gravação, tudo melhor. Hoje em dia não tem. Todo compositor é ciumento, como Bonfá também. Eu era mais arranjador, e acabei tocando piano por força do arranjo, e porque (antes) eu trabalhava com Roberto Menescal, tinha um conjunto, trabalhava na boate, toda noite, três shows por noite. Ia pra casa 3h30 pra dormir umas três horas e pegar ônibus em Laranjeiras pra ir pra PUC.

PAS: Pra estudar?

ED: Pra estudar, engenharia mecânica. Quem acabou terminando foi meu filho, mas nos Estados Unidos.

PAS: Você não terminou?

ED: Não, não terminei porque tava trabalhando já, fazendo arranjo, fazendo o conjunto Os CatedráticosLos Danseros en Bolero (álbum de 1965 creditado à Orquestra Los Danseros), coisas assim, que me davam prazer de fazer. Não fazia por causa de dinheiro, logicamente que pagavam alguma coisa, mas naquela época não se ganhava muito com arranjo, não. E foi por aí.

PAS: Então, mas por que um arranjador brasileiro de repente faz o disco Prelude e ele vira um sucesso, entra nas paradas pop norte-americanas?

ED: Não sei. A gravação do 2001 que fiz era mais ou menos a 25, tinha 24 gravações já sobre o filme, mas ninguém chegou a esse ponto. O que aconteceu foi que eu comecei a pensar. A frase que eu tenho aqui foi uma frase que me veio à cabeça num baiãozinho que escrevi há muito tempo. Tinha uma música chamada “Balãozinho” (1963), mas não foi essa, não, foi uma outra. Eu tinha um caderninho, nem tinha papel de folha de música naquela época. Aprendi a escrever e escrevia no ônibus. Parava ali antes de virar pra Cinelândia, naquela avenida grande que tem lá, esqueci. O sinal não mudava nunca, então eu ficava escutando samba-canção, samba de Nora Ney. Eu era garoto. Gostava de Nora Ney. Ficava batucando com meus dedinhos (cantarola), um, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro. Naquela época escreviam em 2/2 ou 2/4, desculpe, mais 2/4 que 2/2, também 2/2, mas 2/4. Cada dedo era uma semicolcheia (cantarola, vai formando uma melodia). Aí ficou simples pra mim, daí pra diante eu escrevia já. Não sabia nem ler direito, mas já escrevia música, antes de ler. Aí fui pra Academia Mário Mascarenhas estudar acordeon.

PAS: Começou no acordeon?

ED: Acordeon. Minha mãe era quem me guiava no estudo de música, me ajudava. Meu pai queria que eu fosse trabalhar na oficina, na serralheria. Eu ficava assim, não sabia se trabalhava com ele ou não, mas a minha mãe insistia, “você vai pra escola, tem que estudar um pouquinho, depois você decide”. Aí ficou nisso, né?, eu tocava nos fins de semana, em clube, com o conjunto meu. Aí eventualmente o Menescal me escutou numa festa de 17 anos. Éramos eu, no baixo o Sérgio Barroso, que ainda trabalha bastante, o Henri (Ackselrud) da Flauta, na bateria o João Palma, coitado, que faleceu há pouco tempo, trabalhou com Sergio Mendes muitos anos, e no vibrafone o Ugo Marotta. E ele gostou, disse “poxa, eu arranjo trabalho pro conjunto e vocês dão o nome, Roberto Menescal e Seu Conjunto“. Lógico, tudo bem. Foi aí que trabalhei com Menescal em vários bares lá no Rio. Às vezes viajava pra Vitória, pra São Paulo. Fiz muita coisa quando tinha Elis Regina aquele show dela… Tem muita coisa, a cabeça já não dá pra guardar.

PAS: O Fino da Bossa?

ED: Depois que ela ganhou no festival com a música do Edu Lobo, “Arrastão” (1965). Meu ouvido já tá zunindo, quando eu for tocar amanhã não vai ficar legal, não. Posso te garantir.

PAS: Não vou te incomodar muito, só mais um pouquinho. Você tava falando da Elis.

ED: Isso. Trabalhei muito com Elis, mas mais assim em show, em televisão. Em disco eu não me lembro, acho que fiz alguma coisa. Ela já estava com o Cesar Camargo Mariano, que foi meu aluno quando ele tinha 18 anos de idade. Eu ensinava orquestração pra me ajudar na PUC, eu tava comprando um Simca Chambord caindo aos pedaços, coitado – não caindo aos pedaços, mas com problemas mecânicos. E fora isso eu me diverti bastante, tô muito satisfeito com o que eu fiz e o que aconteceu comigo. Continuo satisfeito, mas preocupado com a direção das coisas em geral. Muito preocupado. A saúde, graças a Deus, sou muito precavido, então trato muito da minha saúde. Presto atenção em coisas bobas, que ninguém nunca presta atenção. Um dos caras que prestei muita atenção foi o cara que falou da vitamina C. O problema das pessoas com vitamina C é que não tomam o suficiente, todo mundo tem medo de tomar muita. Comecei a tomar mais e até hoje nunca tive problema. Tinha um outro que é mais engraçado ainda, que disse que se você tomar bicarbonato de sódio todo dia você vai proteger seu organismo à beça.

PAS: Não é ruim o gosto?

ED: Até que nem. Ponho um Alka-Seltzer pra melhorar um pouquinho, é efervescente. Tomo de manhã e à noite também. E a minha amizade com todos os músicos do Brasil? Eu adoro, eu adoro tanta gente no Brasil, eles me adoram também.

PAS: Costuma ver alguns deles quando vem pra cá?

ED: Quando eu posso. Não dá tempo. Minha mãe já faleceu, não tem mais a casa dela, que era da minha tia, que também já ficou mais velhinha, em Angra dos Reis. Via muito elas lá, mas minha tia começou a ficar meio difícil de entender as coisas. Disse que minha mãe tava tentando botar fogo na casa. Minha mãe ficou chorando. Mas eu nem sabia que você vinha, senão tinha vindo antes.

PAS: Só mais um pouquinho.

ED: Diga.

PAS: Uma coisa que me fascina muito na sua obra é sua relação com a música negra norte-americana, e não só norte-americana, acho que brasileira também. Roberta Flack, Kool & The Gang, o que explica esse vínculo, essa afinidade?

ED: Nenhum. Quem me chamou foi o produtor da Roberta Flack, um rapaz chamado Joel Dorn. Foi ele que me convidou, depois foi o Arif Mardin, produtor da Aretha Franklin, que também me chamou. Minha conexão com música preta não é com música preta, se pensar bem. São de origem de música negra, de coral gospel, mas Roberta Flack nem tanto, ela era professora de canto. No mais, acabei trabalhando com muitos conjuntos, sabe que eu produzi o Kool & The Gang?

PAS: Então, isso é funk puro. Uma coisa maravilhosa.

ED: Vou te explicar aquilo ali. Fiquei muito amigo do Maurice White, que faleceu há pouco tempo. A gente ia trabalhar numas coisas, acabamos não trabalhando. De qualquer maneira, o funk foi pro Brasil. Os músicos adoraram, mas o funk é da gente (ri), é um samba reciclado nos Estados Unidos. É igual ao chocolate, o chocolate é da gente, da Amazônia. Eles mandam pros Estados Unidos, pra Suíça ou pra sei lá onde e mandam de volta pra gente o chocolate, que é nosso. O petróleo, não sei se o petróleo é nosso. Isso aí já é outro assunto.

PAS: O produtor brasileiro revelou alguma coisa ao Kool & The Gang pra eles fazerem “Celebration” (1980), “Ladies’ Night” (1979)…? Tem algo de brasileiro nesses sucessos?

ED: Não é bem funk, tem um outro nome que se dá. Eu não me lembro, rapaz. (Pensa.) É funk, mas tem outro nome também, eu esqueço. Rhythm’n’blues, uma coisa assim. Mas é funk, né? Tem outros conjuntos muito mais funk, Earth, Wind & Fire é um deles.

PAS: Você também trabalhou com Earth, Wind & Fire.

ED: Trabalhei, eu fiz alguns arranjos no disco All ‘n All (1977), da música do Milton Nascimento que descobri e tirei do balaio (“Brazilian Rhyme”). Música que eles não querem mais escutar falam que põem no balaio. Levei pra casa, pedi permissão pra levar pra casa. Escutei, falei: esse cara é bom à beça, precisamos escutar esse cara. Foi em intervalos, já estava nos Estados Unidos. Vim aqui porque Augusto Marzagão era muito amigo meu, me ajudava muito (Eumir trabalhou como selecionador de canções para 0 Festival Internacional da Canção da Globo, que Marzagão dirigia). Quando demonstrei interesse no Milton Nascimento, ele disse: “Então você vai”. Quando foram aprovadas as três músicas que o Milton Nascimento botou, tive o maior prazer em fazer os arranjos dele. Não sei se foi antes do “Sabiá” (1968), acho que foi antes. Acabei fazendo “Sabiá”.

PAS: Também fez “Sabiá”?

1971 Sinatra & CompanyED: Fiz, é arranjo meu. Sim. Foi mais ou menos o mesmo tipo de arranjo que fiz pro… Famosíssimo… Frank Sinatra (para o álbum Sinatra & Company, de 1971).

PAS: “Sabiá” é uma canção de exílio, e você tava indo embora…

ED: Bom, o arranjo envolvia uma orquestra grande, embora eu tivesse um segredinho. Os arranjos pro Maracanãzinho tinham que ser feitos de um certo jeito. E sempre deu certo. Tinha a música do Bonfá, “Dia das Rosas” (interpretada por Maysa no FIC de 1966). E tinha outras coisas também.

PAS: Sem contar “Travessia” (1967).

ED: É. “Travessia”, “Morro Velho” e “Maria Minha Fé”. As três foram pro festival.

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PAS: Não é pouca coisa, não.

ED: O disco saiu pela Fontana uma época, acabou na França e quem escutou foi a Björk.

PAS: E aí esse vínculo que vai da música negra à esquimó da Islândia. O que explica isso?

ED: Você chegou a escutar a versão que ela fez de “Travessia”, no tom original? Eu insisti com ela, não faça isso, você vai se estourar. Ela tem uma voz frágil. Mas ela fez. Outro dia mesmo eu botei no meu Facebook, pra promover o show, porque ia tocar “Travessia” em Belo Horizonte. A versão que ela fez, foi em Londres que nós gravamos isso, eu fiquei com tanta pena. Falei: “Björk, não, você vai esgotar tua voz, vai dar um problema”. Não posso impedir, vamos nessa. Rapaz, tem tanta coisa.

PAS: Wilson Simonal é outro artista negro com quem você trabalhou bastante.

ED: Era amigo também. Simonal é mesma época da Leny Andrade, um pouquinho antes. Eu trabalhava esporadicamente com ele. Com ela eu fiz um disco inteiro, com Simonal fiz disco com banda. Eu fazia a banda do jeito que achava que tinha que ser, com trompa, tuba de vez em quando, dependendo da situação.

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8 COMMENTS

  1. Assim falará Zaratustra:

    Eis aqui a realidade que NEGO (o cachorro) poderia falar e o mesmo o Zaratustra:

    
O PT é totalmente contraditório, mesmo esses uspianos e artistas de TV e da Lei Rouanet. Eles tremem quando vêem um opositor, por exemplo, tal qual o brilhante e corajoso FERNANDO HOLIDAY. Se se opor ao PT, não interessa quem seja, o Partido dos Trabalhadores destrói. São truculentos, picaretas, e autoritários ao extremos. Cheios de papos furados, por anos a fio. Escritos e falados, em toda parte! O PT vive de narrativas. Marta Suplicy que caiu fora pode dizer…

Nós gritamos GOLPE por esse motivo. Veja:
[Assim como gritamos: “Coca-Cola dá mais VIDA!”]

    
A Dilma está é aqui: um produto a ser vendido e consumido. Comprado, mesmo que seja sem dinheiro. Apenas isso. Um produto publicitário! E haja publicidade! Veja. Eis:

Danoninho, PT, Lula, Dilma, Requião, Rui Falcão, Santana, pseudo-intelectual:
O PT sempre será perfeitamente astuto e sutil, quase invisível em seu ilusionismo ao utilizar todos tipos de clichês. Pratica qualquer NARRATIVA para estar no poder. Narrativas publicitárias que USURPAM o pensamento, mentes e conduz a estereótipos. Vigilância e controle ideológico. Dentro das Universidades, nas ruas, bótons, autoadesivos, no trabalho, blogs espertalhões, artistas puxa-sacos-Lei-Rouanet, professorzinhos picaretas, discursos manipuladores, «lavagem cerebral».

    
Golpe, com toda certeza, é um clichê publicitário, é frase-pronta, imagem estereotipada e montada a priori (nessa altura, provavelmente, recomendada por algum marqueteiro, tal qual João Santana. Semelhante a ele. Senão, ele próprio): frases clichês tais quais: “Danoninho vale por um bifinho”. Eis aí a realidade do Petismo. Defenda SAFATLE ou não: Apenas vai dar aquele “ar de intelectual” — puro modismo.

    
Mia, bebe leite, tudo indica que é um gato; mas o PT afirma: é um cão.

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