Segundo relatou um jornal, na cobertura da votação recente no Senado com vistas aos afastamento de Dilma Rousseff, uma repórter teria se queixado para o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), da dificuldade de manter conversas reservadas. “Sempre que busco um off, tem um microfone gigante na minha cabeça”, teria reclamado. Um radialista teria apelidado o microfone direcional em ação por ali de “monstrengo”.

O microfone em questão poderia tanto ser o da equipe de Maria Augusta Ramos, como de Anna Muylaert ou de Petra Costa. As três documentaristas estavam em campo filmando os acontecimentos que desembocaram na cassação do mandato da presidenta eleita Dilma Rousseff, no último dia de agosto de 2016.

Mas o que os políticos, os jornalistas e as empresas de comunicação tanto temem? O que haveria de subterrâneo naquelas sessões? Muito provavelmente, salvo um ou outro pacote de açúcar em envelope transparente, nada. O temor não parece ser a revelação de segredos, já que quase todos tiveram, nos últimos tempos, uma maciça presença voluntária na mídia e, só do exterior, cerca de 60 jornalistas estiveram cobrindo as sessões. Nada pode ter sido mais esquadrinhado e exposto do que o espetáculo da deposição de Dilma.

Cena do documentário "Juízo", de Maria Augusta Ramos
Cena do documentário “Juízo”, de Maria Augusta Ramos

“Não vou filmar o senador que é a favor do impeachment de maneira diferente do senador que é contra”, disse a diretora Maria Augusta Ramos, brasiliense radicada na Holanda que tem filmes premiados em festivais internacionais (como Desi, Justiça, Juízo, Futuro Junho e Seca). Alguns senadores, como Simone Tebet (PMDB-MS), Ana Amélia Lemos (PP-RS), Ronaldo Caiado (DEM-GO) e Aloysio Nunes (PSDB-SP), se recusaram a gravar depoimentos para os documentários. Mais do que exercer seu justo direito, eles assim antecipavam (supostamente em um julgamento imparcial) um juízo e seu voto, já que faziam isso por intuir que as diretoras seriam pró-ré, daí a negativa.

Não adiantou Maria Augusta explicar pacientemente: parece que o medo é o de sempre, o do ângulo da filmagem, e principalmente o do caráter perene do cinema, que vai além da duração mobilizadora e engajada da imprensa. O cinema implica na eternização do histrionismo, das sutilezas, da ambiguidade, de certas performances legitimadoras de um julgamento capenga, tão risível que o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, o definiu como “impeachment tabajara” (fazendo referência a um programa de humor, ironicamente, da Rede Globo).

Os documentários têm funcionado muito frequentemente como arma de reposição de verdades submergidas pelo casuísmo. Ficou famoso como um desbaratamento da história oficial o documentário A Revolução Não Será Televisionada (ou Chávez: Bastidores do Golpe, no original Chavez: Inside The Coup), documentário irlandês filmado e dirigido por Kim Bartley e Donnacha O’Briain, a respeito do golpe de Estado que, em 2002, depôs o presidente eleito da Venezuela, Hugo Chávez, e colocou o empresário Pedro Carmona em seu lugar por dois dias.

O que o filme escancarou não foi a luta renhida pelo poder, nem o teatro militar envolvido (isso tudo também foi mostrado), mas principalmente o papel que a mídia exerceu na manipulação dos fatos, na condução da narrativa e até no desfecho do golpe. Além da própria capacidade de reação das forças chavistas, a ação de desmascaramento foi fulminante: o golpe perdeu força, e Chávez retomou o poder. Curioso que a equipe irlandesa, da TV Radio Telefís Éirieann, estava em Caracas por um acaso.

Cena da ficção "Que Horas Ela Volta?", de Anna Muylaert
Cena da ficção “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert

O pavor do político frente ao documentarista mostrou-se patológico entre certa classe política. O documentário lhes reserva um lugar cativo no futuro, na História, à sua revelia. Tentou-se inclusive incluir as três cineastas que filmavam o rito de deposição no Senado numa espécie de bloco ideológico, para desqualificar de antemão aquilo que possam produzir. Curioso que isso não era importante até o momento em que Anna Muylaert, ao receber em março um prêmio das Organizações Globo, o Faz Diferença, conferido ao seu filme Que Horas ela Volta?, proferiu pequeno discurso de cunho social: “Eu dedico esse prêmio a todas as Jéssicas da vida real. E dedico ao pai e à mãe desses jovens, que são o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma“.

Pronto, foi o que bastou para se criar a suspeição. Como é hábito em regimes autoritários, uma simples reverência a um conjunto de programas de cunho social pode se tornar um carimbo de inimizade política. Claro, depende do cineasta e do termômetro do momento: um documentário de apelo muito mais abrangente sobre o inimigo político predileto, Entreatos, de João Moreira Salles, jamais mereceu condenação prévia.

Mas, muitas vezes, é preciso que a obra cinematográfica seja produzida bem longe do Brasil para que o aparato de criminalização não consiga ser tão eficiente. Foi o que aconteceu com Muito Além do Cidadão Kane (Beyond Citizen Kane), do britânico Simon Hartog. Esse filme mostrava como a Rede Globo dá o tom das tensões e media as aprovações entre o poder e a sociedade desde o seu surgimento. A surpresa é que estava longe dos braços do polvo emissora, espalhados pelo território nacional: foi exibido em 1993 pelo Channel 4, emissora pública da Inglaterra.

Havia uma curiosa frase do general Medici sobre o Jornal Nacional, aríete dessa disposição da emissora: “Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho”.

É curioso também notar que, com essa pequena insurreição contra as documentaristas em ação no Senado, o cinema continue sendo considerado uma linha de frente da oposição ao novo regime instalado no poder no Brasil. Nos anos de 1960 e 1970, era a MPB que se postava mais à frente, questionando o poder.

Em Arquitetura da Destruição, documentário sueco de 1989, os diretores mostraram, entre outras coisas, que os nazistas odiavam a arte moderna, que pilharam obras pela Europa, que se ocuparam em tentar estabelecer uma verdade artística e que Hitler, muito antes de chegar ao poder, sonhou tornar-se artista. Hitler, que não fazia poemas, mas gravuras, tentava impor sua leitura da linha evolutiva da arte por meio de um revisionismo violento e da censura. Não seria surpresa se surgissem agora documentaristas contratados pelo novo regime instalado no Brasil com a disposição de mostrar somente o ângulo bom de certos políticos, e até mesmo cobrindo com bolinhas emprestadas a Laranja Mecânica o pacotinho de açúcar transparente.

Cena de "Elena", de Petra Costa, também diretora do curta "Olhos de Ressaca"
Cena de “Elena”, de Petra Costa, também diretora do curta “Olhos de Ressaca”

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