Influenciado por Lightnin’ Hopkins e Jimi Hendrix, bluesman de 76 anos só gravou o primeiro disco em 1996 e diz que não se pode separar o blues do rock
Blues não depende de pátria, depende de quem o toca, diz o cantor e guitarrista Jimmy Burns, de 76 anos, que é a soma dos desígnios do blues: mais jovem de 11 filhos, nasceu na cidadezinha de Dublin, às margens do Mississippi, cresceu na fazenda Hilliard Cotton Plantation, colhendo algodão, e ali aprendeu o violão dos ancestrais escravos.
Mas, aos 12 anos, Jimmy Burns mudou com a família para Chicago, e aí sua alma foi eletrificada. Ele se tornou um bluesman estradeiro, e é esse andarilho do blues que chega ao litoral paulista no próximo dia 16 de julho, sábado, às 22h30, para o Iguape Jazz & Blues Festival. As portas nem sempre se abriram generosamente para Jimmy Burns que, entre os anos de 1970 e 1990, passou a dedicar-se com mais ênfase ao seu negócio: uma churrascaria familiar. Nos anos 1990, foi “descoberto” tocando num clube chamado Smokedaddy, e gravou seu primeiro disco apenas em 1996. “Fiquei longe da música somente durante 5 anos, e mesmo quando eu estava longe eu era envolvido com o gospel. A música sempre esteve no meu coração”, diz Jimmy, que concedeu a seguinte entrevista exclusiva.
Como você desenvolveu seu estilo de tocar guitarra? Muitas vezes, você lembra B.B. King, outras parece Eric Clapton. Quem foram seus mestres?
Obrigado pelo elogio. Nunca penso em como soa minha guitarra ou se toco como outro alguém, eu apenas toco o que toco. Meus mestres foram Muddy Waters, Lightnin’ Hopkins, B.B. King, Curtis Mayfield e Jimi Hendrix.

Desde a sua redescoberta, a indústria da música mudou um bocado. Gravar não é mais o principal negócio, mas sim os concertos. Como você enxerga esse tempo?
Eu nunca mudei minha abordagem, meu jeito. Vejo essa época como uma grande oportunidade para tentar coisas diferentes. Você deve ter em mente que a música é a mesma, o que muda é o jeito como é reciclada. Nós tocamos a mesma coisa eternamente.

Canções suas como Low Consideration têm um grande senso de velocidade e volume, como o rock. Você foi mais influenciado pelo blues ou pelo rock? Tem problemas com os puristas do blues?
O título da canção, na verdade, é No Consideration, alguém entendeu errado a pronúncia e passou adiante assim. Você não pode separar o rock e o blues, eles são a mesma coisa, apenas tocada de um jeito diferente. Não sou um purista do blues e acho que só existe um tipo de música: a boa música.

Há um lote de músicos, e podemos mencionar Sharon Jones, Bettye LaVette e Charles Bradley, que viveram no ostracismo em algum ponto de suas carreiras, assim como você. Acredita que isso aconteceu porque houve um gap entre a arte desses artistas e as expectativas das platéias?
O negócio da música é efêmero, as pessoas vêm e vão e é difícil manter gente leal a você, que aquela janela fique aberta para você por um tempo razoável. E há tanta coisa para se ouvir…

Seu disco mais recente, It Ain’t Right, abre com duas canções de um compositor chamado Billy Flynn. O que há de especial nele?
Nós temos uma longa conexão e, mais que isso, ele é um grande compositor. Amo a música dele, e ele é muito respeitado e conhecido no mundo da música.

Os bluesmen lendários, como B.B.King, LC Ulmer, T Model Ford, John Lee Hooker, Robert Belfour, estão em desaparição. Você vê gente nova bacana surgindo no gênero?
Nós todos um dia vamos, mas há sempre alguém vindo atrás para levar a coisa adiante. Caras como Mike Wheeler, Eddie Taylor Jr, King Fish, Toronzo Cannon e Corey Dennison, que são muito bons.

Você é um dos últimos bluesmen vindo das plantações de algodão do Mississippi. Você viu a ascensão e a queda de muitos músicos extraordinários vindos da mesma origem. Como a origem afeta o que você faz hoje?
Essa é uma questão muito boa, nunca pensei muito a respeito. Você sabe que se fizer certas coisas, algo pode acontecer. E, também, sabe que as coisas vão acontecer e que você não vai ter sempre o controle sobre elas. Então, você só tem que fazer e ter esperança de que vai acontecer o melhor.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017) e Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019)

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