Enquanto o país navega em mares anti-institucionais, a comunidade cultural brasileira (muitas vezes organizada em um conjunto de ilhas) ouve falar da possível fagocitose do Ministério da Cultura pelo Ministério da Educação (*) e resiste a discutir as consequências que dali podem vir a se alastrar.

Nesse caldo de (falta de) cultura, a instituição privada Itaú Cultural anuncia os 117 agraciados da 17ª edição do programa Rumos, num investimento que o diretor Eduardo Saron afirma totalizar R$ 15,5 milhões. Nesta edição, cerca de 12 mil projetos recorreram à sociedade público-privada (o Itaú se vale de recursos da sempre questionada e sempre utilizada Lei Rouanet). O total de aprovados perfaz, portanto, menos de 1% dos que pleitearam o mecenato.

A leitura do quadro de selecionados diz muito sobre o Brasil que havia até agora. E deixa intocado o gigante ponto de interrogação sobre o Brasil que será de agora em diante.

“Comunidades isoladas” é um termo que aflora da lista, presente como palavra marcadora de seis dos projetos aprovados. “Questões raciais” aparece como norteador de cinco projetos, entre eles uma das meninas dos olhos da comissão de seleção, um documentário sobre a atriz negra Ruth de Souza, 95 anos, a ser dirigido por uma jovem criadora também negra, Juliana Vicente. “Questões de gênero” são a razão de ser de três projetos. As demais categorias, mais tradicionais, se espalham entre arquitetura, arte e tecnologia, artes visuais, audiovisual, circo, dança, design, formação, games, gastronomia, gestão cultural, HQ, literatura, música, patrimônio e memória, performance, softwares e aplicativos, teatro.

As expressões “comunidades isoladas”, “questões raciais” e “questões de gênero” deixam visível um traço hegemônico na galeria de projetos aprovados: identidade é a palavra de ordem, seja de modo explícito ou implícito. A mesa de anúncio também o diz, no sotaque nordestino da gestora do Itaú Cultural Aninha de Fátima, e nos dois jurados escolhidos para participar da sessão, a atriz, contadora de histórias e gestora cultural acreana Karla Martins e o cineasta paulista Jeferson De, esse fortemente alicerçado pelo discurso das identidades afrodescendentes.

Karla, Eduardo, Aninha e Jeferson anunciam os resultados do Rumos
Karla, Eduardo, Aninha e Jeferson anunciam os resultados do Rumos

A fala de Karla é nortista por essência, coalhada de termos poéticos e políticos: “fazer uma enxerga do novo Brasil”, “projetos que se arriscam muito”, “elastecimento das relações”, “o Norte caminha muito pouco dentro de si”, “o Rumos é de quem arrisca”.

O discurso de Jeferson provoca Saron, representante na mesa das ditas maiorias. “Sempre que vem um homem branco falando de diversidade, nós já ficamos de pé atrás”, diz o cineasta, antes de observar que a fala das mulheres negras e dos homens negros habitualmente geram expectativas de que façam ameaças, peçam alguma coisa ou se prestem a serviçais.

O traço identitário e o isolamento das diferentes comunidades coexistentes num mesmo Brasilzão transparece nos projetos que vão sendo citados como exemplares: o brasiliense “Calins” (sobre uma comunidade cigana catarinense, segundo Aninha de Fátima a única do país liderada por mulheres), o fluminense “Circodata – Dicionário do Circo Brasileiro”, o goiano “Fabiana” (documentário sobre uma transexual que trabalha como caminhoneira), o gaúcho “A Cidade Inventada – Versão Expandida e Internacional” (sobre o confinamento de ex-portadores de hanseníase), o cearense “Dos Campos à Concentração” (sobre mão de obra escrava recrutada entre famílias afetadas pela seca de 1932), o paraense “TransAmazona” (sobre transexuais que trabalham ao longo da rodovia Transamazônica), o cearense “Swingueira – Corpo e Inventividade nas Periferias do Nordeste”…

O projeto “Nos Trilhos Abertos de um Leste Migrante” demonstra que o isolamento cultural pode estar bem próximo do prédio do Itaú Cultural na avenida Paulista e dos chamados grandes centros: trata da presença migrante na zona leste paulistana e está categorizado com justeza sob o guarda-chuva das “comunidades isoladas”.

Num golpe de olhos, outros títulos de sabor identitário despertam a curiosidade desinformada deste jornalista cultural: o baiano “Escola Livre de Cinema Quilombola Zumbi dos Palmares”, o gaúcho “Caliban – Apontamentos sobre o Teatro de Neutra América” , o cearense “O Golpe do Corte”, o paranaense “Kingston Kombi”, o baiano-pernambucano “Negritos – Imprensa Negra no Recife e em Salvador”, o fluminense-mineiro-capixaba “Volume Morto”, sobretudo o paulista “Mapa (de Homens) da História (Branca) da Arte (Eurocêntrica)”.

Aparentemente compreendida pelos cerca de 40 jornalistas presentes, a trilha identitária se espalha pelos questionamentos feitos à banca durante a entrevista coletiva. As nortistas Rondônia e Roraima são as únicas unidades da federação não contempladas pelo Rumos 2016, mas ainda assim o Itaú trouxe jornalistas dos dois estados para participar do anúncio. Eles, representantes de comunidades até certo ponto isoladas, perguntam sobre sua própria ausência entre o 1% de contemplados.

Repórteres vindos para São Paulo do Acre, do Amazonas, da Paraíba, do Piauí, de Sergipe fazem perguntas, respectivamente, sobre selecionados de Acre, Amazonas, Paraíba, Piauí e Sergipe. Uma repórter mulher pede uma estatística de realizadorAs mulheres entre Os premiadOs (Aninha responde que não foi feita a estatística, mas estima em cerca de 10% a participação feminina). Um jornalista estrangeiro discute os (poucos) realizadores estrangeiros contemplados.

Ao microfone, me apresento como concorrente que pertence aos mais de 99% não contemplados pelo mecenato e formulo a minha pergunta: numa mídia altamente concentrada como é a brasileira, controlada por poucas famílias riquíssimas (Rede Globo à frente), o Rumos do Itaú não precisaria incorporar o jornalismo cultural de modo mais orgânico e menos comercial-industrial, até para que o discurso de diversidade apregoado pelo projeto não caísse no vazio isolado das agendas do jornalismo comercial? Saron responde que sim, que há planos, mas que existe pouca procura numérica do Rumos pelos jornalistas culturais. (Jornalismo, um arquipélago de comunidades isoladas?)

Ao final do anúncio, resta o predomínio da busca de identidade, seja pela presença ou pela ausência, como marco identitário da busca de rumos, das buscas do Rumos. Trata-se de um indiscutível retrato do Brasil nos 16 primeiros anos deste século XXI. Diante da tormenta política, ao futuro próximo pertence a discussão sobre se a busca de identidade seguirá sendo nosso retrato mais fiel ou se o próprio Rumos, na forma como se apresenta hoje, está destinado a ser retrato amarelo num fundo qualquer de baú.

 

(*) A fagocitose do MinC pelo MEC se confirmou na quinta-feira 12 de maio, véspera do aniversário da abolição da escravatura, conforme narra Jotabê Medeiros em reflexão para o portal UOL: sob o governo provisório dirigido por Michel Temer, o Brasil não tem mais Ministério da Cultura.

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