Na primeira cena do filme Mudança de hábito (1992), Deloris Van Cartier, personagem de Whoopi Goldberg, ainda criança, blasfema ao ser perguntada pela professora sobre os nomes dos apóstolos. Depois de escrever John e Paul na lousa, completa sua resposta com George e Ringo, já antecipando que reza mais pela cartilha da cultura pop do que pela Bíblia. O próprio John Lennon teria blasfemado quando disse em 1966 que os Beatles eram mais populares que Jesus, causando inúmeros protestos. Após se tornar uma cantora de cassino e testemunhar um assassinato, Deloris esconde-se em um convento, onde revoluciona a vida das freiras a partir do canto no coral. Adapta a letra do repertório que estava acostumada a cantar em casas mal-afamadas ao repertório cristão. Desta forma, “My Guy” (“Meu Homem”), uma canção erótica, transforma-se em “My God” (“Meu Deus”), um hino de louvor.

Vários são os casos de cantores que se convertem a uma religião e abandonam o repertório secular que os consagrou. Rodolfo Abrantes, ex-Raimundos, é um deles. Da mesma forma, Baden Powell, autor dos afro-sambas em parceria com Vinicius de Morais, recusava-se, após converter-se ao neopentecostalismo, a dizer a palavra “saravá”, por ser supostamente um “louvor a satanás”. Nesse caso, Baden preferia não cantar a música ou tocar apenas a versão instrumental.

A autodenominada popstora Baby do Brasil adotou um repertório gospel após se converter, mas sem abandonar seus antigos sucessos. Não foi apenas o nome artístico, porém, que a ex-Baby Consuelo alterou. Em seus shows, costuma trocar o verso “eu fui a Penha, fui pedir à padroeira para me ajudar”, da música “Brasil pandeiro”, de Assis Valente, por “eu fui à igreja, fui pedir a Jesus Cristo pra me abençoar”.

3809_140415151037_unnamedAlguns padres-cantores, sem sofrer as coerções circunstanciais que sofria uma Deloris Van Cartier, também alteram a letra de clássicos da música brasileira. É assim que o Padre Alessandro Campos (à esquerda), o “padre sertanejo”, atualmente um dos maiores vendedores de CDs do Brasil, alterou um verso de “A Majestade, o Sabiá”, de Roberta Miranda. “Tô indo agora tomar banho de cascata, quero adentrar nas matas onde Oxossi é o Deus” transformou-se em “tô indo agora tomar banho de cascata, quero adentrar nas matas onde tudo é Deus”. A citação a Oxossi na letra original, no entanto, não é fortuita, já que ele é justamente o orixá protetor das matas. A compositora da música aparentemente não se incomodou com a alteração, tanto que gravou a nova versão junto com o padre.

Curiosamente, o mesmo Padre Alessandro cantou junto com os demais convidados do programa Esquenta, da TV Globo, “Menina Veneno”, de Ritchie e Bernardo Vilhena, que tem versos como “o seu corpo nu”, “em toda cama que eu durmo só dá você”, “seu corpo inteiro é um prazer do princípio ao sim” e “toda noite no meu quarto vem me entorpecer”. Mudança de hábito?

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Padre Antônio Maria (foto acima) é outro padre-cantor que “adaptou” um sucesso nacional. Nesse caso, porém, mais do que haver a alteração de uma palavra para reforçar a mensagem geral da música, parece ter havido sua inversão. Trata-se da música “Festa”, de autoria de Anderson Cunha, que embalou os brasileiros na voz de Ivete Sangalo. A música celebra uma festa que “tem raça de toda fé, guitarras de rock’n’roll, batuque de candomblé”, ou seja, uma festa ecumênica, inclusiva, da diversidade. Na festa do Padre Antônio Maria, no entanto, a festa não é mais “no gueto” e sim “de Cristo”. Na versão original, a mistura do mundo inteiro se abre para um infinito de possibilidades: “Misturando o mundo inteiro vamo vê no que é que dá”. Na festa do Padre Antônio Maria o objetivo da festa está previamente definido: “Nós viemos pra louvar”. Não há “raça de toda fé”, mas sim “gente com raça, esperança e fé”. Não há tambores de candomblé, mas sim guitarras que “tocam louvor a Cristo de Nazaré”. A tribo não faz “o chão da terra tremer”, mas sim “a fé em Cristo crescer”. A Mãe Preta perde seu lugar para Maria, que é quem passa a avisar que “vai rolar a festa”.

A versão do padre incluiu mais gente na festa ou excluiu? É provável que o compositor da música tampouco tenha se incomodado com a “adaptação”. A música foi, inclusive, utilizada como jingle de campanha do candidato Aécio Neves (PSDB) nas eleições presidenciais de 2014. A questão é complexa, independentemente de os compositores assentirem ou não com a alteração de sentido de suas letras. Não se trata de proibir apropriações nem paródias (como se em uma democracia com intensas e ricas interações culturais elas pudessem ser controladas), mas de problematizar algumas delas.

A apropriação que Nissim Ourfali fez da música “What Makes You Beautiful”, do grupo pop One Direction, para seu bar-mitzvah, só não foi mais celebrada que a apropriação dessa apropriação pelos inúmeros memes que surgiram. Mas como ignorar que durante séculos o candomblé foi silenciado pela Igreja, ao ponto de seus praticantes, como forma de resistência, terem que adotar nomes de santos católicos para os seus orixás? Será que a substituição de Jesus Cristo por Exu na letra de Roberto Carlos, cantada em rede nacional, seria vista com a mesma naturalidade e teria o mesmo efeito?

“Mudança de hábito” tem um final feliz. Deloris Van Cartier, livre do perigo, volta para a sua vida boêmia, não sem antes se despedir regendo o coral de freiras brancas, que haviam aprendido com ela a cantar ao estilo negro-gospel, para um animado Papa. Dessa vez Deloris, ainda vestindo hábito, dispensou o capuz e exibiu seu cabelo black power livre, leve e solto.

sisteract

5 COMMENTS

  1. Ok, mas não vejo isso como grande novidade.
    Sou baiano, e sempre vi músicas de axé recebendo, quase que instantaneamente, uma versão evangélica, quando de seu lançamento.

  2. A análise foi muito objetiva e real. Estes cantores e padres-cantores, a meu ver, mais cantores que padres, não possuem capacidade de criar novas canções com intuito religioso. Já que os versos estão prontos porque não usá-los numa música nova. Se eles se colocam como pessoas a serviço de Deus deveriam ter suas próprias letras e arranjos e de forma alguma poderiam alterar uma obra que foi inspirada sabe-se lá como e em qual momento da vida. O problema é modificar pra fazer mais dinheiro.

  3. Issó é mais antigo do que o diabo.E não tem nada de herético em tais práticas,haja vista o que ensinou o próprio Cristo:”Não vim abolir as Leis e os profetas,mas aperfeiçoá-los.”

  4. É por isso, que depois não entendem porque aquele pastor que um voto pode salvar a Dilma do impedimento votou contra ela.

    Problematizar sempre nos leva a escolher uma parte, e para as esquerdas os cristãos estão sempre errados.

    Aí depois não entendem porque o Eduardo cunha cola no magnos maltas, nos Silas Malafaia da vida.

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