Nome mais cintilante da nova geração de cantores de jazz, José James revela que Michael Jackson e Prince foram decisivamente influentes em sua música; ele chega a Mangaratiba e São Paulo no final do mês e falou com exclusividade

 

Cantores masculinos novos de jazz você pode contar nos dedos de uma única mão. Mas, no indicador, certamente deverá colocar o nome de José James, 37 anos, o mais moderno e refinado vocalista da atualidade. O nome José diz respeito à sua origem (a família é meio panamenha, meio irlandesa), mas a latinidade termina aí. Ele nunca gravou bossa nova (só conhece João Gilberto) e é natural de Minnesota, Estados Unidos.

Também compositor e bandleader, James tornou-se ainda mais distinto dos colegas de geração ao decidir regravar este ano o repertório de uma das mais notáveis cantoras de jazz do passado: Billie Holiday, para a qual fez o tributo Yesterday I Had the Blues. Cassandra Wilson também fez isso, com Coming Forth by Day, mas não foi surpreendente.
Nove antenas do repertório de Billie foram revisitadas por James (com produção do presidente da gravadora Blue Note, o notável Don Was) e uma banda que não poderia ser mais estelar: o pianista Jason Moran, o baixista John Patitucci e o baterista Eric Harland.

A voz enfumaçada de barítono, a atitude hip-hop, a elegância blasé: é esse show de José James que desembarca no dia 27 deste mês, às 21h30, no Bourbon Street (e no novíssimo festival de Mangaratiba, entre 23 a 25). O vocalista debulha as canções de Lady Day, como God Bless the Child, Fine and Mellow, Good Morning Heartache (com enxertos de diamantes de Al Green e Bill Withers). James falou com exclusividade a El Pajaro que Come Piedra nesta segunda-feira, por telefone.

Entre cantores novos de jazz, só consigo lembrar de Gregory Porter e você. Por que há tão poucas vozes de homens no gênero hoje em dia?

Acho que sempre foi assim, as mulheres sempre dominaram a cena do jazz. Os homens nunca foram maioria. Houve sempre alguns de tempos em tempos, como Nat King Cole, Louis Armstrong, mas nunca eram mais que um punhado.

E você regravou Billie Holiday, um símbolo da condição feminina. Por que decidiu gravar a canção Strange Fruit a capella, sem acompanhamento, como um spiritual?

Bom, primeiro era importante incluir Strange Fruit porque era um manifesto político de Billie, é uma mensagem muito forte. Mas inclui-la significava buscar um jeito de fazer diferente, porque não podia ser trivial. Ela cantou também sozinha, acompanhada apenas de um pianista. Cantá-la sem acompanhamento, com outro tipo de recurso, foi um jeito que encontrei de capturar a emoção e apresentar de um jeito novo ao mesmo tempo. É difícil fazer algo novo com uma canção que é tão antiga, tão influente e que faz parte das convicções e da vida de tantas pessoas.

Falam muito da influência de Gil Scott-Heron em sua música. Mas Gil tinha uma abordagem mais de spoken words, da poesia falada, não era um cultor do canto virtuoso. Você, como vocalista, é um estilista. No que Scott-Heron foi mais influente para você?

Ele nunca foi influente musicalmente em minha formação. Sempre tive respeito pela postura e pelas ideias dele, e isso está mais latente no meu primeiro disco (The Dreamer, 2008), que soava como um tributo. Mas eu credito minhas influências mais fortes e iniciais a Michael Jackson, em primeiro lugar. E a Prince. E eu amo de verdade os rappers. Sempre adorei Ice Cube, De La Soul, A Tribe Called Quest e a soul music dos anos 1970, especialmente Marvin Gaye. Esse blend está presente no que eu faço.

Você também tem encontros com artistas da música eletrônica. Por exemplo: há uma gravação sua com Flying Lotus (codinome do produtor Steven Ellison) em um reggae chamado ‘Visions of Violet’.

Flying Lotus é maravilhoso. O que ele faz é definitivamente avant garde. Não o vejo como um artista de um mundo diferente, ele apenas toca outro tipo de instrumento. O importante é que ele injeta paixão e emoção na música que faz, e essa é a ambição de todo músico.

 

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