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O ano de 2015 tem sido um sapato dois números menor que o pé para tod@s nós brasileir@s que somos mulheres, homossexuais, negr@s, indígenas, transexuais, cigan@s, refugiad@s, sem-terra, sem-teto, sem-mídia etc. etc. etc. O 15 tem sido um sapato de salto alto três números menor que nosso pé, para nós que vivemos no mirante de onde se vê o mundo mais pelo ângulo da cultura que pelos cabrestos da política, da economia, da matemática.

Este tem sido um ano-pedra-no-sapato para nós que, mulheres que somos, estamos cansad@s de tomar na testa não apenas os reacionários, os conservadores, os direitistas, os espumadores de ódio e os eternos comprometidos com o atraso, mas também os amigos machos-adultos-brancos-héteros-sempre-no-comando da blogosfera progressista, das esquerdas machérrimas, do socialismo que coça o saco, do psolismo amigãozão do José Serra.

A coisa vem pela direita, pela esquerda e pelos muros pós-tucanos de Gilberto Kassab e Marina Silva. A misoginia, essa moça que é irmã gêmea do rapaz chamado homofobia e prima-irmã do marmanjo carrancudo que nós e Ali Kamel convencionamos (não) chamar de racismo, transformou este nosso 2015 em um verdadeiro inferno no que se refere às guerras política e econômica (nem vou falar da cultura nesta ocasião, porque a grosso modo a cultura se acomodou à situação de bela adormecida neste país doirado de buarques e bethânais e simonais e alciones).

O panelaço começou um segundo depois da confirmação da reeleição femininíssima de Dilma Rousseff e não tem hora para acabar. O panelaço antifeminino fez sua primeira aparição espetaculosa no Dia Internacional da Mulher, quando Dilma tentava, na televisão, celebrar conquistas femininas da sociedade brasileira (vacina anti-HPV, PEC dAs domésticAs etc.).

Nosso subconsciente certamente entendeu: era preciso submeter, subjugar, amordaçar, calar e manter “em seu devido lugar” esta mulher que ousou pisar o centro gravitacional de poder que nunca lhe pertenceu de direito nem de fato. O filme Que Horas Ela Volta?, da femininíssima Anna Muylaert, explica esse processo tintim por tintim – e, bingo!, tem gente (macha) às pampas correndo para gritar que se trata de um filme sobre o lulismo, como se não fosse também um filme sobre o dilmismo, como se não fosse a presidentA Dilma Rousseff a responsável pela assinatura da “PEC dAs domésticas” e pela aplicação da injeção anti-HPV nas meninas do Brasil (nem vou me atrever a mencionar que foi sob Dilma que o Supremo Tribunal Federal legalizou a união civil homossexual, para não correr o risco de ser linchado pela tradicional comunidade gay misógina).

Todo mundo sabe que a misoginia campeia soberana nos terrenos férteis e lodosos da direita, de reinaldos e josias (esse último é o mais grotesco entre tantos misóginos antiDilma). Mas faz estragos também na blogosfera progressista, na parcela dela que não crê nas políticas do corpo como políticas de Estado. No lar virtual acolhedor que chamamos de Twitter, não resisto a tretar com o estimado Luis Nassif, cujos textos já me ensinaram mais sobre jornalismo do que quatro anos de curso na falecida USP e dez anos passados na finada Folha de São Paulo. Fico desacreditad@, abestad@ e bestificad@ a cada vez que ele despenca mais um destampatório de avaliações misóginas (irmãs do besteirol homofóbico, primas da barbárie racista) contra a presidentA que, acredito, Nassif apoia ~apesar de tudo~.

É incrível, mas, 23 anos depois do impeachment de Fernando Collor (sobre o qual muito aprendi com os textos sóbrios de Nassif), uma mulher chamada Rousseff, a Vana, volta a unir direitas e esquerdas, deixando as primeiras indignadas e as segundas perplexas.

Cito apenas dois exemplos recentes recolhidos em Nassif.

Num enunciado bombástico, ele decreta que “a fraqueza de Dilma pode ser a sua força“. Ou seja, se por acaso a presidentA vier a contornar (como já vem de fato contornando) o golpismo que a fustiga sem trégua desde o dia da segunda eleição, terá sido por conta de sua fraqueza, jamais de sua força. Parece implícito no enunciado (e no conteúdo) que força é caráter masculino e que o colunista macho exige da presidentA mulher um caráter masculino ao governar. Se isso não é machismo e misoginia, é o quê?

Outro. Em mais um enunciado de fazer inveja à Veja, Nassif contemporiza (o que Veja jamais faria), uma no cravo da Fiesp, outra na ferradura trabalhista: “Com pacote fiscal, há chance de Dilma voltar ao jogo”. A mulher não saiu do jogo um minuto sequer, está aparando no peito o golpismo e a fúria louca de toda a elite econômica do país (quiçá do mundo), e o colunista macho tem a declarar que, apesar de fraca, fraca, fraquíssima (já que governa femininamente), ~há chance~ de a governantA mulher ~voltar ao jogo~? (Por que ~há~ a chance, mas a chance não pertence à dona da chance?) De que jogo estamos falando? Isso é o que, se não for misoginia e machismo?

Uso esses dois casos singelos para beliscar os momentos agudos em que o fundo de preconceito turva a visão política, mas sublinho que os exemplos de Nassif estão longe de isolados ou piores ou eloquentes acima da média da direita que espuma ódio. A atitude Desabonadora, Desqualificadora e Denegadora Diante de Dilma é generalizada na blogosfera progressista, nos professores de governo daquela que foi eleita e reeleita apesar de não saber governar. Esses, além de gastar 70% do tempo combatendo a corrupta e Decadente imprensa tradicional, Desperdiçam os outros 30% Depreciando uma presidentA que tem atravessado feito amazona uma floresta de espinhos. (Não sou nada bom em matemática, mas, noutras palavras, passam 30% do tempo ajudando a consolidar o ponto de vista da mídia Decrépita que Detratam em 70% do tempo.)

(Evidentemente não estou me referindo, aqui, à Conceição Oliveira, à Cynara Menezes ou à Lola Aronovich – essas blogueirAs progressistAs eu nunca vi atingirem Dilma com sequer uma palavra, sílaba ou bolinha de papel sexista.)

Agora coloco misoginia, homofobia e racismo em provisório segundo plano. À parte as questões humanitárias e de direitos civis, a blogosfera progressista tem cumprido um triste papel político de acessória ao discurso único da mídia conservadora, que há quase um ano se resume a gritar (sem qualquer apoio em fatos reais e sob silêncio petista catatônico): “Impeachment!”, “impeachment!”, “impeachment!”.

Nassif, Mino Carta, Renato Rovai, Rodrigo Vianna, Eduardo Guimarães, Brasil 247 (esse site é progressista desde quando?), até @s amad@s Jornalistas Livres de cuja invenção tenho a honra de ter participado, todos se dedicam diuturnamente a cerzir um xadrez subserviente que oscila entre o jogo duplo à moda peemedebista do sinistro Michel Temer e a pura papagaiada do terrorismo midiático conservador. Por medo, pânico ou terror, só se fala de golpe e de impeachment há 366 dias, tanto aqui como nos domínios (g)lobistas dos mervais.

(Registre-se a exceção honrosa do sempre amalucado Paulo Henrique Amorim: à parte os exageros e a condição de funcionário da rede do bispo, PHA se destaca dos demais por nunca, até aqui, ter aderido ao pânico insano dos reféns da síndrome de Estocolmo do golpismo canastrão.)

O ponto crucial ao qual eu gostaria de chegar, no domínio híbrido da política e da cultura, é que uma blogosfera progressista possuída pelo medo insensato não foi capaz de produzir, até aqui, um milímetro de interpretação própria, original, audaciosa. Tudo que temos feito é ficar a reboque da mídia reacionária da qual muit@s de nós somos dissidentes. Reverberamos incessantemente a Pauta Única Totalitária do adversário, a Grande Potoca Golpista que, num ambiente de lógica, racionalidade e serenidade, não se sustentaria nas próprias pernas nem por manjados 15 minutos de fama e celebridade.

O pano de fundo, e agora retomo indiretamente o tema da misoginia (do racismo) (da homofobia), é que na reeleição de Dilma o lado conservador perdeu mais uma batalha (a quarta consecutiva numa guerra que não tem hora marcada para acabar, ao contrário do que apostam os arautos do auto-apocalipse). Ato contínuo, sem nem lamber as feridas, passou a falsificar para si o comportamento de vencedor. Os perdedores vestiram a capa de vencedores, enquanto @s vitorios@s (obviamente não estou me referindo à brava presidentA) passaram a adotar bovinamente o figurino de derrotados.

Uma narrativa fantasiosa se ergueu de uma nuvem de pó e se transformou em luxuoso edifício de concreto, num complexo de torres gêmeas (Dilma e Lula) que os Estados Unidos do BraZil precisam a todo custo explodir, enquanto juram copiosamente que as torres já estão derrubadas e convertidas em poeira de estrela. Fundada no princípio-pesadelo da Eleição Perpétua (que nos diga Fernando Haddad), essa fábula hollywoodiana de péssima qualidade tem baixíssimo grau de vínculo com a realidade, e já passa (e muito) da hora de o jornalismo progressista (aquele que tem lado e sabe muito bem qual lado é o seu) assumir a responsabilidade de parar de copiar chanchada alheia e construir sua (nossa) própria narrativa.

Matar de uma vez por todas a praga da misoginia (da homofobia) (do racismo) em cada um dos menores textos que escrevermos seria um excelente (re)começo. Escaparemos lindamente do pau-de-arara em que a Tradição-Família-Propriedade quer nos meter não apesar de sermos governad@s por uma mulher, mas sobretudo PORQUE SOMOS governad@s por uma Mulher com D maiúsculo.

(Texto publicado originalmente no Jornal GGN, a convite de Luis Nassif.)

 

34 COMENTÁRIOS

  1. Concordo com a ideia de fundo, que trata da misoginia. O que dói é essa dificuldade gigantesca de avançar o debate sério e implementar medidas de combate em torno desse tema (e também do racismo, da homofobia) no Brasil.

    Na verdade, é difícil até falar de luta de classes neste país tão desigual. Desculpe o desabafo, mas tem horas que acho que muita gente do povo, apesar de ter votado no Lula quer mais é ser parecido com o Aécio…falta coesão de classe neste país. Falta identidade e identificação.

    Quanto aos blogueiros, me permita o comentário, mas acho que você pegou pesado demais. De fato, acho que se paga muito pau para grande mídia no Brasil. Os blogs repercutem absolutamente tudo que esses porcos publicam. Mas não acho que eles estão fazendo jogo duplo não…acho que tá todo mundo com muito medo do que pode vir por aí.

    Abraço e seguimos na luta!

    • Me perdoe, mas qual luta de classes você se refere? Da onde você está tirando esta conclusão?
      Quanto aos blogs, cada um vincula a informação que acha pertinente. De nada adianta você dizer que a imprensa faz o jogo sujo, sendo que há muitos grupos que não andam na mesma direção.
      Tudo é uma questão do que buscar e do que julgar de acordo com suas crenças.

        • Jura?
          Porque imaginei que fosse perder tempo explanando sobre uma tal luta de classes entre os trabalhadores oprimidos e uma classe dominante exploradora, sem nexo e sem sentido que é divagado por aí. Mas já vi que é melhor usar a ironia do que não ter o que responder né.

  2. Incrível como se escreve tanto para defender a Dilma de um suposto vitimismo da misoginia. Só que se engana ao saber que muitos brasileiros a apoiaram e a reelegeram. Logo, as críticas são muito mais por suas atuações em conjunto com o PT, do que pelo seu papel de mulher.
    Incrível que toda crítica que se faz ao governo vira perseguição, seja por caráter elitista, golpista e agora esta de misoginia.

    • Mas gente, Torquemada, a mulher não tá só com 7% de aprovação? Deixa eu ser parte desse minoria de 7%, meu, vocês já dominam 93% do território nacional.

      • Acho engraçado esta sua justificativa, pois não estou te perseguindo ou até mesmo o julguei por apoiar a presidenta. Mas você se sente um injustiçado por algo que não é.
        Mas o que é mais hilário é querer ver pessoas como você justificar que não concordar com a Dilma é ser elitista, de direita, reacionário, golpista e por aí vai.
        A tua resposta apenas ilustra esta tua caricatura de um ódio que você está propagando também.

          • Qual interpretação de texto? Foi uma colocação perante a resposta que você me deu.
            Agora se ao invés de discutir quer questionar se sei ou não interpretar textos, você é só mais um ignorante que usa esse mimimi de política de esquerda para se dizer perseguido ou oprimido.
            Se não é homem para debater, se esconda feito um rato.

          • Isso, T-O-R-Q-U-E-M-A-D-A, sou isso – e ainda não entendi sua fixação com esse pobre ignorante mimimi esquerda mimimi mimimi

  3. É esse tipo de delírio que mata qualquer tipo esperança de uma esquerda forte, relevante e funcional. Um engodo que só serve de munição aos conservadores e vergonha aos que realmente acreditam em uma pauta progressista verdadeira. Seu uso de @ é tão inócuo na sua pretensa luta contra desigualdade quanto sua tentativa de imputar as críticas ao governo CONSERVADOR de Dilma e Levy a um suposto machismo é prejudicial a mesma. Mais do que isso, é canalhice mesmo. O fato de você usar @ não ajuda a mudar um milímetro sequer a desigualdade. Da mesma forma que seu texto arrogante e intelectualmente desonesto não torna o atual governo federal mais social nem vai fazer com que você sinta os efeitos das medidas de austeridade escolhidas por Dilmas da mesma forma que um assalariado. Apague esse texto enquanto há tempo.

    • “delírio”, “engodo, “vergonha”, “inócuo”, “pretensa”, “canalhice”, “arrogante”, “intelectualmente desonesto” – cacilda, é você, Reinaldo Azevedo?!?

      • Interessante esse seu pensamento. rs
        Pode ter certeza de que ele deve ter ficado bem feliz, caso tenha lido o texto. Munição certeira para uma direita que nem precisa de muito para se esbaldar.
        Acho que seria mais prático apresentar os argumentos (legais e morais) que desqualifiquem a ideia (fascista) de impeachment e reforçar o pensamento democrático do que fantasiar misoginia nas críticas ao governo federal, que precisa enxergar o quanto antes que vai acabar por perder o apoio de quem sempre a apoiou se continuar adotando medidas políticas e econômicas como as que fez até o momento. E é por conta disso continuo achando que o texto merece todos os adjetivos escritos antes. Beijo do Reinaldo. 😉

    • Esse texto foi pago por alguém da direita, só pode. É contra inteligência da grossa. Se isso é opinião de esquerdista, então eu prefiro acreditar que você deve estar comendo grama. Ainda assim obrigado, vou rir dessa idiotice com menus amigos até cansar.

      • O que é bem esquerdista, bem progressista mesmo, Daniel, é combater adversário argumentativo com termos como “deve estar comendo grama”.

  4. Lí primeiramente no blog do Nassif. Achei muito bom seu texto, Pedro! E achei bom também ( com algum incômodo) a “reprimenda/resposta/paternal” do Nassif. Por acaso, eu estava no twitter no exato momento em que ele te convidou. Fiquei achando que ia ser uma boa discussão, mas não rendeu muito – muito mais por causa dele. Acho que quis se livrar logo da conversa por acha-la sem muita importância. Posso estar errado, mas foi essa a impressão que ficou. Blogueiros, como Nassif e PHA, muitas vezes me incomodam. Não por causa de sua batalha (sempre muito importante conta o PIG), mas pela falta de sensibilidade com alguns assuntos que pra eles parecem não ter importância nenhuma. Ou eles sabem muitas coisas que nós ~ pobres mortais ~ não sabemos, ou eles, as vezes, se comportam como semideuses pragmáticos. Cansa um pouco…

    • Nossa, Jean, eu diria que o Nassif tentou tirar a discussão da frente com a sutileza de um elefante e com a grosseria de um reinaldo azevedo. Depois, no Twitter, tive a chance de dizer pra ele: falar é bom, Nassif, mas escutar é melhor ainda. Jornalista, via de regra, é péssimo escutador, e isso é parte da enrascada em que nos metemos.

  5. A misoginia se evidencia na medida do ódio que os autoritários utilizam no lugar da avaliação racional do governo. A eleição da primeira mulher para a presidência do pais sinalizou para o início de uma batalha nos porões do subconsciente machista da nossa sociedade.

  6. Já escrevi no seu twitter mas preciso dizer de novo: fazia tempo não lia algo tão tão ( é tão tão mesmo); e você acertou na mosca com o nassif. Concordo com o Jeane com você nos dois últimos comentários.

      • Mãe-machista-tataraneta-do-tataravô-machista?… Tal como o ambiente humano que produzimos, assim somos nós!… Herdeiros ancestrais!… Corpo e alma!… Seres de Fé!… com grandes possibilidades… Natureza e cultura nos dão os meios… Aprender sempre mais, inclusive com nossos próprios erros… Por linhas tortas, que seja!…

  7. Nunca tinha lido você. Tenho certeza e sou testemunha do que fala. É só olhar as palavras suaves que os blogueiros esquerdas usam quando criticam Akmin.
    É como se dissessem ” ele é tão inteligente, mas está errando, e eu torcendo para que mude senão não se elege em 2018″. Mais obvio impossível a misoginia. Talvez já se tenham acostumado tanto a ela que já não percebem. Mas é possível fazer um Misoginômetro no computador ou para todos ou para cada um. Alguns ficarão muito expostos.

  8. Respondendo ao Everardo.
    Há pessoas que lêem os amigos, outras os inimigos, outras os pares, e outras lêem interpretando não o texto, mas as idéias. Fazendo um teatro mental com o texto. Tudo baseado no preconcebido por varias formas sutis.Estas pessoas não percebem o quanto elas são respeitosas com alguns políticos e agressivas com outros. E deixam pegadas nada sutis. Quem tem o cérebro mais sintetizador lê tudo e todos da mesma maneira. E se assusta com as agressões a apenas alguns.

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