10-modelos-do-fuleco-vetores-copa-mundo-2014-coreldraw-12531-MLB20062004432_032014-OEm 1950, perdemos a Copa do Mundo no Maracanã para o Uruguai e desde então o complexo de vira-latas se transformou em um fantasma nacional. Pois a história nos proporcionou a chance de sepultarmos de vez esse pensamento de que “aqui nada pode dar certo”. Um segundo Mundial no país começa nesta quinta-feira (12 de junho), com Brasil e Croácia no Itaquerão, e os brasileiros dão sinais de que estão maduros para dizer ao mundo de que as coisas não só darão certo, como vão ser do nosso jeito, goste a Fifa ou não.

Este é um site de música brasileira, então vamos argumentar a partir desse ponto de vista. Jerôme Valcke, secretário-geral da Fifa, e Joseph Blatter, seu principal dirigente, não cansam de criticar o Brasil e, ao mesmo tempo, tentaram impor regras sobre tudo. Uma das últimas reveladas foi sobre o direito de uso de palavras durante o evento. Registraram como de uso da entidade a palavra pagode, afirmou O Globo. Mas a Fifa correu para explicar que se tratava sobre a fonte tipográfica batizada com esse nome. Piada de mau gosto, mas alguém acredita que essa medida teria algum efeito prático?

A Fifa tentou impor um disco para o público. A música-tema da Copa é “We Are One”, interpretada pelo rapper Pitbull e pelas cantoras Jennifer Lopez e Claudia Leitte. Representa tudo, menos a riqueza cultural brasileira. A imagem abaixo do clipe já é, em si, reveladora. Clique por conta e risco.

O país que deu ao mundo a bossa nova, a MPB, o samba, o frevo e a tropicália, só para citar gêneros conhecidos dos gringos, viu sua produção musical se resumir no clipe de “We Are One” a uma participação coadjuvante da cantora de axé. O resto do CD tem ainda outras músicas, inclusive as canções “Todos al mesmo ritmo”, interpretada pelo ex-menudo Ricky Martin, e “Dar um Jeito (We Will Find A Way)”, que será interpretada na final do Mundial por Alexandre Pires e pelos guitarrista mexicano Santana, rapper haitiano Wyclef Jean e DJ sueco Avicii.

É bem verdade que a classe artística brasileira contribuiu pouco para enriquecer este Mundial. Fagner se recusou a participar das Fan Fests, espaços criados pela Fifa para assistir aos jogos e a apresentações musicais. Disse ao UOL Esportes que achou “meio ridículo” o posicionamento da organizadora do evento e da Rede Globo, que ofereceram condições ruins para os artistas se apresentarem. Poderia ser um sinal de rara independência, não fosse o fato de que o cearense já foi à Copa do Mundo como convidado de Ricardo Teixeira, ex-homem forte da CBF, conforme lembrou o blog de Juca Kfouri. Ney Matogrosso falou “horrores” sobre os gastos da Copa do Mundo e criticou os governos do PT, em uma entrevista a uma emissora de tevê portuguesa. Foi elogiado por muitos e xingado por outros tantos. Fagner ou Ney Matogrosso falaram o que acharam certo, e que bom que eles possam hoje em dia dizer o que pensam.

Já outros artistas preferiram apoiar a realização do evento no Brasil. Só que nomes como Emicida, Thiaguinho, Fernanda Takai, Paulo Miklos, Samuel Rosa, Gaby Amarantos, Monobloco, Sandy e Luan Santana emprestarem seu talento para empresas privadas lucrarem com o negócio Copa. Outros, como Naldo, Zeca Pagodinho e Carlinhos Brown, criaram composições inéditas com a esperança de se transformarem em hits, coisa que o “We Are One” da Fifa jamais será. Jair Rodrigues nos brindou com “Embaixo da Bandeira”, composição de seu filho, Jair Oliveira, que gravou antes de sua morte:

Tanto os artistas que criticam a Copa do Mundo quanto aqueles que só enxergam cifras e cachês com o evento no país revelam que o Brasil não é mais uma República de bananas. Aqui, em véspera de pontapé inicial, se protesta contra a realização do Mundial e se conquistam direitos (como os sem-teto que darão trégua após Dilma Rousseff sinalizar que atenderá a reivindicações por moradia popular). Nelson Rodrigues dizia: “por ‘complexo de vira-lata’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Em meio a esse estado de ebulição social, e também cultural, podemos representar muitas coisas, mas inferiores não.

Futebol e música são duas paixões dos brasileiros, verdadeiras instituições nacionais. “O rádio criou o mito da música popular e do futebol, e foi por eles alimentado e impulsionado”, afirmou Paulo Luna, autor de “No Compasso da Bola”. “Ganhar a vida cantando, jogando futebol ou tocando um instrumento, todas essas atividades deixavam de ser marginalizadas e se tornavam opções mais do que desejáveis.” Em 2014, ainda não se sabe qual será a música da Copa. Certamente não será a que a Fifa quis nos impor e há chances reais de que uma produção marginalizada ocupe esse espaço. Será “Lepo Lepo”, estrondoso sucesso da banda Psirico no carnaval baiano? Ou “País do Futebol”, de MC Guimê, um funk tão amado e odiado pelos brasileiros e que virou tema de novela da Globo?

As próximas semanas dirão. Em 1950, artistas de peso viram suas composições feitas especialmente para o Mundial no Brasil conquistarem a boca dos torcedores nos estádios. Lamartine Babo (1904-1963), autor dos hinos de Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo, compôs “A Marcha do Scratch Brasileiro”: “Eu sou brasileiro, tu és brasileiro / Muita gente boa brasileira é / Vamos torcer com fé / Em nosso coração / Vamos torcer para o Brasil ser campeão” (…) / Salve, salve / O nosso Estádio Municipal / No campeonato mundial / Salve a nossa bandeira / Verde, ouro e anil / Brasil, Brasil, Brasil”. Já Ary Barroso (1903-1964), autor de “Aquarela do Brasil”, lançou e Linda Batista (1919-1988) gravou “O Brasil Há de Ganhar”: “O Brasil há de ganhar / Para se glorificar / Bota a pelota no gramado / Palmas pro selecionado / Deixa a moçada se espalhar”.

Mas na Copa de 1950 ninguém esquece mesmo de “Touradas em Madri”, uma composição de 1938, de Braguinha. Naquele torneio, a seleção avançava aos poucos, mas foi diante dos espanhóis, ao derrotá-los por 6 a 1 na semifinal, que a torcida começou a cantar em tom de zombaria o seu “hino”: “Eu fui às touradas em Madri/ Para tim bum, bum, bum/ Para tim bum, bum, bum/ E quase não volto mais aqui/ Para ver Peri beijar Ceci/ Para tim bum, bum, bum/ Para tim bum, bum, bum”.

O Brasil perdeu, os brasileiros mergulharam numa tremenda tristeza coletiva e o complexo de vira-latas surgiu dali – para alguns anos depois ser imortalizada por Nelson Rodrigues. Em 2014, com ou sem hit musical, com ou sem caneco, tudo indica que superaremos esse trauma.

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