A 15 minutos do início da Copa do Mundo no Brasil, o país que tanto já se autoescamoteou por trás da fórmula “não somos racistas” acordou de repente discutindo racismo. As bananas viraram símbolo controverso de um clamor vocalizado até mesmo pela presidenta da república tropical que um dia já foi rotulado de “república de bananas”. E isso tudo dá samba, muito samba – é o samba-rock, meu irmão!

1977 A Vida É Só pra CantarCanção 1. Wilson Simonal já havia caído em desgraça pela direita e pela esquerda quando registrou em disco, em 1977, o clássico “The Banana Boat Song”, celebrizado em 1956 pelo caribenho-estadunidense pop-calipso-soulman Harry Belafonte. No manifesto de Simonal, “The Banana Boat Song” veio acoplada ao afro-samba de candomblé “Nanã”, do maestro negro Moacir Santos, e à pilantragem de orgulho negro norte-americano-brasileiro “Tributo a Martin Luther King“, dele mesmo e do pilantrobossanovista Ronaldo Bôscoli. “Sim, sou negro de cor”, “o que te peço é luta sim, luta mais”, “com uma canção é que se luta, irmão”: assim termina o pot-pourri que começou em bananas.

Canção 2. A marchinha carnavalesca “Yes, Nós Temos Bananas”, de Braguinha, foi gravada originalmente em 1937, por Almirante. Em 1968, minutos antes de ser ejetado do Brasil por artimanhas do golpe civil-militar, Caetano Veloso transformou a marchinha em tropicália, desta vez aludindo ao bananeira de auditório Chacrinha e à maldição de subdesenvolvimento que sempre rondou uma propalada “república (ditadura) de bananas”: “Somos da crise/ se ela vier/ banana para quem quiser”.

1969 Os IncríveisCanção 3. Jorge Ben (hoje Ben Jor) não é muito conhecido por isto, mas sempre foi um exímio compositor de cantos de trabalho. Em 1969, o grupo Os Incríveis, egresso da jovem guarda e prestes a se enroscar no adesismo à ditadura civil-militar via “Eu Te Amo, Meu Brasil” (1970) gravou, de Ben, o canto de trabalho “Vendedor de Bananas”, um libelo antirracista por contraste positivo-negativo, daqueles que só não enxerga quem tiver cerume nos ouvidos: “O mundo é bom comigo até demais/ pois vendendo bananas eu também tenho meu cartaz/ pois ninguém diz pra mim que eu sou um pária no mundo/ ninguém diz pra mim ‘vai trabalhar, vagabundo!'”. Ninguém?

Canção 4. De volta do exílio, Gilberto Gil chamou Caetano Veloso para reerguer a tropicália sobre os escombros brasileiros, gravando o samba baiano “Cada Macaco no Seu Galho”, do sambista negro baiano conterrâneo Riachão. Racismo e antirracismo pelejavam, entre a escravidão e a pós-escravidão, entre os bairrismos e os contrabairrismos: “Esse negócio da mãe preta ser leiteira já encheu sua mamadeira, vá mamar em outro lugar/ chô chuá, cada macaco no seu galho/ chô chuá, eu não me canso de falar/ chô chuá, o meu galho é na bahia/ chô chuá, o seu é em outro lugar”. 

1959 Jackson do PandeiroCanção 5. Tropicalizada em 1972 pelo mesmo Gil, “Chiclete com Banana” vinha de 1959, desde a versão forró-jazz do paraibano Jackson do Pandeiro, de letra perfeita para os anos desenvolvimentistas de Juscelino Kubitschek e, quem sabe?, para os instantes anteriores do #VaiTerCopa 2014: “Eu só boto bebop no meu samba/ quando o tio Sam tocar um tamborim/ quando ele pegar num pandeiro e um zabumba/ quando ele aprender que o samba não é rumba/ aí eu vou misturar Miami com Copacabana/ chiclete eu mistura com banana/ e o meu samba vai ficar assim”. Assim, note-se, referia-se à mistura samba-jazz-forró que o narrador desafiava tio Sam a enfrentar, já enfrentando ele próprio.

Canção 6. O coautor baiano de “Chiclete com Banana”, Gordurinha, também registrou o confronto bélico-pacifista EUA-Brasil, no mesmo 1959. “É, mas em compensação eu quero ver o boogie woogie com pandeiro e violão/ quero ver o tio Sam de frigideira numa batucada brasileira”. Gordurinha, a propósito, muito beliscou os temas duros dos preconceitos e das discriminações inter-regionais brasileiras, em canções como “Baiano Burro Nasce Morto”, “Baianada” (1960), “Súplica Cearense”, “Quando os Baianos Se Encontram” (1961), “Baiano Não É Palhaço” (1962)…

1970 É Ferro ba Boneca!Canção 7. Dois anos antes de cantar que “o tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada” (de Assis Valente), os Novos Baianos fizeram poesia tropicalconcretista com “A Casca de Banana Que Eu Pisei” (1970): “E eu acho mais bonito/ mais bacana, cana, cana/ a casca de banana que eu pisei”.

Canção 8. O samba joia de protesto de Paulinho Soares vai no cerne do problema e esculhamba os desígnios do patrão (do tio Sam?): “No fim das contas o patrão manda e desmanda/ inda faz do rei Pelé mais um garoto-propaganda”.

Canção 9. “Chiquita Bacana”, de Braguinha e Alberto Ribeiro, é da Martinica, “se veste com uma casca de banana nanica”, não usa vestido nem calção e é “existencialista com toda razão”. Chiquita Bacana é Emilinha Borba, desde 1948.

Canção 10. Em 1968, o maestro Rogério Duprat chamou os conterrâneos paulistropicalistas Mutantes para fundir a “Chiquita Bacana”, adivinhe, à “Canção pra Inglês Ver” de Lamartine Babo: “I love you to have steven via Catumby/ independence lá do Paraguay”.

Canção 11. Se Emilinha é Chiquita, Caetano Veloso é “A Filha da Chiquita Bacana” (1977): “Puxei à mamãe/ não caio em armadilha/ e distribuo banana com os animais”. Emancipada, Chiquita Caetana entrou “pra women’s liberation front” e, no #VaiTerCopa, bem poderia se chamar Dilma Inácia Rousseff.

Canção 12. Prima afastada de Chiquita, “Juanita Banana” latiniza a bananidade, aqui em versão iê-iê-iê dos Fevers.

Canção 13. “Vem comer essa banana, que é uma refeição de fato, meu bem”, convidou o judeu carioca pré e pós-tropicalista Jorge Mautner em “Planeta dos Macacos” (1972). “Fantasiados de animais/ somos todos iguais nestes carnavais.” #SomosTodosMacacos

Canção 14. “Macacada reunida/ galera pelejando e dançando, procurando uma saída”, sugeriam os mineiros do Jota Quest em “De Volta ao Planeta”, porque “tá faltando emprego nos macacos”. Em 1998.

Canção 15. “Eu sou macaco-prego/ custei pra dar um jeito no cabelo”, cantam os mineiros do Skank em “Macaco-Prego” (1992), que tenta ser simpática, mas é inevitavelmente construída sob uma perspectiva branca.

1970 Brazilian SoulCanção 16. A brutalidade carnavalesca de Lamartine Babo na marchinha “O Teu Cabelo Não Nega”, de 1929, se funde às “Pastorinhas” (de Noel Rosa e Braguinha) e vira… black power!, no “brazilian soul” de Gerson (KingCombo e A Turma do Soul, em 1970. Não há o que possa esconder a brutalidade em pique de ódio & amor (ou erotismo): “Como a cor não pega, mulata,/ mulata, eu quero teu amor”.

1969 Luiz WanderleyCanção 17. “O cheirinho que ela tem”??? Luiz Wanderley belisca o perigo, aquele que emerge de dentro para fora, de um alagoano que driblou preconceitos cantando hinos enfezados como “Baiano Burro Nasce Morto” (1959), “Deixa o Baiano Vivê”, “Gaúcho Macho” (1960), “Trabalha Paulista” e “Papa Goiaba” (1961).

Canção 18. Sinal de que os tempos fluem, “Florentina” (1996), de Tiririca, foi mais explícita que “O Teu Cabelo Não Nega” de quase 70 anos antes – e bem mais explicitamente combatida no horror que carregava.

Canção 19. No mundo branco, sorvete de banana é o caminho pop-hollywoodiano de “Banana Split”, dos símios João Penca e Seus Miquinhos Amestrados.

Canção 20. “Cuidado com a banana, se você vacilar vai parar na minha cama” – banana tem vitamina, engorda, faz crescer e também é sexy a valer, como bem sabe o funkeiro MC Jack em “A Minha Banana” (1988). “Arranje uma banana que não seja nanica”, “banana não tem ombro, escorrega por inteiro”, e pano rápido.

Canção 21. Bananeira, não sei. Bananeira, será? Bananeira, sei não. Isso é lá com você. Em parceria com Gilberto Gil, o acreano endiabrado João Donato faz da “Bananeira” (1975) um edifício musical brasileiro.

1976 2 Visions of DawnCanção 22. Joyce, múltipla e feminina, gosta de “Banana” (1976), mas não só de banana: “Manga, caju, maracujá, sapoti, fruta de conde, jenipapo, graviola, açaí, jaca, pitanga, amora e abacaxi…” Costuma ser assim quando o microfone está nas mãos das ditas minorias.

1975 Emilio SantiagoCanção 23. O negão suingado Emílio Santiago funk-jazzeou a “Bananeira” de Donato e Gil, no mesmo ano de 1975, anos antes de se ver irremediavelmente confinado ao samba. Não foi uma sina individual – a vida sempre foi dura para os artistas brasileiros negros que, como um Johnny Alf, uma Alaíde Costa, uma Leny Andrade, uma Alcione, uma Zezé Motta e tantos outros, preferissem outros estilos ao cercado fechado do samba. País do futebol, país do carnaval, país do samba, país de bananas – quem foi que nos pregou tantas pechas de Zé Carioca? Quem fomos que deixamos?

Canção 24. “Gostando, deixa ficar”, sintetiza Marinês em “Bananeira Mangará” (1973), todo um compêndio (malicioso) de bananidades.

lp-045-varios-nac-ruy-maurity-bananeira-mangara-8594-MLB20005489788_112013-FCanção 25. Cantando com voz de homem, em 1978, o mesmo forró “Bananeira Mangará” de Marinês e Sua GenteRuy Maurity insere (mais) liberdade sexual nas bananidades.

6660237Canção 26. MC Serginho não canta as bananas nem os macacos em “Vai Lacraia” (2003), mas todos os afluentes parecem correr para um mesmo rio quando a incrível Lacraia, versão brasileira das travestis de Andy Warhol, vive 15 minutos de fama antes de morrer menina demais.

Canção 27. “Todo brasileño le gusta banana”, diz o pagode caribenho “Sweet Banana (Banana Dulce)” (2003), do Molejo, em pique de verdade universal brasileira.

2006 TimelessCanção 28. Sempre transnacional, mr. Sergio Mendes coloca a “Bananeira (Banana Tree)” (2006) de Gil e Donato na rota do Caribe, na companhia do jamaicano dancehall Mr. Vegas.

2004 Babylon by Gus - Volume I - O Ano do MacacoCanção 29. Não se tornou célebre como merecia o álbum Babylon by Gus – O Ano do Macaco (2004), de Black Alien, ex-integrante do combo Planet Hemp. “Mr. Niterói” dá bem a dimensão polirrítmica, linguística e territorial de um brasileiro (negro) que não se sente confortável em viver “preso nesse mundo que nem bicho num zoológico”. #NãoSomosMacacos

Canção 30. Matogrossense fora-do-eixo, o power trio Macaco Bong dispensa letras ou poemas para oferecer “Bananas for You All” (2008).

Canção 31. Pernambucano fora-e-dentro-do-eixo, Luiz Gonzaga dispensava letras e poemas no início de sua carreira, simplesmente porque os diretores europeizados das gravadoras multinacionais não deixavam aquele mestiço aciganado cangaceirado soltar o vozeirão. “Dança do Macaco” (1945) é desse tempo, e policial era chamado de “macaco” naqueles tempos pós-Virgulino Ferreira, o Lampião.

Canção 32. Trava-língua e a pororoca das identidades indígenas, africanas e europeias fazem a delícia do “Carimbó do Macaco” (1983) do paraense Pinduca.

1976 6 Before I Jump Like Monkey Give Me BananaCanção 33. Dor, sangue e rgulho negros elevados ao sublime pelo nigeriano Fela Kuti, em “Monkey Banana”, de 1976.

Canção 34. Em 1989, o mentor dos supergrupos Funkadelic Parliament, George Clinton veste de funk – norte-americano, carioca, paulista, brasileiro – os humores caribenhos da velha “The Banana Boat Song”.

enlargementCanção 35. Para não dizer que não falamos das bananas, a versão afrocaribenha fundadora de “Banana Boat Song (Day-O)”, de 1956, com Harry Belafonte.

Canção 36. Para não dizer que não falamos dos macacos, a versão de autor de Riachão para “Cada Macaco no Seu Galho”, em 1973.

1972 Expresso 2222Canção 37. “É o samba-rock, meu irmão”, reinventou Gilberto Gil, pós-tropicalizando a bananidade.

Canção 38. Acompanhada de “Cosa Nostra” e “Bicho do Mato”,  eis a versão autoral de Jorge Ben para o canto de trabalho do menino (negro) que vendia bananas, mas era honrado, mãe.

Canção 39. Sob frases de Leila Diniz. “Brigam Espanha e Holanda pelos direitos do mar. O mar é das gaivotas que nele sabem voar. Brigam Espanha e Holanda porque não sabem que o mar é de quem o sabe amar.” A canção de Milton Nascimento é seriíssima, e curiosamente batizada “Um Cafuné na Cabeça, Malandro, Eu Quero Até de Macaco” (1980).

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