A experiência é perturbadora quando a gente vai ao cinema e carrega para dentro do filme o nosso próprio mundo. Aconteceu comigo ao assistir a Serra Pelada, bangue-bangue do (ex-)Terceiro Mundo dirigido pelo pernambucano Heitor Dhalia.

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Serra Pelada poderia ter me fisgado porque passei a infância vendo aquelas imagens quase sobre-humanas de garimpo, ora na tela da TV Globo, ora no universo infantil de sonhos e fantasias (e pesadelos) de Os Trapalhões na Serra Pelada (1982). Mas não foi nada disso.

Não sei se a intenção passou pela cabeça do cineasta, mas de repente percebi que eu estava assistindo a um filme sobre a mídia, o micro-universo no qual trabalho, na condição de jornalista. A primeira faísca aconteceu na cena em que os caras narram a estrutura de (guerra de) classes no garimpo: em Serra Pelada, há (havia) os capitalistas (os donos das terras), a classe média (os capangas dos primeiros) e as formigas (os garimpeiros que metiam as quatro patas na lama para encontrar o ouro e entregá-lo à classe média, que entregava aos donos de tudo).

Os capitalistas: os donos de jornais, revistas, emissoras de TV e rádio. A classe média: editores, editores-chefes, secretários de redação, colunistas etc. As formiguinhas: repórteres, redatores, jornalistas sem “cargo de confiança”, o operariado do jornalismo. A violência come solta entre as formigas, embora ela esteja presente, difusa, mascarada, em todas instâncias da cadeia alimentar canibal.

A “economia” garimpeira ilustrada pelo trabalho de Heitor Dhalia é bem mais realista que aquela dos Trapalhões ou do Jornal Nacional. Além das classes sociais, há três grandes grupos representados no filme: os homens heterossexuais (capitalistas, capitães-do-mato, garimpeiros, matadores de aluguel), as mulheres heterossexuais (invariavelmente prostituídas e localizadas a alguns quilômetros do garimpo em si) e os homens homossexuais (esparramados entre garimpeiros e prostitutos, entre homens-formigas e matadores de aluguel ou de vingança). Qualquer um desses grupos era composto por gente provavelmente mais corajosa e macha (e violenta) que eu ou você juntos.

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Ainda aí a ecologia sexual (e de sexualidades) faz Serra Pelada parecer uma redação de jornal ou uma novela de TV: homens “machos” cobrindo política, economia e esporte, os periféricos cuidando de entretenimento, cultura e outros “frufrus”. De vez em quando uma mulher ascende ao poder e/ou uma bicha bate o pau na mesa – mas se as regras são eventualmente quebradas é para pertencer à cota das exceções que abrilhantam as regras.

A protagonista feminina de Sophie Charlotte, os personagens homossexuais abrutalhados e os figurantes de pele não-branca que compõem a massa humana garimpeira trabalham que só eles, o filme inteiro, mas não chegam a sair da periferia humana a que sempre pertenceram. O jogo, para a maioria absoluta dos jogadores, é de perde-perde.

Mesmo sendo um filme da Globo (o “sistema”, em termos audiovisuais e informativos) e do governo (que patrocina o filme ostensivamente via Caixa Econômica Federal e Correios), Serra Pelada é uma reconstrução histórica para lá de verossímil, que recoloca eixos numa história brutal vivida pelo Brasil recente e quase sempre escamoteada de nós, para nós e por nós. Mais que isso, Serra Pelada se parece demais com a vida real. É daqueles filmes que doem.

Juliano Cazarré e Júlio Andrade, os amigos-protagonistas que vão buscar fortuna no Pará, desempenham na tragédia garimpeira a dupla bipolar de hábito. O primeiro se molda ao ambiente e se brutaliza (e logo vira capataz, depois capitalista). O segundo, professor de origem, simula inocência e princípios na sociedade com o primeiro, mas ao final acaba se dando bem à custa do parceiro que meteu o pé na lama ética.

O Juliano de Cazarré às vezes parece um colunista reacionário de grande jornal, enquanto o Joaquim de Andrade camela na formiguice das redações. Todos abusam da confiança do próximo, mas é difícil detectar ao certo quem abusou de quem e quem foi abusado(a) por quem.

Quando o mequetrefe interpretado por Wagner Moura (também sócio-produtor do filme) adentra triunfalmente na trama, vejo na minha frente outro tipo muito comum nos meios jornalísticos (e provavelmente também em outras profissões, quem sabe na sua). Provocado por um garimpeiro enebriado pelos pequenos poderes, o personagem de Moura o mata à queima-roupa, com muitos tiros e requintes sádicos. E se põe a lamentar, repetidas vezes, dirigindo-se ao morto: “Por que você fez isso?”, “que desnecessário, você não precisava ter acabado assim”. Que deselegância do defunto, que ousou ser destripado em público.

É muita metáfora, eu não vou dar conta de todas. Comento, por fim, que foi difícil encontrar a sala certa para assistir a Serra Pelada. O faroeste amazônico saiu de cartaz de várias delas, em pouquíssimo tempo. Leio na Folha (o jornal onde trabalhei por dez anos, sem “cargo de confiança”) que a bilheteria da “superprodução” “desapontou”. Numa espiada rápida, por cima, topo com críticas “especializadas” resmungando dos “defeitos” do filme. Não é sempre que narciso suporta estar diante do espelho.

De minha parte, olhe, Serra Pelada pode até ter “defeitos”. Mas que filmão. E que experiência perturbadora – positivamente perturbadora, quero dizer – conseguir enxergar a mim mesmo (e a você) numa aventura “fantasiosa” tão violenta, tão radical, tão “distante-do-nosso-dia-a-dia” quanto a daqueles brasileiros (brasileiros, veja bem) doidões que resolveram penetrar a floresta amazônica (preste atenção, a floresta, a amazônica), no norte do nosso país (do NOSSO país), em busca de sabe-se lá o quê.

É, teria sido bem mais fácil, cômodo e confortável deixar Serra Pelada de lado e ir conferir as últimas piruetas do mais novo (novo?) super-herói sobre-humano de Hollywood.

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(Texto publicado originalmente no blog Ultrapop, do Yahoo! Brasil.)

 

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