Marina Silva lançou mão de um chavão para se referir metaforicamente à não-obtenção do registro de sua Rede Sustentabilidade pelo Tribunal Superior Eleitoral: “Mesmo que matem milhares de flores não poderão impedir a chegada da primavera”.

FAROFAFÁ homenageia a ativista política por intermédio da música, do “que fim levaram todas as flores” dos Secos & Molhados ao “as flores de plástico não morrem” dos Titãs. Que fim levarão todas as flores?

1. Secos & Molhados, “Que Fim Levaram Todas as Flores” (1978) – sem Ney Matogrosso, o grupo lamenta o fim dos tempos idos da “Rosa de Hiroshima”.

2. Secos & Molhados, “Rosa de Hiroshima” (1973) – com Ney Matogrosso, o grupo une flor & guerra num poema desolador de Vinicius de Moraes: “Pensem nas crianças mudas, telepáticas/ pensem nas meninas cegas, inexatas/ pensem nas mulheres, rotas alteradas”.

3. Claudette Soares, “O Cravo Brigou com a Rosa” (1969) – Claudette beija o samba-rock singelo de Jorge Ben (com participação especial do sabiá-laranjeira em pessoa): “Vi uma rosa caída no chão/ toda despedaçada/ foi o cravo singelo/ que brigou com a rosa adorada/ o cravo brigou com a rosa/ e quem chorou fui eu”.

4. Marinês e Sua Gente, “Pisa na Fulô” (1957) – sexo & malícia & fulores pisadas num pagode no sertão.

5. Sivuca, “Adeus, Maria Fulô” (1973) – marmeleiro amarelou, olho d’água esturricou – e Maria Fulô ficou a ver navios.

6. Mutantes, “Adeus, Maria Fulô” (1968) – versão anarcotropicalista com passarinhos para o tema de seca de Sivuca: “Adeus, vou-me embora, meu bem/ chorar não ajuda ninguém/ enxugue o seu pranto de dor/ que a seca mal começou”.

7. Novos Baianos, “Se Eu Quiser Eu Compro Flores” (1970) – …e consciências, e assinaturas, e votos nos cartórios eleitorais?…

8. Belchior, “Não Leve Flores” (1976) – “Não cante vitória muito cedo, não/ nem leve flores/ para a cova do inimigo/ que as lágrimas dos jovens são fortes como um segredo/ podem fazer renascer um mal antigo”.

9. Fagner, “Canteiros” (1973) – delas, as flores, todo um canteiro.

10. Rita Lee & Tutti Frutti, “Jardins da Babilônia” (1978) – suspenderam. Os jardins. Da Babilônia.

11. Grupo Manifesto, “Margarida” (1967) – de e com Gutemberg Guarabyra, a flor que venceu o festival um ano antes que Geraldo Vandré perdesse “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” do “Sabiá”.

12. Harmony Cats, “Margarida (Felicidade)” (1980)  – uma margarida mais pop e discotheque: “Uma margarida disse que ele virá”, mais “ama, não ama, me ama/ quem sabe se ele ama, não ama, me ama/ ou se me engana?”.

13. Djavan, “Flor de Lis” (1976) – “será talvez que minha ilusão/ foi dar meu coração/ com toda força pra essa moça me fazer feliz?/ (…) e o meu jardim da vida/ ressecou, morreu/ do pé que brotou, Mari(n)a,/ nem margarida nasceu”. E Djavan se pergunta, atônito, diante dos cartórios: “Eu sei que o erro aconteceu, mas não sei o que fez/ tudo mudar de vez/ onde foi que eu errei?”.

14. Rita Lee, “Bem Me Quer” (1980) – “diga que me odeia, mas diga que não vive sem mim/ eu sou uma praga/ maria-sem-vergonha do seu jardim”.

15. João Gilberto, “Trevo de Quatro Folhas” (1960) – não é flor, mas dizem que dá sorte…

16. Elba Ramalho, “Veja (Margarida)” (1980 – “essas feridas da vida, margarida/ essas feridas da vida, amarga vida” – “e eu não quero ver você/ com esse gosto de sabão na boca”.

17. Marília Medalha, “Bonina” (1969) – uma flor roxa de Caetano Veloso Capinan: “a bonina que é flor roxa/ tô preso no pelourinho/ se me soltar, eu vou-me embora/ menina, minha menina/ não solte o seu canarinho/ se soltar quero pegar/ nas asas do passarinho”.

18. 4. Roberto Silva, “Rosa” (1960) – o príncipe do samba numa versão solene do clássico de Pixinguinha. “Tu és divina e graciosa, estátua majestosa – mas não é duas”, diria algum adversário.

19. MPB 4, “Rosa Branca Foi ao Chão” (1981) – “Rosa Branca foi ao chão/ chorou, chorou/ acudiu a sua mãe, quem consolou foi o Pedro, seu irmão, que ofereceu/ biscoitinho/ com a maior fidalguia”.

20. Chico Buarque, “Rosa dos Ventos” (1970) – flor & apocalipse, “numa enchente amazônica”: “Pois transbordando de flores a calma dos lagos zangou-se/ a rosa-dos-ventos danou-se/ o leito do rio fartou-se e inundou de água doce/ a amargura do mar”.

21. Gilberto Gil Mutantes, “Pé da Roseira” (1968) – “O pé da roseira murchou/ e as flores caíram no chão/ quando ela chorava eu dizia/ tá certo, Mari(n)a, você tem razão”.

22. Maysa, “A Mesma Rosa Amarela” (1962) – de Lula, para Marina (e que Dilma não os ouça), uma flor pernambucana de Capiba: “Você tem quase tudo dela/ o mesmo perfume/ a mesma cor/ a mesma rosa amarela/ só não tem o meu amor”.

23. Jorge Ben, “As Rosas Eram Todas Amarelas” (1972) – Jorge lê Fiódor Dostoiévski e conclui: “Todos sabiam/ mas ninguém falava/ (…) que as rosas eram TODAS amarelas”. 

24. Jorge Ben, “Velhos, Flores, Criancinhas e Cachorros” (1974) – “eu preciso salvar os velhos/ eu preciso salvar as flores/ eu preciso salvar as criancinhas/ e os cachorros” – composição do namorado da viúva, ou da viúva em pessoa?

25. Cassiano, “Salve Essa Flor” (1976) – soul music na veia: “De um jardim sem cor/ nasce uma flor que vive só”.

26. Sérgio Ricardo, “Enquanto a Tristeza Não Vem” (1964) – a flor da salvação, sob doses de (auto)comiseração: “Tristeza mora na favela/ às vezes ela sai por aí/ (…) camta, canta/ nasceu uma rosa na favela”.

27. Araci Cortes Conjunto Rosa de Ouro, “Flor do Lodo” (1967) – “flor do lodo/ mulher de baixos costumes/ ninguém ouve os meus queixumes/ ninguém vê meu padecer”, mas será que as flores não são um pedacinho do próprio lodo?

28. Raul Seixas, “Réquiem para uma Flor” (1979) – lirismo & prosódia raulseixistas: “Fruto do mundo, somos os homems/ pequenos girassóis, os que mostram a cara/ e enorme as montanhas que não dizem nada”.

29.Erasmo Carlos, “Paralelas” (1976) – como já dizia Belchior, até o asfalto é feito de flores (e/ou vice-versa): “E as borboletas do que fui pousam demais/ por entre as flores do asfalto em que tu vais”.

30. RPM, “Flores Astrais” (1986) – dos Secos & Molhados com Ney Matogrosso, em 1974. O verme passeia na lua cheia.

31. Os Caçulas, “Não Pisem nas Flores” (1968) – “por favor, não pisem nas flores/ por favor não as pisem mais”!!!

32. Os Originais do Samba, “Saudade e Flores” (1974) – o grupo de samba joia de Mussum, no auge do lirismo.

33. Cartola, “As Rosas Não Falam” (1976) – não falam?, ou falam?

34. Elizeth Cardoso, “A Flor e o Espinho” (1965) – existem as flores, mas também os espinhos – que não machucam a flor (ou machucam?).

35. Roberto Carlos, “As Flores do Jardim da Nossa Casa” (1969) – morreram todas?…, ou nem todas…?

36. Leno, “Flores Mortas” (1974) – as flores também morrem…

37. Titãs, “Flores” (1989) – …mas não as de plástico.

38. Ira!, “Flores em Você” (1986) – elas estão onde nós as vemos.

39. Clara Nunes, “Você Não É Como as Flores” (1968) – Clara canta Ataulfo Alves: “Foi você que foi embora/ foi você que não me quis/ como é que vem agora me dizer que é infeliz?”.

40. Itamar Assumpção Orquídeas do Brasil, “Orquídeas” (1993) – Itamar se debate com o universo feminino que que seu Chico tanto falava: “Musas e músicas/ curtimos a lida/ cuidamos feridas/ amamos a vida/ viramos urtigas/ se o amor vira briga/ nós somos orquídeas”.

41. Emicida Wilson das Neves, “Trepadeira” (2013) – em dupla com o baterista de seu Chico e inebriado da poética paulista de Itamar, Emicida resolve a bulir com elas – e descobre, como já sabia Vandré, que falar das flores pode ser muito perigoso.

42. Marina de la Riva, “Adeus, Maria Fulô/ La Mulata Chancletera” (2007) – conexão Brasil-Cuba, para o adeus – e o alô – a Mari(n)a Fulô.

43. Gal Costa Caetano Veloso, “Flor do Cerrado” (1974) – “mas da próxima vez que eu for a Brasília/ eu trago uma flor do cerrado pra você”…

44. Itamar Assumpção, “Abobrinhas, Não” (1998) – legumes não são flores – mas, ah, você está entendendo.

 

 

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