Cerveja em pílulas, chope de gelatina. Cápsulas de feijoada. Comida sintética partout. Poucos lugares para tomar álcool de verdade, todos proscritos. Vencemos o câncer epidêmico, mas o preço é alto. Trocamos as comidas pelas drágeas, banimos o álcool. Todas as verduras são cozidas.

Mas eu conheço um refúgio, até bolinho de carne servem. Até azeitona chilena, terror da Organização Mundial da Saúde.

Rosicléa Sarney venceu a eleição, um dado triste da política confirmando o retorno do coronelismo eletrônico.

Não consegui terminar minha retroficção a tempo, a editora sustou os adiantamentos.

Comprei um pen-drive com um lote de citações velhas. Não ajudou.

Também, olha o tipo de porcaria que eu comprei: “Everywhere a sense of childlike wonder (em todos os lugares, um senso de maravilhamento infantil)”.

Tinham até reservado um espaço para o arquivo do meu livro na nuvem digital, isso hoje em dia custa caro, o mundo está loteado como uma grande imobiliária digital. Querem me cobrar isso também. Não tenho.

Bloqueio criativo é foda. Não tenho como justificar, mas vivo tentando achar um jeito. Por exemplo: por causa da urgência das redes sociais, fomos proibidos de usar palavras mais raras. Só o vulgo salva. Por exemplo: eu uso muito “fantástico”, mas como seria bom se me fosse permitido usar “sublime” de vez em quando. Para usar uma dessas em livro, tem de pagar créditos de carbono.

Pensei em reiniciar. Não dá, tem crédito de carbono para isso também.

Quase toda a cidade está tomada por homens vaidosos de óculos de aros vermelhos e pele de pêssego, sem afeto pelo esforço, pela terra, pelos processos da natureza. Sem afeto pela literatura.

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