Cadeias de DNA, comentários fechados e ameaças de trocar música por silêncio compõem cardápio da campanha Vozes em Defesa do Direito Autoral, do Ecad, estrelada por Paulo Massadas.

 

Uma voz tristonha tenta dar caráter cientificista à luta em defesa dos direitos autorais, como os conhecíamos no século passado. Trata-se da campanha Vozes em Defesa do Direito Autoral – E Que Vozes!, promovida pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad, e disponibilizada no canal oficial da instituição no YouTube. A iniciativa já tem um ano de idade, mas confesso que só tomei conhecimento agora, ao receber por e-mail um informe de pauta da assessoria de impensa do Ecad.

Ligue-se a campanha via YouTube. Surge uma longa explanação (o vídeo-mãe da campanha tem 7 minutos e 19 segundos de duração) envolvendo cadeias de DNA, imagens de seres humanos de origem oriental e africana (“uma pessoa é diferente da outra, mesmo gêmeos univitelinos possuem uma identidade genética única que os diferencia”), definição sobre o que é ISRC (International Standard Recording Code, a carteira de identidade das músicas gravadas).

Em meio à panaceia, o Ecad tenta se carimbar como “do bem”, afirmando que é uma “entidade privada sem fins lucrativos”. Em seguida, alardeia a criação de uma ferramenta de nome digitalmente up-to-date, “ecad.tec CIA rádio” (a letra do meio de “tec” é transformada numa arroba com um “e” no lugar do tradicional “a”, e não encontro aqui no meu computador a tecla para digitar t@c, tec, t*c, t#c).

“E por falar em Brasil, o país será o primeiro da América Latina a ter uma entidade de direitos autorais com essa moderna tecnologia, 100% de propriedade intelectual do Ecad”, celebrava, há um ano, a confederação dos compositores do Brasil – que, no entanto, comemora a utilização de “pesquisas no exterior” (Hollanda, Alemanha, Inglaterra) para o desenvolvimento da t@c. Tudo soa tão convincente como uma propaganda “científica” institucional de governo, empresa ou igreja.

O propósito do informe da vez é mais prosaico: avisar do engajamento de uma nova voz (“e que vozes!”) na campanha: Paulo Massadas, ex-homem de gravadora multinacional e coautor de hits pop que nos anos 1980 bateram recordes de arrecadação para o Ecad, como “Amor Perfeito” (Roberto Carlos), “Whisky à Go-Go” (Roupa Nova), “Um Dia de Domingo” (Gal Costa e Tim Maia), “Deslizes” (Fagner), “Talismã” (Leandro & Leonardo), “Parabéns da Xuxa“, “Uni-Duni-Tê”, “He-Man”, “Lua de Cristal” (idem, idem, idem), “Estranha Loucura” (Alcione) etc.

Segundo o informe, Massadas está de volta ao Brasil, “após anos na América Norte”, para participar dessa “campanha em prol da valorização dos compositores e cantores brasileiros”. Seu depoimento estará no ar na segunda-feira em rádios e sites (“redes sociais, inclusive”).

No canal de depoimentos, o primeiro da fila data de cinco meses atrás (estranhamente, os mais antigos aparecem primeiro). É da compositora evangélica Aline Barros, que tece generalidades a respeito do amor pela música e pela fama. Entre os mais célebres da lista, estão autores como Michael Sullivan (parceiro de Massadas nos sucessos acima), Martinho da Vila, Fagner, Sorocaba, Sandra de Sá, Ivan LinsDurval Lelys (do Asa de Águia), Roberto Menescal, Renato Teixeira, Dudu Nobre etc.

“Imagine o mundo sem música. Você já imaginou ligar o rádio ou a televisão e escutar apenas vozes e silêncios?”, começa o autor de “Lua de Cristal”, entre apocalíptico, doce e ameaçador. “Agora imagine o pior: você é um compositor e tem a sua música usada indevidamente. É assim que nos sentimos quando VOCÊ não paga o direito autoral”, ele ensaia um olho-no-olho com o espectador do lado de cá da rede.

Infelizmente, FAROFAFÁ não pode reproduzir o depoimento de Massadas ou o vídeo institucional do Ecad, porque “a incorporação foi desativada mediante solicitação”. Eles podem ser vistos, respectivamente, aqui e aqui. As caixas de comentários para espectadores também estão desabilitadas – o Ecad não deseja, ao que tudo indica, a interação direta entre ídolos e fãs. Em um ano, o vídeo institucional foi visto 1517 vezes (incluindo a minha). Como representação de sistema democrático, a federação de nossos ídolos parece arreganhar a feia careta de uma ditadura, ditabranda, ditacuja, ditat@c.

Quanto ao “ecad.t@c CIA rádio”, o final do vídeo-raiz dá de bandeja: trata-se algo parecido com aqueles chips que colocam em animais de estimação, para que eles sejam rapidamente localizados caso sejam roubados ou tenham a audácia de escapulir. “Me alimentaram, me acariciaram, me aliciaram, me acostumaram”, cantava Nara Leão em “História de uma Gata”, do clássico Os Saltimbancos (1977), de autoria de um Buarque de Hollanda que se tornou de lá para cá um dos maiores arrecadadores do sistema Ecad. “Nós gatos já nascemos pobres/ poreém já nascemos livres/ senhor, senhora, senhorio/ felino, não reconhecerás”, não cantam mais hoje em dia os gatos da MPB.

Com a mesma diligência com que discorre sobre DNA musical, o escritório deixa de banda – como sempre – as interações entre as células portadoras de tal DNA ou, mais macro ainda, o cérebro que comanda tais células e cadeias de informação genética. Sobra a pergunta que não há “crânio” que responda: a quem se destina essa campanha?

 

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