Em discurso na cerimônia de posse no Ministério da Cultura, Marta Suplicy afirma que ‘a internet também presta um serviço quando brinca e questiona o que está cristalizado’

A posse da ministra da Cultura, Marta Suplicy, foi solene como exige o protocolo, mas alvissareira como desejavam os insatisfeitos com a gestão de Ana de Hollanda. Falou-se, pelas bocas das senadora e presidenta petistas, em acesso digital, telecentros, Vale-Cultura, democratização de acesso, financiamento contínuo e ampliado, circulação de bens culturais, preservação de patrimônio, pontos de cultura, praças de esporte e cultura. E Dilma Rousseff ainda incumbiu a sua amiga, como ela fez questão de frisar, de inventar novas formas de artes, afinal “um produtor independente pode ser uma grande indústria cultural sofisticada”.

Pinçando algumas das palavras de Marta, pode-se sonhar com uma mudança de 180 graus em sua gestão:

Peço à Câmara o mesmo empenho para a aprovação do Vale-Cultura, que acredito fará uma revolução na vida do povo brasileiro, assim como incentivará e muito a produção cultural.

O Ministério não faz cultura. Ele proporciona espaços, oportunidades e autonomia para que ela se produza.

Não podemos aceitar a lógica devastadora do mercado, a pasteurização de atividades e obras pautadas pela globalização. Ao mesmo tempo nossos artistas têm que poder viver de sua arte.

A dificuldade de acesso aos bens culturais, a imensidão do país com músicas e enredos tão diversos, o contínuo diálogo com todos os segmentos da cultura e da sociedade assim como com o parlamento estarão sempre presentes nesta gestão.

Neste século de intensa comunicação e acesso à informação, a excelência na utilização dos recursos da internet será prioridade para o ministério. Hoje podemos consumir muito mais cultura em casa: assistir teatro e filmes, ouvir música e passear por museus e galerias. Isso é ótimo. Pode gerar sinergia entre pessoas e obras que nunca teriam como se encontrarem e ao mesmo tempo não inibe o interesse pela apreciação ‘ao vivo’.

Ainda conhecemos pouco da influência da comunicação eletrônica na criatividade. Sabemos de sua capacidade de levar conhecimento, de mostrar o anônimo, de descobrir talentos e de conectar saberes.

Como cultura é algo em permanente transformação, a internet também presta um serviço quando brinca e questiona o que está cristalizado. A criatividade se alimenta da ruptura com o estabelecido.

Marta Suplicy, na cerimônia de posse no Ministério da Cultura - Foto Roberto Stuckert Filho/PR
Depois de Marta, Dilma discursou, não deixando de lembrar que a nova ministra tem agora a missão de dar continuidade a uma política cultural do governo Lula, que se iniciou com Gilberto Gil, passou por Juca Ferreira e também pela irmã de Chico Buarque. Lembrou que a experiência da senadora à frente da gestão da Prefeitura paulistana, com a criação das escolas CEUs (onde populações pobres passaram a ter acesso a teatro e cinema em bairros isolados dos centros culturais) e seu olhar sem preconceitos da sociedade, mais que a credenciam ao cargo. Pop, citou Titãs: “A gente não quer só comida, a gente quer diversão e arte”.

E Dilma mandou um recado irônico aos veículos de comunicação e aos setores de oposição ao governo, que tanto deram destaque à frase de Marta (“O Lula é um deus, Dilma é bem avaliada e eu tenho o apelo de quem fez”, numa das variantes publicadas pelos jornais e portais), quando ela garantiu que manteria suas atividades programadas de campanha em São Paulo para o candidato Fernando Haddad (PT). Disse Dilma: “Não peço só a deus, peço a você, que trabalhe para a cultura e leve à frente.” Alguma dúvida de que a imprensa vai dizer que o recado foi para Marta?

Por último, uma pequena palavrinha da despedida de quem saiu. É digno de registro que Ana de Hollanda tenha encerrado seu discurso em tom apaziguador, mas sem deixar de dizer de que lado estava e nunca escondeu isso de ninguém. “Me preocupo com quem vive de criar”, reafirmou. “Eu vou voltar para minha outra vida, que é do outro lado, que é o da criação. E vou continuar aplaudindo esse governo, colaborando com todos no que precisar.” Para quem defendeu com unhas e dentes o modelo século 19, do copyright, que não entendeu as novas formas de criação cultural, não se podia esperar outra fala. Foi correta e justamente reconhecida pela presidenta, que disse que o aumento em 65% do orçamento para 2013 é um legado de Ana de Hollanda. Sua luta acabou em demissão. Marta agradece.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Finalmente após longo período de luta conseguimos uma mudança. Isso poderá significar a mudança de um modelo que engessava e asfixiava a cultura para algo que dará vida e oxigenação à mesma. Bem vinda Marta e torço aqui para que seu trabalho tenha êxito.Quanto à Ana de Holanda, seria melhor não te-la conhecido.

  2. Sra Ana de Holanda ja vai tarde, Alias nunca, jamais deveria ter ocupado cargo tão bem desempenhado pelo nosso melhor Ministro da Cultura de todos os tempos, digo Gilberto Gil.

    Sra. Marta Suplicy, saiba que seus maiores opositores estão dentro do seu próprio partido. Não se esqueça que na gestão cultural não cabe amadores, improviso, ongueiros e voluntariado. Monte sua equipe com o que ha de melhor. Não cometa o pecado das aberrações de sua antecessora, por exemplo a vergonhosa nomeação de uma menina de recado na Sec. do Audiovisual e etc….

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