Polemista, direitista, reacionário, truculento – e grande intérprete -, o cantor-vereador que foi motorista de Angela Maria defende a ditadura e vê sua obra rebelde reeditada.

 

O vereador-cantor Agnaldo Timóteo (PR-SP), eterno polemista, causou espécie na semana que passou, na Câmara Municipal de São Paulo, ao defender a ditadura militar brasileira numa sessão da comissão da verdade que investiga os crimes dessa mesma ditadura. Agnaldo é figura assídua de controvérsias em política, música e fofoca, quase sempre estacionado na ponta conservadora-direitista-reacionária das discussões.

Integrante da comissão instalada na Câmara de Vereadores, ele foi desligado após as intervenções anárquicas que fez à fala de Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional do Ministério Público Federal em São Paulo. Inquirindo a procuradora, perguntou se “o Exército deveria ser passivo, não deveria reagir” e fez observações como “é preciso acabar com essa frescura, eu nunca tive problema com os militares, não peitei eles, não dei tiro neles, não dei porrada neles, e eles não se meteram comigo” e “todos nós, brasileiros, deveríamos agradecer por ter tido regime militar, porque, se nós não tivéssemos tido, não teríamos Lula nem Dilma” (acompanhe aqui, a partir dos 58 minutos de áudio, o pugilato do vereador com a procuradora).

O quiproquó acontece num momento curioso, exatamente quando saem em CD 12 álbuns lançados originalmente pelo cantor na década de 1970. É o projeto Agnaldo Timóteo – Anos 70, distribuído em duas caixas de seis CDs cada, idealizado pelo selo carioca Discobertas, praticamente o único recanto atual de reedição oficial sistemática de raridades da indústria fonográfica brasileira.

A ideologia conservadora e o jeitão truculento têm sido companheiros e inimigos históricos de Agnaldo. A esquerda, por odiar as posições do artista-político, renega e deixa a descoberto sua obra musical. Mesmo supostos progressistas que secretamente pensam diatribes parecidas às que Agnaldão volta e meia cospe sobre política ou comportamento mantêm distância pudica dele – porque, ah, ele é o Agnaldo Timóteo, brega e cafona em música, além de politicamente reacionário.

Menos que direitista, Agnaldo é um adesista de primeira ordem. Apoia Lula com o mesmo furor com que apoiou os generais militares, e sustenta Dilma Rousseff no plano federal com fervor parecido com o que sustentou e sustenta, no plano paulista, Paulo Maluf e Gilberto Kassab. Se há governo, ele é a favor. No mais, durma-se com a barulhada armada diuturnamente pelo mineiro de Caratinga, hoje com 76 anos, ex-engraxate, faxineiro, mecânico, funcionário público e motorista de Angela Maria, histórica cantora brasileira e hoje candidata a vereadora por São Paulo, pelo PTB de Roberto Jefferson.

As ideologias não atrapalham apenas o cantor de “Meu Grito” (1968), desabafo composto especialmente para ele por Roberto Carlos. Atrapalham igualmente os apreciadores (e detestadores) de sua música.

Após muita batalha em programas de calouros em rádios e apresentações em circos, Agnaldo conseguiu se consolidar como cantor de expressão nacional a partir de 1964, seis anos após o advento da voz suave de João Gilberto. Surgiu no vácuo do golpe militar de 1964 e à revelia da revolução bossanovista de João, e se mantém até hoje nesses nichos, sensibilizando enormes contingentes de público (supostamente) despreocupado com vicissitudes ideológicas. O cochicho musical de João Gilberto recebeu e recebe todas as (merecidas) glórias, mas também algumas que poderiam ser mais democraticamente dirigidas a artistas de outras extrações e ao (grande) vozeirão de Timóteo. Ideologia e música se misturam e se invadem uma à outra feito nuvens de fumaça.

A truculência sempre foi calcanhar-de-Aquiles de Timóteo – não só por sua tendência a ser truculento, mas também por ser vítima de truculência. Em 1972, lançou o álbum Os Brutos Também Amam, como a querer descortinar um homem sensível por trás do brutamontes. Sob a cor da pele ressaltada e o visual black power do cantor, a música-título e carro-chefe era mais uma feita sob medida por Roberto, dessa vez em parceria com Erasmo Carlos.

A seguir, a dupla compôs “Frustrações” (também título do álbum de 1973), de acordo com Agnaldo sob encomenda para falar do vazio que ele sentia por ver-se rico, milionário, mas sem ter com quem dividir sua cama. Na capa do LP, o ídolo popular aparecia no gramado do Maracanã, sozinho, sem um ser humano qualquer para fazer companhia nas arquibancadas.

Em Encontro de Gerações (1974), iniciou uma trajetória mais ou menos clandestina, mas admirável do ponto de vista comportamental – e até mesmo do combate à repressão ditatorial que hoje em dia ele defende com unhas e dentes. O hit “Amor Proibido”, composto pela sambista Dora Lopes, falava por entrelinhas sobre homossexualidade: “Já ficou entendido/ que o amor que vivemos/ é um amor proibido/ pode o mundo inteiro falar/ que eu fico contigo”. “Entendido” era a gíria da época para homossexual.

“Amor proibido, à minha maneira, é autenticidade/  vou ficar contra o mundo/ e não posso fugir/ deste amor que é verdade”, cantava no refrão, assumindo posição contra-corrente que hoje transfere para a defesa dos militares que torturaram civis na clandestinidade da ditadura.

A seguir veio o álbum Galeria do Amor (1975), ainda mais explícito. A referência, aqui, era à Galeria Alaska, tradicional ponto de encontro de homossexuais no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. “Na galeria do amor é assim/ muita gente à procura de gente/ a galeria do amor é assim/ um lugar de emoções diferentes/ onde gente que é gente se entende/ onde pode se amar livremente”, cantava na faixa-título de sua autoria, mais uma vez apelando ao termo-chave remetente a “entendido”.

“Numa noite de insônia saí/ e encontrei o lugar que buscava/ a galeria do amor me acolheu/ bem melhor do eu mesmo esperava/ hoje eu tenho pra onde fugir quando a insônia se apossa de mim”, prosseguia o brutamontes sensível, celebrando o gueto onde homossexuais não sofriam discriminação e nada conservador em termos comportamentais.

A hoje conhecida como trilogia gay continuou nos álbuns (e faixas-título) Perdido na Noite (1976) e Eu Pecador (1977). Em tempos musicais governados por Secos & Molhados e Doces Bárbaros, Agnaldo dava sua contribuição, em territórios mais populares e marginalizados, à política de liberação sexual levada a cabo pelo primeiro time da MPB. Nesses álbuns, ele parecia até tentar se inserir na turma bossa-MPB, cantando “Por Causa de Você”, de Dolores Duran e Tom Jobim, ou “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque – mas a elite que então se formava não manifestava qualquer interesse por assimilar o amor (gay) dos brutamontes.

 

 

 

 

 

 

 

Os anos correram, e o jovem agressivo que sofria e praticava truculências desaguou no senhor de hoje, que briga com a “menina” procuradora e ouve dela respostas acachapantes. Eugênia respondeu à inquisição do brucutu pop com suavidade, mas com firmeza.

“Nós tínhamos uma Constituição em vigor em 1964, com um presidente eleito de acordo com as normas constitucionais. Não sei se o senhor leu, mas eu li inteirinho o chamado Orvil, ‘livro’ ao contrário, que foi escrito pelo próprio Exército, explicando como se deu a quebra e a tomada do poder. Está na internet, para quem quiser consultar”, disse a procuradora. “Com base no Orvil, fica muito claro que eles tinham absoluta ciência que estavam ferindo seu dever de obediência ao presidente eleito. Então nós tivemos um golpe, era um governo ilegítimo assumido pelo Exército, sem eleições”.

Era a resposta da procuradora à contestação-clichê de Agnaldo, de que as comissões de verdade dão ouvidos a apenas um dos lados (o dos torturados, para ele terroristas) em combate nos anos de tortura e violência oficial. “Infelizmente houve um apoio muito grande na mídia e nas classes dominantes da época para que esse golpe acontecesse, um apoio que depois se envergonhou de ter apoiado”, ela disparou.

E aprofundou a argumentação, demonstrando conhecimento do assunto num grau que o vereador veterano não queria reconhecer. “A reação (dos militares) foi absolutamente desproporcional. Os insurgentes eram jovens que praticaram, sim, crimes, mas crimes que podiam ter sido processados normalmente e responder pelos crimes. Mas não foram processados, não foram julgados conforme a lei, não tinham nem as prisões comunicadas. Foi uma reação ilegal, por um governo inconstitucional. Por tudo isso, os crimes praticados pelo Exército são considerados crimes contra a humanidade. Os praticados pelos insurgentes foram apurados, as pessoas que não foram assassinadas foram processadas e sofreram pena de exílio. Se for processar o outro lado, como o senhor diz, vai processar um morto.”

Agnaldo Timóteo não quis ouvir – ou ouviu e não aceitou – os argumentos da jovem procuradora. Abandonou a sessão xingando e gritando, sob a provocação cruzada de Eugênia, de que ele estaria quebrando o decoro da Câmara ao fazer apologia a crimes. Contrariado com delicadeza, mas também com a compreensão apenas parcial da figura popular que ele representa, reagiu feito o truculento de sempre, soltando cachorros, cobras e lagartos sobre a moça e a comissão que tampouco ele compreende. Tem sido sempre assim, mas não custa tentar separar por um minuto ideologia e arte: dentro do estilo que lhe coube, e ressalvadas quaisquer ideologias políticas e/ou musicais, Agnaldo Timóteo foi, é, um grande e corajoso cantor. O que não aprendeu, até hoje, em música ou em política, foi fazer seus antagonistas compreenderem seu grito trovejante.

 

(Texto publicado originalmente no blog Ultrapop, do Yahoo! Brasil.)

 

3 COMENTÁRIOS

  1. O Agnaldo thimóteo é arrogante,sim,mas ele pode,eu com aquela voz não dava bom dia nem pra minha mãe.Quanto ao seu repertório é bem parecido com as escolhas de Maria bethânia.Quanto as suas posicões ideológicas,absurdo total.

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