Músico critica edição de carta enviada à Folha rebatendo artigo de Vladimir Safatle: “Do jeito que minha resposta foi editada, não me surpreende o teor dos comentários”

Em seu artigo “Nome próprio da cultura”, Vladimir Safatle sustenta que a subsunção das discussões culturais aos imperativos da nova “economia criativa”, no limite, justifica a transformação do Estado em departamento de desenvolvimento de subprodutos culturais para a indústria, uma vez a alta circulação seria o critério fundamental para a avaliação dos processos de produção econômica. Safatle lamenta, assim, a possibilidade de, em uma futuro próximo, termos bailes funk pagos pela Secretaria da Cultura, “ainda por cima, com a desculpa de que se trata de manifestação popular”.

Apesar de criticar o falso dilema “cultura elitista x cultura popular”, Safatle utiliza o termo “subproduto cultural” para se referir ao baile funk, termo que não se adequaria a Anton Webern. Atualmente os bailes funk ainda são tratados como assunto da Secretaria de Segurança Pública, indicando que o Estado, assim como resistiu a reconhecer o valor cultural do samba e da capoeira, ainda não reconheceu o valor cultural do funk. Se há um gênero musical que se desenvolve de forma vigorosa à margem da “indústria cultural”, é o funk, assim como o tecnobrega e outros estilos musicais das periferias do Brasil.

Se, por um lado, algumas letras de funk reafirmam valores hegemônicos e opressivos, como o consumismo e o machismo, por outro, muitas letras de funk, e o próprio baile, desestabilizam visões de mundo e contestam o status quo. A estética do funk é transgressora justamente porque questiona o bom gosto e os padrões de qualidade vigentes. Nenhum gênero aborda tantos tabus sexuais quanto o funk. Tratando de temas como tráfico e violência, o funk incomoda o bem-viver de grande parte da população.

O antropólogo Hermano Vianna mostrou que a subversão do baile funk está no fato de ele não ter uma função na sociedade produtiva, um sentido, a não ser propiciar a diversão, o bem-viver, para milhares de pessoas. O bem-viver de alguns, porém, representa uma ofensa para outros. Se Platão expulsou artistas de sua cidade ideal e Rousseau brigou para que não abrissem um teatro em Genebra, hoje são os bailes funk que são proibidos pelo Poder Público. Oxalá possam ser um dia financiados pela Secretaria de Cultura.

Danilo Dunas
* Texto original que o autor (mestre e doutorando em Criminologia pela Universidade de São Paulo, e cujo nome artístico é Danilo Dunas) está circulando nas redes sociais. A seguir, a edição minimalista que foi publicada na seção de cartas do jornal:

Bailes funk deveriam ser financiados pelo governo, diz leitor
LEITOR DANILO CYMROT
DE SÃO PAULO

No artigo “Nome próprio da cultura”, Vladimir Safatle lamentou a possibilidade de termos bailes funk pagos pela Secretaria da Cultura, “ainda por cima, com a desculpa de que se trata de manifestação popular”. Ele utiliza o termo “subproduto cultural” para se referir ao baile funk.

A estética do funk é transgressora porque questiona os tabus vigentes. Tratando de temas como sexo, tráfico e violência, propicia diversão para milhares de pessoas. A diversão de alguns, porém, representa uma ofensa para outros.

Hoje, os bailes funk são barrados pelo poder público. Oxalá possam ser um dia financiados pela Secretaria da Cultura.

** E, abaixo, algumas manifestações sobre a carta do músico:

carlos aleixo (43)
Missivista i/m/b/e/c/i/l, para dizer o menos. Tratar de assunto polêmicos é uma coisa, agora, prostituir menores (e maiores) traficar drogas, fazer apologia ao crime, incitar violência… e ainda querem dinheiro público para isto. Vá ser cafajeste e cara de pau em outro lugar.

ANTONIO OLIVEIRA (564)
Era só o que faltava…
Já não basta jogar dinheiro no lixo com o carnaval agora vem com essa idéia estúpida de patrocinar o funk com o minguado dinheiro público?
Isso não é discussão, é falta de bom senso.

Usuário do Sistema (773)
Qual o critério utilizado para a publicação desta matéria?
A imbecilização do ser humano?

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9 COMENTÁRIOS

  1. Não tenho esperanças de que a grande mídia hoje seja capaz de abrigar nenhum debate em profundidade sobre assunto nenhum, fora um ou outro colunista de bom senso – e quase sempre não jornalista. Nem é s´pelo conservadorismo notório, é pelo próprio espaço mesmo. Porque o mesmo público que detestaria ver qualquer tipo de opinião favorável ao baile funk no jornal, em geral se acha bastante intelectualizado mas não é capaz de, ou não tem o menor interesse em acompanhar uma troca de argumentos minimamente aprofundados sobre um tema desses. Graças a Deus e aos editores há espaços como este onde é possível este debate acontecer, o que não houve na época da afirmação do samba e da capoeira. No fundo, estamos melhorando… Abraços e parabéns.

  2. Obrigado, Túlio, mas acredite que mesmo num espaço que defende arduamente o debate livre e democrático não é uma tarefa das mais fáceis. Temos parceiros e amigos que torcem o nariz porque cobrimos o fenômeno do funk, como se a nós fosse só permitido falar dos gêneros que eles apreciam. E o que você diz é realmente nosso pensamento: o debate hoje é possível e deve acontecer, diferente do que ocorreu com o samba, com a capoeira, o forró e tantos outros ritmos e estilos musicais. Particularmente sobre o funk, nos incomoda muito que ele esteja visivelmente carimbado como uma questão de “segurança pública”, a despeito de animar milhões de pessoas. Não é uma novidade, como sabemos bem, mas o que se vê é que os artistas estão sendo condenados antes mesmo de abrirem a boca. Desconfiamos que seja pura e simplesmente por serem “pobres, negros e favelados”. Continue nos acompanhando nessa jornada, Túlio.

  3. Esses artistas marginalizados tem uma visão crítica daquilo que vivenciam em suas experiências diárias e estão expondo isso nesse estilo. Para falar sobre a indigência em que vivem e sobre o esmagamento estiloso a que são submetidos o funk foi o canal de manifestação. E quando falamos em democratizar a cultura é para precisamente podermos incluir esses atores dentro do espectro das possibilidades estatais. Eles estão ai independentemente dos subsídios estatais e aqui fecho meu comentário com a parte de um texto do músicopoeta Itamar Assunção: …”chega de conversa mole Luzia, chega de conversasasa….” Deixem o funk acontecer.

    • “Essa que o magrinho fez vai pra todas as novinhas
      Senta ni mim, xerecão, Caralho!”

      “Nós fuma, fuma, nunca acaba […]”
      “Subiu pra cuca. Na quarta puxada, meu mano,eu juro que eu vi a Xuxa”

      “Tô doidinha pra te dar. Dá dá dá dá dá dá dá dá dá dá (3x)
      Tô doidinha pra te dar”

      “Fexa comigo (4X). Na V.C é só vilão, cohab 2 só os bandido.”

      Essa é a visão critica que o Sr. afirma que esses “artistas” marginalizados tem cotidianamente.

      Prefiro que meus filhos tenham contato com uma visão critica muito melhor que essa. Um visão que não enalteça o machismo, a bandidagem e a ignorância.

      Por favor, estudem um pouco mais para perceber que apoiar o funk e submeter o pobre e negro o lugar que a ele foi sempre oferecido: a marginalidade da sociedade.

  4. Olha, os funkeiros estão realmente preocupados com o que os jornalistas, ensaístas, articulistas etc pensam deles!… O funk tem “recursos próprios”, nunca vai precisar de patrocínio do governo. Acho que eles nem sabem que isso existe…

  5. Cara, em vários jogos no baralho, o coringa cumpre a função de tapar a lacuna de uma carta importante valendo seu peso. Mas há um limite, que se chama “queimar o baralho”.

    E é impossível de compreender como não cai a ficha de que este “coringa” retórico já queimou o baralho de tanto que se usa.

    Pegam qualquer coisa no passado que foi discriminada para dizer que qualquer coisa no presente tem qualidade e só fato de ser criticado é subversivo.

    Pegam Flaubert, pegam Stravinsky, tudo o mais. Outro dia vi alguém tratando das imagens de transa de rua ao ar livre nos carrões do “CarnaCaldas”, dias de micareta “sertaneja” em Caldas Novas, Goiás, comparando com Woodstok. E tentando ironizar: “que preconceito é este que diz que um é subversivo e libertário, o outro não?”

    Eu diria que é o mesmo “preconceito” que se aplica ao colocar que a questão dele é o mesmo que eu chegar e jogar uma pedra no primeiro policial que ver na rua e justificar: “ah, em Mianmar vocês dizem que é libertário, não é?”

    É este baralho esturricado que estão aplicando para com esta espécie musical. Tentam convencer do que não se pode ser convencido, pois nem eles mesmos acreditam nisso. É um fenômenos sim, importante de se estudar, para refletirmos sobre estruturas e jogos de poder na nossa sociedade, mas assim como as depredações de lojas naquele episódio na Inglaterra, para saquear bens de consumo como tênis e TV. Há um fundo desencadeado pelos conflitos e opressões sociais, este componente não está ausente, mas o “funk” (?) “carioca” está para outras facetas libertárias do Hip Hop o que o episódio inglês citado está para com o Maio de 68.

    Se não conseguem entender a importância de contexto ao analisar significados, já que estão se mostrando tão “cult”, sugiro estudar um pouco as contribuições de Frege na linguística quanto ao sentido e significado para o conteúdo da comunicação.

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