O funk das periferias invade casas noturnas caras de São Paulo, cai no gosto dos endinheirados e levanta uma questão: será esse um futuro substituto do sertanejo universitário?

Quinta feira de uma noite fria pré-inverno, uma e meia da manhã, jovens bem vestidos se aglomeram frente a uma casa noturna em São Bernardo do Campo. Dentro da danceteria uma decoração com muito veludo e lustres de cristal mostra que o público-alvo é a classe média alta moradora do antes operário ABC. Nas estantes da parede, outro detalhe denuncia o alto consumo que ocorre noite adentro. Garrafas de Veuve Clicquot dividem espaço com litros da vodca importada Ciroc e do uísque Black Label.

MC Dedê na Eko Lounge

Em outra época, o público certamente estaria esperando por algum DJ de house ou de outra tendência do cenário eletrônico. Longe da música importada do Hemisfério Norte, a aguardada atração vem da periferia paulistana e é a mais nova onda da noite na terra da garoa. O nome do astro da noite se chama MC Dedê e é um dos maiores representantes do novíssimo funk paulista.

O funk de São Paulo ficou conhecido por utilizar as batidas do funk carioca, mas com um vocal mais “duro”, letras mais extensas e que 99% das vezes falam de artigos de luxo. Já a Eko Lounge, onde MC Dedê se apresentou, é apenas mais uma das casas noturnas destinadas ao público A e B que vem adotando o ritmo que até pouco tempo atrás se restringia aos bairros que ficam nas franjas da cidade de São Paulo.

De imediato, o funk tomou conta dos bailes que ocorriam nas ruas da periferia e dentro de favelas. Mas hoje é cada vez maior o número de casas noturnas que dedicam pelo menos uma noite de sua programação ao tamborzão.

Na Vila Olimpia, conhecido reduto dos “mauricinhos” paulistanos, a Nexxt Lounge dedica as sextas-feiras ao funk. Em Moema, bairro vizinho e outro polo de atração da classe média alta, o Club A, famoso no passado por suas noites de eletrônico, trocou os seus DJs de trance pelo tamborzão nas noites de sábado. Também em Moema, na Avenida Ibirapuera, rola o projeto Mansão do Funk no Moema Hall, com o DJ Zé Colmeia, um dos precursores do funk no Rio.

No Tatuapé, bairro conhecido por ser reduto de “novos ricos”, o Cabral já se tornou famoso por promover shows com os principais MCs. Entre os nomes, Acorrentadas, Fogosas do Funk, MC Guime, MC B.O, MC Back Di e Bio G3. Outras casas como o Aldeia do Taco também estão abrindo cada vez mais espaço de seus palcos para os funkeiros.

Mas não só nos bairros mais ricos o funk cresce em São Paulo. Nas periferias, os bailes estão saindo das ruas e tomando o lugar que antes era do samba, pagode e do forró. Em Cidade Tiradentes, duas grandes casas tem o funk como carro-chefe: o Delírio’s onde cabem mais de mil pessoas e o Conexão Urbana que chega a comportar 3 mil pagantes.

Perto dali, em Itaquera, o Nação Tan Tan arrasta uma multidão de mais de quatro mil funkeiros e admiradores do gênero para seus bailes. Empresária de forró e irmã de uma das estrelas do forró com teclados, Edmilson Batista, Ivonete conta que os salões onde tradicionalmente o forró predominava já estão mudando o perfil da programação: “Tem muito dono de salão que antes só queria atração de forró me perguntando se também trabalho com artistas de funk.”

O samba também tem perdido espaço, casas tradicionais como a Cervejaria Polo North na Zona Norte de São Paulo, onde predominavam os pandeiros e tamborins, agora estão substituindo suas rodas de samba por MCs. Na Zona Sul, reduto do rap, as principais casas de show também se renderam ao tamborzão. Exemplo disso é a programação da Nitro Night, uma das maiores casas noturnas de Santo Amaro. As atrações de funk dominam praticamente todas as noites da semana com a “Noite dos Bondes”, “Nitro Pancadão”, “Funknejo”, entre outros.

Alguns bailes em favelas ainda sobrevivem, como é o caso do baile da X do Morro em Itaquera, mas enfrentam um grande problema, pois com a valorização dos cachês dos MCs dificilmente conseguem contratar artistas famosos por não cobrarem entrada.

Com a chegada do funk a casas noturnas destinadas ao público A e B o ritmo começa a surgir como potencial substituto do sertanejo que hoje é predominante na noite paulista, mas que como o pagode, o axé e a música eletrônica também terá seu declínio.

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