Pode ser a bossa de Johnny Alf e Maricenne Costa ou o canto caipira de Cascatinha & Inhana: a “capital cultural” do Brasil não sabe ser gentil com seus artistas.

Maricenne Costa tornou-se cantora de bossa nova em 1959. E lançou seu primeiro álbum de bossa nova em 2009. Uma mistura de motivos particulares e públicos talvez explique o hiato de prosaicos 50 anos, e o título do CD dá uma pista sobre uma das razões do segundo grupo. Chama-se Bossa.SP. É um trabalho que honra compositores nascidos e/ou estacionados  nesse estado (Johnny Alf, Théo de Barros, Walter Santos e Tereza Souza, Geraldo Vandré, Vera Brasil, Paulinho Nogueira…). E fazer bossa em São Paulo tornou-se, em algum momento, uma espécie misteriosa de maldição.

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Cascatinha & Inhana existiram, como casal & dupla caipira, entre 1941 e a morte dela, em 1982. Paulistas interioranos, ele de Araraquara & ela de Araras, foram popularíssimos nas rádios desde 1952 (quando gravaram os clássicos caipiras “Índia” e “Meu Primeiro Amor”). Mas paulatinamente seus nomes foram apartados daquilo que se convencionou chamar “grande” mídia – da morte de Cascatinha (em 1996) até hoje, por exemplo, o nome da dupla foi citado ridículas 26 vezes na Folha de S.Paulo. Por incrível que pareça, cantar música caipira nas campinas de São Paulo às vezes se converte também em misteriosa maldição.

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“Foi uma época muito legal, uma música moderna surgindo, reuniões em casa de pessoas ricas que convidavam a gente para cantar”, Maricenne relembra o advento da bossa paulista. “Colocamos a bossa nova em andamento, pelas casas de quem gostava de música e na noite paulista. Maysa, Alaíde Costa, Claudette Soares, Marisa Gata Mansa… Eu não fui muito firme depois.” Paulista interiorana de Cruzeiro e também professora, ela menciona um dos porquês dessa ou daquela firmeza: “Meu pai exigiu que eu fizesse faculdade. Durante todo o processo da bossa nova eu estudei serviço social”. Quando se reaproximou da música, nos anos 80, deixou a bossa de banda e foi gravar afinada com a chamada vanguarda paulista e o punk-rock do grupo Inocentes.

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Joelma Costa mora em Araraquara e é presidente da Asfaci, Associação de Famílias e Artistas Circenses. Itinerante, passou a infância mudando de escola de mês em mês. Seus pais, donos do Circo Disparada, quiseram tirá-la dos estudos quando estava na quinta série. “Foi aí que meus padrinhos conversaram seriamente com eles e foram firmes na argumentação de que a continuidade dos meus estudos seria importante para a vida toda”, ela conta. Seguiu estudando, formou-se em ciências sociais, reencontrou-se com as origens circenses e por elas iniciou militância. Os amados padrinhos cantavam rotineiramente no Disparada. Chamavam-se Cascatinha & Inhana.

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Algumas das canções reunidas na Bossa.SP de Maricenne foram compostas por mulheres – Tereza Souza, Vera Brasil e… Maricenne Costa. Ela afirma que sua relação inconstante com a música “pode ter sido da minha cabeça mesmo”, mas certamente sabe que machismo e cercanias são forças atuantes na música brasileira, sim, senhor. “O machismo existe por existir, naturalmente. Mulher tinha que ter mais coragem, antes de tudo. Você tinha que se esconder, não podia aparecer muito.”

Na faixa “Tristeza de Amar”, Maricenne divide vocais com Alaíde Costa, mulher, negra (como Cascatinha & Inhana), cantora de bossa. No livro Solistas Dissonantes – História (Oral) de Cantoras Negras, publicado em 2009, Ricardo Santhiago relaciona os percalços e dificuldades de mulheres negras que buscaram cantar e compor no Brasil sem se adequar aos estereótipos do samba – praticando bossa nova, por exemplo, como fez Alaíde Costa.

“O que Alaíde tem de história… Ela está se preparando para cantar as composições dela ao piano, como uma lady americana faz”, revela Maricenne, entusiasmada. “Johnny Alf também sofreu muito, mas conseguiu estar na primeira linha”, diz, sobre um dos pais inventores da bossa (negra), carioca que preferiu viver em São Paulo e hoje vive num hotel-residência para idosos em Santo André (nota de FAROFAFÁ: Johnny morreria um mês após a publicação deste texto) .

Alaíde poderia ser festejada como “lady” (norte-)americana, Maricenne também. Cascatinha & Inhana foram brasileiríssimos, de cantar maravilhas como “Mulher Rendeira”, “Chuá… Chuá”, “Triste Caboclo”, “Flor do Cafezal”, “O Menino e o Circo”, “O Canto da Jaçanã”… A um só tempo negros, índios e brancos, cantaram lindamente desde guarânias paraguaias (“Recordações de Ypacaraí”, “Noites do Paraguai”) a sambas (“Sonho Meu”, de Dona Ivone Lara e Delcio Carvalho) e romantismo popular brasileiro (“Eu Quero Apenas, de Roberto & Erasmo Carlos). É fácil supor que, se fossem (norte-)americanos, seriam celebrados como um Louis Armstrong e uma Ella Fitzgerald. Mas eram brasileiros, paulistas, interioranos e… caipiras.

Não duvide que eles possuam até hoje uma imensa multidão de seguidores anônimos,  invisíveis aos olhos da “grande” mídia. Ao menos no que diz respeito aos nichos de supostos (de-)formadores de opinião e “intelectuais”, nem a terra natal os trata com o devido respeito e a devida justiça.

“Foi ao cabeleireiro, fez manicure, pedicure e morreu lindona, porque passou mal na fila de um banco e o farmacêutico balconista aplicou uma injeção que ela não podia tomar”, a afilhada Joelma relembra a partida precoce da formidável Inhana. É situação-limite corriqueira para pretos, pobres, índios, circenses, ciganos, interioranos etc. Estranhamente, estágios equivalentes de abandono podem ser experimentados por cantores de bossa nova, mulheres, homossexuais, jornalistas, músicos “famosos”, paulistas da capital.

São retratos de (auto-)estima corroída que fez e faz estragos abaixo e acima da linha do Equador. No mundo aparentemente visível e vistoso do ribeirão de baixa auto-estima chamado São Paulo 2010, ainda não há ar livre, leve e fresco para Cascatinha & Maricenne Costa, ou para Johnny Alf & Inhana.

 

(*) Texto publicado originalmente na coluna PAÇOCA, da revista Caros Amigos, em fevereiro de 2010.

 

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5 COMENTÁRIOS

  1. Caro amigo,
    sua sensibilidade é de admirar.
    Quando puder, dá uma passadinha na página do Circo Disparada, no feicibuqui: tem uma foto de Cascatinha & Inhana, “os sabiás do sertão”, cantando no circo.
    Abração!

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