A filha de Martinho da Vila se alia ao produtor, diretor musical e padrinho artístico Djavan e deixa o samba em segundo plano no novo álbum, “Não Tente Compreender”

 

Mart'nalia com seu produtor e diretor musical, Djavan - Foto divulgação (Eny Miranda)

Estava ouvindo Não Tente Compreender, o novo disco de Mart’nália, ao lado de um amigo, e ele sapecou quase imediatamente a pergunta nada surpreendente: “Por que ela não grava uns sambas?”.

Mart’nália é carioca, mulher, negra, filha de Martinho da Vila e, quase sempre, sambista como o pai. Em Não Tente Compreender, produzido pelo não-sambista alagoano Djavan, ela constrói um ponto fora da curva, um disco de soul, blues, pop, canção romântica, algum funk, pitadas do velho melindroso samba.

E não dá outra: nossa reação (não vou culpar apenas o meu amigo não-denominado) instantânea, racista, é essa de “cadê o samba que estava aqui?”. Mart’nália, sedimentada como uma compositora nada pura de samba, já passou por esse tipo de questionamento antes.

Antes dela, passou por isso toda e qualquer mulher negra basileira que tenha tentado cantar algo excêntrico ao fatalismo sambista: Angela Maria, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Alaíde Costa, Alcione, Leny Andrade, Leci Brandão, Zezé Motta, Áurea Martins etc. etc. etc. Por vezes uma (tímida) aceitação acontece, mas nunca sem percalços. Por razōes misteriosas – será? – a patrulha parece ligeiramente mais leve quando se tratam de homens (Gilberto Gil, Johnny Alf, Djavan, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Emílio Santiago, Chico César).

Pois bem, todos os parágafos acima poderiam ser economizados se não esperássemos sempre samba de nossos artistas negros, populares.

Eu diria que Mart’nália está cantando um belo funk anordestiado de autoria do pernambucano Lula Queiroga, “Depois Cura”. Que os baianos Gil e Caetano Veloso ofereceram, como de hábito, baladas novas para a afilhada, respectivamente “Eu Te Ofereço” e “Demorou”.

Que o MPB-roqueiro Nando Reis pode vir a encontrar em Mart’ália uma nova Cássia Eller que o traduzisse, caso prospere a linha aberta por “Zero Muito”. Que Marisa Monte e Dadi Carvalho compuseram a faixa-título, talvez em diálogo com o “mas tente compreender/ morando em São Gonçalo você sabe como é/ hoje à tarde a ponte engarrafou e eu fiquei a pé” do não-sambista negro carioca Seu Jorge na suingada “São Gonça” (1998).

Poderia dizer que “Serei Eu?” é uma parceria de Mart’nália com o ex-soulman branco Ivan Lins e a blues-MPB-popeira Zélia Duncan. E que o CD termina com o lindíssimo samba de branca gaúcha “Vai Saber”, de Adriana Calcanhotto, menos sambeado do que nunca (já foi gravado pela autora e por Marisa Monte). Poderia dizer muito mais coisa, mas este texto ia ficar grande demais.

 

(Texto publicado originalmente no blog Ultrapop, do Yahoo! Brasil.)

 

5 COMENTÁRIOS

  1. Tem o machismo também, claro. Mas acho que o preconceito maior é o de origem. O mesmo de que falava Luís Melodia, quando dizia que, para as gravadoras, um preto do morro de São Carlos como ele só podia ser aceito como sambista, não como MPBista. Mart’nália, do mesmo jeito, carrega a maldição de ser filha de Martinho.

  2. É um atraso inconcebível achar que pela tez da pele a pessoa deva estar restrita a fazer isso ou aquilo. O samba tem uma história na cultura brasileira e não é uma manifestação da cultura de um povo, de baixa envergadura. Temos outros estilos de igual relevância e força e não imagino um artista estar cerceado de poder mergulhar em outras sonoridades ou estilos a reboque do que quer que seja.Desde de sempre deparamo-nos com fórmulas para ganhar dinheiro, praticamente “patenteadas” pelo baixa indústria musical tupiniquim, tanto é que Gil a décadas atrás, creio que já visualizando e sofrendo a perversidade desse cenário escreveu “…. essa é pra tocar no rádio…”
    Precisamos ousar e não passar a existência produzindo “mais do mesmo” termo utilizado um dia por Renato Russo. Parabéns Martinália por esse voo, nem sei onde é o acento dessa palavra.

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