Para homenagear Ademilde Fonseca, FAROFAFÁ resgata dois textos publicados no portal iG, em 15 de março de 2010, correspondentes à primeira e última vez que estive diante desta grande, grandeGRANDE cantautora brasileira (flores em morte?…). Ademilde estava velhinha, a entrevista não rendeu respostas (muito menos perguntas) históricas. Mas, já que dizem e cantam que recordar é viver…:

 

Elza, Baby e Ademilde: Brasil é um país de cantoras (*)

Elza Soares foi a primeira a chegar ao camarim do Sesc Vila Mariana. Espera a passagem de som acomodada numa cadeira da qual mal pode se mover, por causa de um torção no pé que afeta também sua coluna. “Fiquei meio paraplégica, se você quer saber. Um mês e meio de cadeira de rodas”, explica. Lamenta a morte de Johnny Alf e os biombos que vão nos separando. Enquanto Baby do Brasil não chega, diz não estranhar o fato de sua discípula ter se convertido em evangélica fervorosa. “Eu sou espírita. Respeito os outros e quero que respeitem meu lado. As pessoas têm direito de expressão”, afirma, o trovão de sempre guardado dentro da voz rouca.

Elza tem disco novo na manga, gravado em duo com o violonista João de Aquino. Desse trabalho mostrará à noite a “Juventude Transviada” de Luiz Melodia, entremeada com o blues “Cry Me a River”, de Arthur Hamilton, e o batuque “Lamento da Lavadeira”, de Monsueto Menezes. Ainda em 2010, planeja trazer à luz um disco de jazz, “bem Mississippi, coisas negroides mesmo, ‘Strange Fruit’, ‘Summertime’, ‘All the Way'”. Rotulada como sambista pela indústria fonográfica, Elza esteve sempre doida para alçar outros voos, e muitas vezes de fato os alçou. Não será diferente à noite, quando ela embasbacar a plateia cantando “Opinião”, de Zé Keti, sem microfone, nua com sua voz.

No camarim, discorre sobre a condição feminina: “Quando a mulher quer, e toma a frente, a coisa vai. A mulher não é aquela que fica atrás de um grande homem, eu acho essa história horrível”. Por falar nisso, uma enorme boca sorridente e uma roxíssima cabeleira índia irrompem de repente na pequena saleta. Baby (ex-Consuelo) do Brasil está na área: “Quando criança, eu tinha a mania de cantar rouco, mas achava esquisito. Foi quando ouvi Louis Armstrong e Elza Soares que entendi que aquilo não era defeito meu, era uma coisa que existia mesmo”. A menina que dançava, tinia e trincava nos Novos Baianos louva a professora: “Elza é cantora de explosão, eu também sou. Fiquei de olho desde o início, tive muita intimidade com ela sem conhecer pessoalmente”.

Evangélica, pastora (ou “popstora ninja”, como diz) e dona de uma igreja no Rio de Janeiro, Baby andou bastante afastada da música brasileira neste início de século. Não lança disco desde Exclusivo para Deus, de 2000, mas também tem novidade na manga. Idealiza dois discos de uma vez, um para Deus e outro “secular”. “Eu não me nego a ser tudo que sou”, resume. Não desconhece que a religiosidade a afastou do rebanho pop-rock-MPB. “Algumas pessoas acham o gospel cafona, chato, mas nós estamos chegando para tirar a caretice da religião. Vocês vão ter que aturar, porque eu fui arrebatada”, relampeja.

No camarim, reage rindo à pergunta sobre onde se escondeu a Baby endiabrada de outrora. “Não sei se endiabrada é a palavra. Mas você terá ela de novo. Doida eu sempre fui, e continuo sendo”. À noite, Baby provará por A mais B que o preconceito é mesmo uma maldição. Regendo feito maestrina a banda de Elza, cantando Deus ou Jackson do Pandeiro, Baby do Brasil ainda é uma das maiores cantoras brasileiras vivas. No palco, mostrará que está em excelente fase, com fogo comparável ao da antiga Baby “Todo Dia Era Dia de Índio” Consuelo. Endiabrada.

Do alto de seus 89 anos, Ademilde Fonseca é a última a chegar. Lépida, loura e fagueira, recebe as mesuras das cantoras que seguiram pelas estradas abertas por ela. “Ademilde é a nossa rainha”, é o que diz Elza da chamada rainha do choro, a inventora do choro cantado, a mulher para a qual se vestiram de versos clássicos como “Brasileirinho”, “Apanhei-Te Cavaquinho” e “O Que Vier Eu Traço” (todas mais tarde samba-rockeadas por Baby).

Ademilde parece 20 anos mais jovem do que é, mas avisa que as cordas vocais já não possuem aquela elasticidade de outros tempos. Diante dos fartos elogios, ela brinca: “Pode haver cantora melhor que eu, mas igual a mim não tem”. Elza se retira para passar o som, Baby pergunta a Ademilde quais foram suas influências vocais, ela cita Aracy de Almeida e Odette Amaral. Ademilde conta que também é evangélica e fala da vida musical hoje recolhida: “Apareço a cada vez que recebo um convite. Em casa, amanheço cantando e vou dormir cantando”. “O choro é o jazz brasileiro, e Ademilde ficou sendo a cantora dos músicos, de Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, Abel Silva (**)”, derrama-se Baby, antes de sair, ela também, para ensaiar.

Ademilde segue conversando e narrando 89 anos de modéstia. “Eu era muito ingênua, cantava por cantar, porque gostava. Sou natural, não tive estudo nenhum. Nunca fiz curso de canto”, constata como quem se desculpa de alguma deficiência. Ali por perto, cantam em ensaio duas das legítimas herdeiras de sua estirpe. Dizem que o Brasil é um país de cantoras, mas perceber que essas três mulheres não são celebradas com o mesmo fervor com que se celebra uma Billie Holiday ou um Chico Buarque é mais esquisito que a voz rouca de Baby.

 

Show das três cantoras em São Paulo é episódio histórico da MPB

Carmen Miranda produziu Ademilde Fonseca, que criou Elza Soares, que pariu Baby do Brasil. Não há como Carmen participar do convescote, mas não existe nada mais natural que um sarau musical reunindo as outras três. Ainda que o encontro entre elas fosse breve, apenas no final com “Brasileirinho”, uma corrente elétrica percorre, magnetiza e unifica as três apresentações. A plateia se comove com Ademilde, gargalha com Baby, vai às lágrimas com Elza – a ocasião é rara, especialíssima, e ninguém ali ignora isso.

As cordas vocais cansadas de Ademilde pedem o auxílio de sua filha, Eimar Fonseca, que a ampara nos versos de “Odeon”, “Carinhoso” e “O Que Vier Eu Traço”, cantando em agudos tão virtuosos quanto os que a mãe costumava desenhar. O público percebe a delicadeza da situação e aquece Ademilde com fartos e calorosos aplausos. Na hora de sair do palco, Eimar puxa nervosamente a mãe, que só ao final pegou gosto pela situação e, desobediente, ensaia cantar mais uma. Eclode o “Tico-Tico no Fubá”, que ficou célebre na voz de Carmen, mas era de Ademilde originalmente (***). Terminada a música, a rainha do choro deixa o palco sem olhar para trás, e Eimar tem de puxá-la mais uma vez, agora para que volte e perceba que o público a ovaciona de pé.

Baby vem em seguida e assombra a plateia logo de cara, com uma versão samba-rock-jazz-funk-choro matadora de “Ziriguidum”. Elétrica, desnorteia a audiência a seguir, colocando numa cumbuca só as virtudes de show-woman musicalíssima e de “popstora” fervorosa. Baby parece desenvolver relação algo conflituosa, exasperada, com o palco, os músicos e a gente – mas, ora bolas, não é o rock n’roll uma espécie de religião, e não são os roqueiros em geral tão carismáticos e messiânicos quanto os pastores? Baby une as duas pontas, e paga um preço, mas deixa a plateia rendida com uma releitura envenenada de “Brasileirinho”.

Antes de sair, conduz Elza Soares ao centro do palco, e aí é que a barra pesa de vez. Inconformada de ter de cantar sentada numa cadeira, semi-imobilizada, Elza coloca mais raiva e mais peso na voz e na interpretação na hora de cantar, gravíssima, que “podem me prender/ podem me bater/ podem até deixar-me sem comer/ que eu não mudo de opinião/ daqui do morro eu não saio, não”. Igualmente feroz, reformula o mote de “A Carne”, de Marcelo Yuka e Seu Jorge, para “a carne mais barata do mercado é a MINHA carne negra”.

Enfezada, encerra a porradaria de “A Carne” incitando o público a chamá-la de negra, negra, negra. “A minha voz é…”, diz, e espera até que o coro responda: “Negra!”. “Elza Soares é…” “Negra!”, “minha mãe é…” “Negra!”, “meu som é…” “Negro!” Elza é negra, e é mulher, como as duas companheiras de jornada. As marcas impressas no corpo e na alma de cada uma delas evidenciam que não é tarefa das mais fáceis ser mulher no seio da supostamente cordial MPB. Nesta noite, no entanto, todas elas foram aplaudidas de pé, por convicção e não por convenção. Talvez poucos fiquem sabendo, mas quem esteve lá sabe que viveu um episódio histórico, grandioso, dessa altiva senhora chamada música popular brasileira.

 

(*) Como se pode perceber pelo último parágrafo do primeiro texto, o título original deveria ter sido “O Brasil é um país de cantoras?”, mais uma interrogação que uma afirmação cabal.

(**) Agora não sei se foi escorregão meu (bem mais provável) ou da Baby, mas passou batido na edição original da reportagem: certamente ela não estava se referindo ao Abel Silva integrante do MAU (Movimento Universitário Universitário) dos anos 1960 e 1970, e sim ao Abel Ferreira músico de choro dos anos 1940, 1950, 1960 e 1970.

(***) Você tem certeza disto, PAS?!! :-O Que caixinha de surpresas reler seu próprio texto dois anos depois…

—> Nessa mesma ocasião, o queridíssimo Rafael Saar (que mais tarde ajudaria a me fzer prestar atenção às geniais Luhli & Lucina) produziu um breve idocumentário sobre o encontro de Ademilde, Elza e Baby (tem até um “hum-rum” meu lá, hahaha). Hoje, com a notícia sobre Ademilde, o mais-queridíssimo-ainda Rodrigo de Araujo resgatou o vídeo no Facebook dele, e eu recopio aqui:

 

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