NOVA YORK
Os balões da festa do réveillon ainda estavam enroscados nas árvores e Nova York curava a ressaca na cama ou em algum Starbucks modorrento. Mas os poetas de Nova York estavam com a macaca e, na primeira tarde do ano-novo, começaram uma maratona de poesia que teve início às 14 horas de sábado e foi até as 2 da manhã de domingo.

Eram mais de 200 poetas, escritores, cineastas, atores, performers, músicos e bailarinos, e o cenário era o mesmo onde se dá essa festa há 31 anos: a Igreja de St. Mark’s, em Bowery, construção georgiana de 1660, de pedra e com balcões, vitrais cubistas e renascentistas. A igreja é um tradicional santuário artístico que já viu em seu altar os poetas William Carlos William e W.H. Auden, abrigou a primeira peça de Sam Shepard, deu tablado para coreografias de Martha Graham e
Isadora Duncan.

Estava frio lá fora, mas na igrejinha – que nunca fecha as portas para os artistas – a coisa estava quente. O dramaturgo Eric Bogosian (autor de SubUrbia, já encenada no Brasil); a cantora Patti Smith e seu eterno partner Lenny Kaye; o compositor Philip Glass; a atriz Judith Malina (que criou o Living Theatre em 1947); o debochado Bill Kushner; os autores Legs McNeil e Gillian McCain (da clássica bíblia punk Mate-me Por Favor): tava todo mundo por lá. Fizeram-se poemas para os pop stars Johnny Ramone (Emily XYZ) e Mike Love, dos Beach Boys (Daniel Nester), utilizaram-se de horóscopos sarcásticos e chocolate, saxofones e power trios. Judith Malina e seu parceiro, Hanon Reznikoff, terminaram cantando o hino americano só com dois versos: “Stop the War.”
A freqüência não era muito diferente da de um show de rock. Garotos despenteados de mochila nas costas, meninas de corte de cabelo new wave e óculos de aros muito pretos, gordinhos com colares indígenas, velhotes com toucas iguais àquela de Jack Nicholson em Um Estranho no Ninho.

A igrejinha dos poetas tinha cadeiras e almofadas por todos os lados. De vez em quando, alguém arrastava um piano para o palco e alguma voz maravilhosa, como a da cantora Rebecca Moore (uma versão americana de Dolores O’Riordan, dos Cranberries) tomava a nave da capela com solenidade e paixão. Mas havia também humor e escárnio e ironia. A atriz Reno, estrela off-Broadway de Nova York (atuou também em A Bright Room Called Day, de Tony Kushner), zombou dos jogos da política americana, entre republicanos e democratas, e, aos gritos de “Abaixo o Poder”, terminou sua performance (de improviso) abrindo um saco que trazia aos pés e tirando de lá “a única coisa nova que trazia para 2005: um cãozinho”.

A autora Gilles McCain, venerada por ter feito um retrato justo e original do punk rock em Mate-me Por Favor (com Legs McNeil), diz que sua incursão pelo mundo da poesia tem a ver com o uso da linguagem de rua. “Gosto de misturar longas e complexas sentenças com frases curtas, como ‘Dou a você minha palavra’. Gosto de usar gírias e clichês também. Pode-se escrever uma frase elegante e então inserir subitamente alguma gíria ou uma expressão-clichê, como se fosse ‘um acessório após o fato’”, explica.

Os poetas não esqueceram da tragédia. Os tsunamis asiáticos foram convenientemente lembrados. “Milhares de corpos nas ruas, nas calçadas, nas valas. Filhos, tios, primos, sobrinhos, mães, pais, sábios, monges, jogadores, secretárias, traficantes”, recitou a bela poeta nova-iorquina Dana Bryant, antes de de terminar pedindo um minuto de silêncio. Denizé Lauturé, poeta multicultural, leu um poema permeado por silvos e assovios e uma voz percussiva. “Oh, Mar, por quê?”

Por sinal, esse é um aspecto interessante de ser observado: o poeta sem ritmo padece. Eles fazem versos com uma métrica pop, com guitarristas e pianistas ao acompanhamento, dançam e entoam cânticos improvisados, usam o spanglish e a respiração como armas de comunicação. A delicada Cecília Vicuña faz poesia com o som de seu lamento. “Nada mais de crianças dickensonianas”, proclama uma delas.

O Poetry Project que reúne toda essa gente é uma tradição nova-iorquina. O primeiro dia do ano começa ali naquela missa poética. Um sintoma de civilidade num mundo tomado pela indiferença. Este ano, o festival teve até um filhote: outra centena de poetas estava reunida, ao mesmo tempo e no mesmo horário, no Bowery Poetry Club, na Bleecker Street, pertinho dali. Era o Alternative New Year’s Day Spoken-Word Extravaganza. Na igrejinha, a poesia resiste e avança no tempo e na forma, num templo cujo relógio ironicamente está parado na mesma hora há um tempão: 18h10.

publicado em janeiro de 2005, época em que passei uns meses em NYC. eu tinha duas meias garrafas de vinho mocozadas nos bolsos internos do casaco

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017) e Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019)

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