“Num planto capim guiné pra boi abaná rabo/ eu tô virado no diabo, eu tô retado com você/ tá vendo tudo e fica aí parado com cara de veado que viu caxinguelê.” Esses versos pertencem a uma moda caipira, “Capim Guiné”, gravada em 1983 por um roqueiro baiano chamado Raul Seixas.

Raul nunca foi uma unanimidade. Até hoje a infame frase de roda de violão “toca Raul!” é repetida em diversas ocasiões, na maioria delas com efeito de zombaria – para dizer que as canções da roda estão riponga demais, para zoar Raul ou o rock nacional, para indicar ao cantor no palco que o show está criando barriga, para depreciar a música brasileira.

Raulzito era roqueiro de guitarra em punho, mas, coitado, foi parar nas rodinhas de banquinho e violão, primas da bossa nova de seu conterrâneo João Gilberto. Por sinal, Raul chamou o movimento musical do final dos anos 1950 de “bosta nova pra universitário”, num rock chamado “Rock’n’Roll”, composto e cantado em duo com o roqueiro também baiano Marcelo Nova.

De certo modo, o “toca Raul” é o reverso do que ele vivia em vida: em tempos de MPB em pé de guerra, sempre havia quem rejeitasse o autor de “Metamorfose Ambulante” e “Ouro de Tolo” por ele ser roqueiro, portanto “americanizado”, plagiador praticamente confesso de Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry, Arthur “Big Boy” Crudup e Bob Dylan.

Havia quem jurasse que o roqueiro baiano odiava música brasileira. Quem dizia isso desconhecia (ou omitia) o grande gozo de Raul em fazer rock manipulando recursos e instrumentos brasileiríssimos, de capoeira (“Mosca na Sopa”, “É Fim do Mês”), forró (“Que Luz É Essa?”, “Rockixe”, “Os Números”, essa última tocada com o regional de Jackson do Pandeiro), repente (“As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”, “É Meu Pai”), macumba (“Tapanacara”), canção cafona (“Medo da Chuva”, “Tu És o MDC da Minha Vida”), moda caipira (“À Beira do Pantanal”, “Minha Viola”, “Capim Guiné”)…

Raul é combatido, mas também é cultuado, até hoje, 22 anos após sua morte precoce. Quem gosta dele costuma apreciar seu lado maldito, de quem não “se vendeu” para o “sistema” e morreu leal a seus princípios roqueiros. Ele seria o cara que se manteve “puro”, enquanto o letrista de grande parte de suas músicas mais importantes virou um dos homens mais ricos e populares do mundo. Não estou falando de Justin Bieber, mas de Paulo Coelho, que escreveu algumas das letras mais geniais da história do rock brasileiro e depois virou escritor multiplatinado de livros como “O Alquimista”.

Paulo e Raul falavam bastante sobre pactos com o capeta – “o diabo é pai do rock”, cuspiam no pesado “Rock do Diabo”, de 1975, que hoje talvez Christiane Torloni cantasse como “o diabo é pai do rock, bebê”. Curiosamente, “Capim Guiné”, escrito em dupla com Wilson Aragão (quem?), cita o demônio em pessoa, mas parece mais estar falando diretamente com Deus: as intempéries da vida da roça estão destruindo a lavoura do narrador da toada sertaneja, e o cara a quem ele se dirige está vendo tudo e fica lá parado, inerte, com cara de veado que viu caxinguelê.

Por que estou falando tanto de Raul Seixas? Porque nos últimos dias andei me deliciando com seus velhos rocks baianos, em parte devido à comoção causada pelo texto anterior que escrevi no Yahoo!, sobre a Claudia Leitte, os roqueiros, os arianos, os axezeiros…

Um monte de gente – um monte mesmo – citou Raul para desmontar os argumentos do meu contraditório texto. Contradições à parte, fiquei contente: não sabia que Raul ainda tinha tantos fãs, especialmente entre a garotada mais jovem. Aliás, não citaram só Raul, mas também a bem mais contemporânea Pitty, também baiana.

Cê tá me entendendo?, perguntaria Arnaldo Baptista, ex-líder da banda paulistana de rock Mutantes. O pessoal em massa evocou os santos nomes de dois ROQUEIROS baianos para decretar o erro da hipótese (de fato estapafúrdia) de que roqueiros não gostem de baianos, nordestinos, axezeiros – ou, de modo mais geral, que roqueiros, assim como qualquer ser humano, porventura adorem detestar quem seja diferente  “demais” deles próprios.

O nome profano de Ivete Sangalo foi outro bastante pronunciado, mais uma baiana na roda. Aliás, a única, além de Pitty, pois muitos me lembraram de que Claudia Leitte não nasceu na Bahia, e sim no município fluminense de São Gonçalo. Leio nas biografias dela que se mudou para Salvador com cinco dias de vida, mas deixemos esse detalhe de lado, por ora.

Quebrei meu coco aqui: o fato de Ivete não ter sido vaiada no Rock in Rio significa que roqueiros não têm preconceitos, não, senhor!, é isso? Eu, que não sou assim um apaixonado nem pela música da Ivete nem pela da Claudia, fiquei espantado de ver se multiplicarem de repente, feito gremlins, fãs “ivetistas” (roqueiros?) desde criancinhas. Fiquei me perguntando se Sangalo não foi usada por um tanto de gente pra fazer ciúme (ou fazer fusquinha, como diriam na minha terra, Maringá, Paraná) na Leitte.

O que eu não consegui entender até agora é por que tanta raiva contaminou este ar poluído que você, eu, a Leitte, o Axl, todos nós habitamos. Minha constatação/pergunta mais boba era: tá, também não morro de amores pela Claudia Leitte (em especial por ela dizer que seu filho vai ter que ser “macho”, e nem sequer se tocar de quão homofóbica é tal afirmação), mas até aí… por que tanto ódio concentrado nessa moça mesmo?

Venho aqui, falo umas coisas, teço uns raciocínios. Você lê, não gosta do que eu falei e… começa a xingar minha árvore genealógica até a décima geração. Por que mesmo? Por que eu não posso argumentar, com toda educação de que sou capaz, e você não pode me retrucar também com educação, sem ficar nervosinho/a? Será que, lá no fundo, você quer passar recibo de que, sim, roqueiro/a tem uma tentação do diabo por ser mal-educado/a, racista, sexista, homofóbico/a (alô, Claudinha!), autoritário/a, reacionário/a? (Por falar nisso, você é roqueiro/a? É ariano/a?)

Vou usar um exemplo fora da curva, porque é bem mais grosseiro e preconceituoso que a média dos mais de 3.000 comentários do texto “Claudia Leitte e os arianos”. Trata-se do comentário de um/a leitor/a que não vou nomear aqui, que escreveu em letras maiúsculas, como se estivesse gritando e cuspindo fogo (vou transcrever em minúsculas mesmo, ok?). Ele/a disse o seguinte: “Nordestino é preconceituoso e racista, pois não aceita ser contrariado, que xinga o outro de nazista. Fora, nordestinos e seus lixos de música. Seu lugar é no Nordeste, não em show de rock”.

Cê tá me entendendo?

E você, Raulzito? Ó, pai Raul, onde você se esconde nessas horas de ar poluído? Tá vendo tudo isso aqui? E fica aí parado, com cara de veado que ouviu Katinguelê?

* Texto publicado originalmente no blog Ultrapop, do Yahoo! Brasil

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