Se na primeira parte deste trabalho partimos da música de Makely Ka e chegamos a política, façamos agora o caminho oposto. A trajetória que ele aponta, assim como sua ciranda “Roda da Fortuna”, é circular, pendular – da música à política, dessa de volta à música, à política, à música, à política.

(E, a propósito, “Roda da Fortuna” está disponível, ao lado de outras canções, para audição no aplicativo para celulares que Makely lançou – ali, ele vai costruindo o disco pouco a pouco, faixa por faixa, a começar pela capa, que existe antes do disco, mas pode mudar a qualquer momento.)

PAS: Já começamos a misturar os assuntos, e eu queria isso mesmo. Você é artista, mas ao mesmo tempo é presidente da Cooperativa da Música de Minas (Comum). Por que fazer as duas ao mesmo tempo?

MK: Esse movimento de organização é muito recente, não tem dez anos que a música começa a se organizar efetivamente em rede. A gestão do Gilberto Gil inaugura o Ministério da Cultura (MinC), inaugura a interlocução e de certa forma imanta o Brasil, aquela coisa do ímã que todas as setas apontam pra aquela direção. Acho muito salutar a definição do Gil, no programa dele, o discurso dos pontos massageados, do do-in antropológico…

PAS: Na época muita gente zombou…

MK: Sim, e é revolucionário. Um dos principais responsáveis por aquele texto é o Antônio Risério, um antropólogo que acompanho há muito tempo e que, não por acaso, é também um dos ideólogos do tropicalismo. Por isso considero a gestão do Gil uma continuidade do tropicalismo. Ali é o braço político que faltou ao movimento naquele momento. A política sempre esteve dentro do conteúdo programático do tropicalismo, mas eles não tinham experiência, nem acesso e nem saco naquele momento pra desenvolver. Pra mim é lógico, e é uma continuidade natural o Gil ter entrado. O programa do Gil não era do PT, eu estudei os programas de todos os presidenciáveis. Não tinha nada parecido com aquilo, acho que nem o próprio Gil tinha muita dimensão do que ele ia fazer. Mas ele reuniu algumas pessoas, como Risério, Jorge Mautner, Waly Salomão, Rogério Duarte, pessoas fundamentais na gestação do tropcalismo pra o ministério. E chamou a juventude, a galera da cultura digital, pra entrar, pra cair pra dentro.

PAS: Não deve ser fácil ser do clã Buarque de Hollanda e ter que assumir essa sucessão…

MK: Não, não. A Ana, se tivesse assumido esse ministério em 2003, não ia ter problema nenhum, ia ser louvada inclusive. É porque o Gil colocou a coisa num patamar muito alto. Ele vem com conceitos muito avançados, e dentro de um processo que já começou 40 anos atrás. Eu me senti muito instigado quando ele assumiu. Sempre tive esse interesse, mas nunca tinha me envolvido muito em grêmio, em política estudantil, nunca me filiei a nenhum partido. Chegamos a puxar greves, mas sempre individualmente. Mas quando quando eles fizeram o chamamento pra gente ir participar das Câmaras Setoriais do MinC, eu fui. Foi em 2005. Foi o primeiro momento que a gente se encontrou em Brasília, 17 estados, pra discutir políticas públicas.

PAS: E você era um cara que fazia música em Minas e foi porque quis?

MK: Fui porque a gente fez uma reunião com alguns músicos, e eu e o Weber Lopes fomos indicados pra ir representar o Fórum. A gente já estava acompanhando as discussões, no Rio e em São Paulo tinham começado um ano antes. O MinC passou em todos os estados convocando a organização dos músicos, e eu fui pra Brasília e conheci um universo que… Encontrei gente do Pará, do Rio Grande do Norte, do Rio Grande do Sul. Os nossos problemas eram muito parecidos, e a gente não se conhecia. E a gente fazia basicamente a mesma coisa. É ali que surge a ideia de autoprodutor. A gente cria, produz, divulga, às vezes a gente mesmo compra a nossa própria música, então a gente tem que se juntar. Isso começou a gerar os fóruns, as cooperativas, as associações, que foram surgindo ali naquele momento. E foram surgindo outras ações paralelas, que foram engrossando o caldo. O Fora do Eixo é uma ação que a gente acompanhou desde o início, eu levei o Pablo Capilé pra BH em 2006 ou 2007, mas já tinha feito uma entrevista com ele por messenger pra uma revista que a gente publica, a Revista de Autofagia, um ou dois anos antes, quando o Pena Schmidt e o Edson Natale me falaram de uma ação em Cuiabá que tinha impressionado muito eles.

PAS: Você acha que o movimento deles, assim como o de vocês, é filhote do MinC de Gilberto Gil?

MK: Sem dúvida, começa nesse processo, ou pelo menos coincide. Mas não é uma coincidência gratuita. Nunca a gente tinha imaginado uma construção coletiva de um Plano Nacional da Cultura, pensar os próximos dez anos de investimentos pra área. Eu gosto de fazer isto em tempo de eleição: pego um táxi, o taxista tem opinião sobre todas as áreas e todas as propostas dos governos, pra saúde, educação, saneamento. De cultura, ninguém tem opinião nenhuma. Porque a indústria acostumou a gente a entender a cultura como um investimento privado. Tem artistas, inclusive, que acham ainda hoje absurdo ter investimento em cultura com dinheiro público.

PAS: Jornalistas denunciam como se fosse crime.

MK: Eu falo: se fosse construir um hospital você seria contra? Se fosse pra fazer um tratamento de esgoto seria contra? Não. Por que se for construir um teatro é contra? Por que investir numa ação na área de cultura é errado, se isso é um direito constitucional, e se é dever do estado cuidar disso?

PAS: É como plano de saúde que não quer cobrir atendimento psicológico, como se fosse frufru.

MK: Exatamente, tanto que isso se reflete nas secretarias de cultura da grande e esmagadora maioria de prefeituras no país inteiro, não só nos interiores, nas capitais também. É um cargo de perfumaria.

PAS: Em São Paulo, temos agora Andrea Matarazzo, que é secretário estadual de Cultura, mas não se sabe de uma grande ligação dele com a área.

MK: Fazem política de eventos, que não é política de cultura – quando não é política de balcão mesmo. Se for de eventos, menos mal, porque tem um calendário, mas não é uma política efetiva. Antes do Gil, a gente tinha uma política de balcão, totalmente entranhada. A recusa da Ancinav (agência reguladora proposta no início do primeiro governo Lula e amplamente rejeitada como “dirigista” e “stalinista”) reflete isso, o discurso do manifesto do Luiz Carlos Barreto era exatamente este: vai pulvrizar nosso dinheiro. Meu amigo, vai pulverizar, sim, vocês não estão sozinhos, o Rio de Janeiro não está sozinho. O resto país quer fazer, está fazendo, e tem o direito de acessar esses recursos

PAS: Quando e como surge a Cooperativa da Música de Minas?

MK: Foi fundada em 2007. Vejo como um desdobramento lá do Reciclo, quando a gente se juntou, fez uma ação cooperativa sem saber que estava fazendo. A cooperativa não tem nenhum tipo de restrição, mas, por contiguidade, o tipo de gente que vai entrando tem esse perfil nosso: trabalha ou quer viver profissionalmente da música, muitos já têm uma carreira, um disco, dois discos, têm uma perspectiva de ampliar e criar circuito. A cooperativa foi uma das principais fomentadoras do programa Música Minas, que é ação do Fórum da Música, a gente conseguiu mobilizar um edital de passagens pra mandar músicos pro mundo todo. Nesses dois anos de programa a gente já mandou mais de cem artistas pra todos os continentes. A cooperativa hoje tem 300 e poucos filiados.

PAS: Todos músicos?

MK: Não, músicos, jornalistas, designers, técnicos de som, roadies, todos da cadeia da música. Pra um jornalista ser filiado, por exemplo, ele tem que apresentar um clipping de que faz um trabalho de crítica na área de música. Seria quase um suicídio querer fazer só com músicos, não funciona. A maior parte dos que trabalham hoje efetivamente do que a gente chama de núcleo durável são produtores, jornalistas e pesquisadores. Hoje na diretoria somos só dois músicos. É difícil conciliar.

PAS: Eu queria chegar nisso. Você concilia as duas atividades, ambas intensamente. Muitos artistas dizem “não posso, preciso cuidar da minha arte”…

MK: Eu tento conciliar. Por exemplo, a gente ajudou a organizar o evento aqui, e eu não me furtei a apresentar meu show também, porque é o trabalho que eu faço. Fiz uma turnê pelo Nordeste em maio, e comprei uma passagem da Giro TAM, um programa da TAM que viabiliza você comprar uma passagem até o destino final e pingar em algumas cidades, pagando só um trecho. Com R$ 400, consegui comprar uma passagem pra Natal, e parei em Salvador, Maceió e Recife. E articulei shows nessas cidades. Fui sozinho e consegui músicos e participações em cada uma dessas cidades. A divulgação, a produção e a articulação foram feitas pelos fóruns e cooperativas, com apoio inclusive do Fora do Eixo na divulgação. Num edital que a cooperativa lança, não participo, já estou excluído. Mas, como figura de frente, eu sou a pessoa que estabelece os contatos. Não sou hipócrita, sou músico, vivo do meu trabalho. Fiz o lançamento de um aplicativo pequeno, que ainda está em processo de construção, mas a gente resolveu botar ele durante a turnê, que teve repercussão na mídia também por esse detalhe. Mas é difícil conciliar.

PAS: É um sacrifício?

MK: Eu tenho o maior prazer, porque eu não queria fazer outra coisa. Foi isso que eu escolhi. E a forma de viabilizar a minha carreira passa por aí. Se a gente não fizer ninguém vai fazer, saca? E eu sei que vou colher esses frutos também.

PAS: A impressão que dá é de uma estrutura bem organizada que se construiu com grande rapidez. Já estão fazendo um congresso de cooperativas.

MK: É muito rápido porque a gente já tinha um acúmulo de experiência do fazer. Isso tanto a gente quanto o pessoal do Fora do Eixo tinha muito claro: nós não queremos estar na grande indústria. Um termo que a gente costuma usar é contraindústria, no sentido até de recuperar aquele sentido da contracultura, de uma desobediência civil, um posicionamento aguerrido. Isso sempre esteve muito claro. A gente não esá construindo carreira independente pra ser trampolim, pra ser descoberto. Em Minas, a gente viu gerações se frustrando porque ficavam esperando Roberto Carlos bater na porta da casa e falar: “Você é genial, eu vou te gravar”. A gente sempre ficou muito de olho em dois modelos, Pernambuco e Bahia, porque são dois modelos fora do eixo, fora da grande indústria.

PAS: De modo concreto, como a sua experiência política repercute no seu ofício, que é fazer música?

MK: O meu disco anterior tinha uma pegada muito política, explícita. Inclusive, em algumas situações, teve uma resistência a isso, porque parecia panfletário. Acho ainda pertinentes as falas que coloquei ali, Subcomandante Marcos, Glauber Rocha, Hugo Chávez. Mas principalmente a do Chávez teve uma espécie de patrulhamento, tanto à direita, de me associar diretamente àquela esquerda comunista, quanto à esquerda, de achar desrespeitoso, porque é uma música que falo de rimar pau com boceta.

PAS: Como você definiria o trabalho que você mostrou ontem no show?

MK: O mote do disco tem um sentido político, mas está um pouco mais diluído. Está um pouco menos na frente. Tenho tentado separar um pouco as coisas. Não separar no sentido de negar, mas não quero que o palco seja um palanque pra defesa de uma política que vou defender lá no colegiado setorial da música. Mas a política está presente de uma forma até inconsciente.

PAS: Deixa eu dar um exemplo. Tem viola caipira, e ontem, na circunstância de faltar o som nela, você teve a chance de dizer que a viola é discriminada nas cidades grandes.

MK: Tenho vários amigos violeiros, hoje a viola reverteu isso. Tem o movimento dos violeiros, acho às vezes até meio chato que a viola tem que ser do mato. É um instrumento, e você usa ele, e ele pode estar dentro de uma banda de rock pesado. Mas tem esses pequenos preconceitos, como teve com a guitarra. São casos inversos, mas complementares.

PAS: A princípio, a guitarra tinha ganhado, mas agora não dá pra ter tanta certeza assim.

MK: É, eu tenho uma crítica àquela viola de raiz, já pensei em fazer um disco só com sons de viola urbana, imitando uma impressora a jato de tinta (risos), só tirando uma onda dos violeiros. É um instrumento versátil, que se presta a muitas coisas.

PAS: Noutro momento você diz: “Vou fazer uma ciranda agora, na verdade nem sei se é uma ciranda”. São elementos de identidade que está usando de modo livre, não pra reproduzir o que na verdade você não é.

MK: Nesse disco eu trabalho com muitos motes e ritmos que absorvi, mas nunca fiz uma oficina de ciranda pra saber, nunca fui estudar ijexá. Me sinto à vontade pra me apropriar disso da forma como eu entendo.

PAS: Mas você está interessado em fazer isso, podia estar interessado no grunge.

MK: A música “Santeria” eu fiz imaginando que estava fazendo uma rumba, um ritmo caribenho. Aí mostrei pro Guinga, e ele falou: “Isso não é uma rumba, é um galope sergipano” (ri). No final das contas, a gente já tem essas matrizes todas aqui, e essa bobagem de dizer que isto é de fora e isto não é de fora… Na verdade, tudo é de fora, toda a cultura armorial do Ariano Suassuna veio de fora, foi importada.. Ao mesmo tempo, isso não deixa de ser nossa. Essa apropriação me interessa muito, e não tenho o menor constrangimento de pegar uma métrica como o martelo e botar dentro de uma melodia que não é característica dessa métrica. Ou usar uma melodia de aboio e botar uma letra que não tenha nada a ver com aquele universo. Tenho uma referência muito forte com relação a isso, que é o Bráulio Tavares (autor de sucessos de Elba Ramalho e Lenine). Ele faz essa transposição muito bem, entre a cultura popular, o pop, o erudito.

PAS: Pergunto à queima-roupa: existe uma escola João Bosco de música brasileira? Vi o fantasma dele lá no show…

MK: (Ri) É uma referência forte, na coisa de não ter uma formação acadêmica. Gosto muito da percussão do violão do João Bosco. Os dois violonistas que não são necessariamente violonistas, mas que mais me influenciaram foram João Bosco e Gilberto Gil. Aquela fase do Gil de Expresso 2222, aquele violão ponteado, e no João Bosco a percussão, o loop e o ostinato que ele usa no violão são referências muito fortes. E claro que é filtrado pela minha deficiência como músico, mas também pela influência da escola mineira. Meus parceiros todos têm essa coisa da harmonia, a referência do clube da esquina, do Guinga, do Tom Jobim: Chico Saraiva, Kristoff Silva, Mário Seve.

PAS: Gilberto Gil é o tropicalismo, Milton Nascimento é o clube da esquina, mas o que João Bosco fez não teve um nome. E é tão característio, e particular – e mineiro, afro.

MK: Minas é o segundo estado com maior população afrodescendente do país. E os africanos que vieram pra cá, ao contrário da Bahia, que recebeu muito iorubá, foram africanos bantos, que são muito diferentes, é outra conversa, outra relação com a música, outra língua, os gestos, a expressão. Isso tem uma influência muito forte no interior, o João é de Ponte Nova e estudou em Ouro Preto, como eu também estudei. A relação da população negra da cidade é muito forte, porque os negros de Ouro Preto vivem na periferia, nos morros, e frequentam o centro histórico como trabalhadores. E essa relação é tensa, muito forte, o João traz muito isso. Ele e o Aldir Blanc, que é uma referência muito grande também.

PAS: Eu ia falar isso, não está certo falar escola Bosco, devia ser Bosco-Blanc. Sua poesia não tem a ver com a do Aldir Blanc, mas em alguns momentos também remete, de algum modo.

MK: Pra mim, se for pensar em alguns letristas de referência, numa linha temporal, é Noel Rosa, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Torquato Neto, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Bráulio Tavares, Arnaldo Antunes. Paulo Leminski também foi importante pra mim, de fazer esse gancho, como Alice Ruiz ele hoje estaria muito mais ligado à música que à poesia.

PAS: Aldir tem uma temática com “os bóias-frias”, uma proximidade verdadeira do que seria uma poesia popular. Quando você se aproxima do rap, por exemplo, ou dos catadores de papel, está tentando algo parecido? É pra ser popular ou não é? Noutro momento você brinca com um refrão: “Vou fazer um refrão fácil e vocês cantam comigo”, e canta um refrão superdifícil, que não decorei até agora (risos). Qual é essa provocação?

MK: É uma brincadeira, isso de tirar uma onda do público é um pouco do Tom Zé. A gente faz uma música que não é necessariamente pra dançar, pra embalar romances. É uma música pra pensar, não que seja intelectual no sentido mais puro do termo. Mas é pra despertar alguma reflexão, é como eu ouço música. Olha que sacada legal, de alguma forma a gente está pensando através da música, né? E esses comentários são uma forma de tentar dar um clique, olha, peraí, ele está falando comigo?

PAS: Por outro lado, chegou o baixista, você chamou dois parceiros nordestinos, de repente eram seis caras no palco cantando uma melodia linda, que dava pra cantar junto, falando que “esta ciranda é pendular”, o que não é um linguajar habitual da música popular.

MK: O Aldir tem toda a erudição dele, ele insere nas músicas às vezes até de uma forma pedante, em muitas parcerias com o Guinga, fica citando frases em francês e inglês. Eu acho chat, mas mesmo assim às vezes ele cria termos que viram…

PAS: “Band-aid no calcanhar”.

MK: “Band-aid no calcanhar”, viram expressões. Isso pra mim é genial, a grande realização do compositor. O Aldir é extremamente feliz nessas soluções, “de frente pro crime”, essas expressões que ele consegue criar numa música extremamente sofisticada, até difícil do ponto de vista formal – é difícil tocar João Bosco. E ao mesmo tempo de uma ironia, “quem dá sardinha em plena beira do mar é coqueiro”, umas sinapses absurdas que levam um tempo, você percebe, mas não consegue entender racionalmente, entende quase intuitivamente no momento que ouve. Isso eu busco, todo mundo busca, conseguir fazer com que o público crie sinapses. Nessa ciranda uso uma melodia muito característica das cirandas, dou uma desvirtuada e faço uma associação e ideias que é muito comum na poesia. A ciranda é circular, ela lembra um sonar que bate e volta e um pêndulo. Ela tem o movimento das ondas, né? A ciranda tem os dois movimentos, porque ela gira, mas ao mesmo tempo o movimento dos braços lembra uma onda, vai e volta como um sonar, mas ao mesmo tempo é pendular.

PAS: A letra mais instigante, pra mim, é a que fala que o perigo é prazeroso. Como é mesmo?

MK: “Código Aberto”.

PAS: O título, por sinal, entra em vários territórios, de copyrights, copylefts…

MK: (Recita) “Sei que a vida é um código aberto/ mas eu sei que viver é perigoso/ nunca houve uma época segura/ o perigo também é prazeroso/ não se pode viver é na paúra”.

PAS: Essa mania que temos de reclamar, “ah, como a violência aumentou ultimamente”…

MK: Se você estudar um pouco de história, vai ver que a humanidade sempre foi cruel, sempre cortou cabeças. Aí eu cito o Guimarães Rosa, que viver é perigoso. Se você está vivo e se recolhe, está muito mais seguro, mas também abre mão de um monte de prazeres. É um círculo, o prazer é perigoso.

PAS: E o perigo é prazeroso.

MK: O perigo é prazeroso, injeta adrenalina. Estive duas vezes já no Acre, li que foi inaugurada a estrada transoceânica, terminaram a última ponte que liga o Brasil ao Oceano Pacífico. A matéria dizia que é uma viagem muito interessante, mas é perigosa. Aí dá muito mais vontade de fazer, imagine sair do Brasil, atravessar a floresta tropical, entrar nas cordilheiras, atravessar os Andes e chegar no Pacífico. Um sonho de gerações. E poder ainda desbravar uma estrada quase virgem, que ainda não foi desbravada. É instigante, muito mais que viajar pela Route 66. Essa música é um martelo, que é uma estrutura tradicional, e é um tema pouco usual para trabalhar num martelo, código aberto, que é uma metáfora pra própria vida. É um pouco o que o Bráulio faz muito bem, pegar a ficção científica e botar num cordel, e misturar esses códigos.

PAS: Zé Ramalho, antes, também fazia isso.

MK: É, ele é muito amigo do Zé Ramalho, são parceiros. É o que Zé Limeira já fazia também, o absurdo, a hipérbole, aquelas situações.

PAS: Sobre prazer perigoso e perigo prazeroso, fazer música e política ao mesmo tempo é perigoso? É arriscado?

MK: Tem muitos riscos, principalmente pra carreira musical. A política é um terreno muito pantanoso, e mais que isso, existe um estigma negativo. Semana passada estávamos em Brasília, na reunião da frente parlamentar da música, estavam o Frejat, Fernanda Abreu e Sérgio Ricardo. Foi um dos encontros mais curiosos que já tive, porque o Sérgio Ricardo é um cara marcado profundamente pela atitude política sem querer. Aquela atitude dele (de quebrar o violão no festival) em 1967 marcou o resto da vida dele, e não tinha como ele não ter uma atitude política. De alguma forma, ele está retomando esse engajamento com o manifesto G.R.I.T.A., e já gerou uma polêmica, porque ele é amigo do Chico, o Chico assinou, depois pediu pra sair, criou uma indisposição com o MinC. A Ana complicou a vida do Chico, né (risos)? Acho saudável botar o Chico na roda, ele fica numa situação muito confortável, de unanimidade.

PAS: Mas qual foi essa história?

MK: O Sérgio Ricardo lançou o manifesto, um pouco romântico, a gente até falou: “Olha, Sérgio, a gente já está fazendo um monte dessas coisas aí, vamos chegar junto, vamos tentar alinhar o discurso”, eu almocei com ele nesse dia. Ele leu o texto super romântico, no bom sentido até, com intenções nobres, mas falando de coisas que são de um outro tempo. É um cara que está aí, tem vários filmes fundamentais, A Noite do Espantalho, O Menino de Calça Branca, fez a trilha do filme do Glauber, é pintor. É uma referência de uma possibilidade.

PAS: …Que foi muito desqualificada ao longo das últimas décadas.

MK: Foi. O Chico assinou, porque é amigo do Sérgio, mas parece que teve uma chamada da irmã… Tiraram a assinatura dele, e isso deu mais visibilidade: por que o Chico tirou? O ministério está sendo questionado, está tendo crítica, não pode criticar? Se um Buarque de Hollanda critica…

PAS:É o mesmo que falávamos dos tucanos de Minas e de São Paulo.

MK: Exatamente. Mas acho saudável ter essa discussão, colocar na roda, e é muito legal ter vindo do Sérgio, que é um cara muito respeitado pelos pares dele, apesar de tudo.

PAS: Ele é? A imprensa não respeita, nem toma conhecimento.

MK: É, é aquele tipo de caso, como diz o Luís Nassif, de assassinato de reputação. Pete Townsend pode quebrar a guitarra, mas esse cara não, é considerado um vândalo até hoje. Pelo amor de Deus.

PAS: Eu perguntei sobre perigo e você associou com Sérgio Ricardo. Você pode ser estigmatizado por fazer política num lugar que supostamente não era pra fazer?

MK: E do outro lado as pessoas acharem que você está se beneficiando dos canais, que deve estar recebendo dinheiro do ministério. Você acaba sendo muito mais policiado, e acaba tendo que ter uma posição muito mais reta. Tem que se resguardar mais, o processo é muito mais melindroso.

PAS: Por que o primeiro encontro das cooperativas musicais está acontecendo no Acre?

MK: Estive aqui no final do ano passado pra falar sobre o fórum e as cooperativas, e eles tinham uma estrutura toda já montada, a secretaria com a fundação, o Sebrae, o governo do estado, a prefeitura. Pra eles o que faltava era uma entidade da música organizada, tinha essa lacuna no organograma. Falei: “Mas a situação é muito mais favorável, em quase todos os outros estados não existe um alinhamento como vocês têm aqui. Vocês estão com tudo na mão”. Um mês depois eles criaram e foram pra Belo Horizonte já como cooperativa. Viemos em maio discutir, quando chegamos na reunião estavam o gabinete do senador Jorge Viana, do governador, o secretário de cultura, o presidente da fundação, o secretário de pequenos negócios, o presidente do Sebrae. Eu não consigo, nem pra cultura, muito menos pra música, menos ainda pra cooperativa da música uma pauta com o governo de Minas com uma antecedência mínima de seis meses. A gente não tem esses acessos. Aqui eles têm um governo com uma ação exemplar no âmbito social e cultural, dizem que o PT aqui é o PT que deu certo.

PAS: E foi aqui que o PT e Dilma tomaram surra na eleição passada, não foi?

PAS: Eles quase perderam. É sintomático. E ao mesmo tempo o senador Jorge Viana, que foi governador, tem prêmios internacionais, é reconhecido. Independente disso, a gente achou simbólico trazer uma ação dessa pra cá. Imagina, o Acre tem muita gente que duvida até que existe.

PAS: Uma piada de mau gosto.

MK: De mau gosto, pejorativa. A gente trazer pra cá e mostrar como o Acre está preparado… A gente apoiou imediatamente, porque pra gente é um modelo, mostra que não precisa muita coisa, é vontade política. E é uma forma de chamar atenção pra essa articulação que está surgindo hoje na região Norte, que por muito tempo ficou à parte. Aponta pra nossa vontade de integrar realmente o Brasil inteiro, o que as gravadoras nunca fizeram.

PAS: E é a terra do João Donato.

MK: Terra do João Donato!, eles inclusive gravaram um DVD em homenagem a ele aqui, quando eu estive da outra vez ele estava aí gravando.

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