Eu tinha recém-terminado de editar a entrevista de Marina Lima para o iG quando recebi a notícia da morte súbita de minha mãe, dona Zaira, lá em Maringá (PR).
Tudo é esquisito demais – “esquisito” é a palavra que mais me ocorre e recorre nestes dias -, e a lembrança de Marina associada à da minha mãe ganha, nesse contexto, um ar de esquisito dentro do esquisito.

É esquisito inclusive porque havia um trecho em que Marina falava sobre a dor da morte, mais ou menos recente, da mãe dela. E, na hora de editar e reduzir o texto para o iG, esse foi um dos trechos que elegi para, sem sequer raciocinar, excluir do texto final.

Da parte de Marina, ela falava doce e dolorosamente sobre a perda da mãe. Descreveu-a como uma mulher que soube aproveitar a vida, que viveu muitíssimo bem por cerca de 80 anos – e pessimamente nos últimos 7, por conta de limitações físicas que a colheram na etapa final.

De minha parte, é estranho contrastar as duas mães: a minha viveu com mais limitações, de forma que nunca me pareceu plena ou próxima disso, mas ao final ela “escolheu” não se deixar apanhar pelas limitações que a mãe de Marina conheceu. Morreu ativa, altiva, quase alegre. Nem se despediu de mim. :,-(

O mais desconcertante no contraste foi perceber quanto eu estive disposto a ocultar a morte da mãe (da Marina, minha, de qualquer mãe), mesmo quando ela esteve esfregada no meu nariz, no próprio dia em que ia acontecer com minha mãe.

Feito o preâmbulo, segue abaixo um outro trecho inédito, mas mais leve e menos sorumbático, no qual também coloquei (como nas linhas acima) minhas identidades em contato direto com as de Marina.

Marina é uma artista bastante interessante, por muitas razōes, e também por esta de permitir e incentivar uma troca mais direta e menos mascarada entre entrevistada e entrevistador, entre compositora e jornalista, artista e, er, crítico (não!, não sou isso!, não quero ser). Marina, diferentemente da maioria dos artistas, parece gostar dos críticos – ou, no mínimo, não faz questão nenhuma de esconder seus gostos.

Vaí aí, então, o momento “artista x crítico”, ou “artista & crítico”, com meu agradecimento especial a Marina, por ter me feito companhia, primeiro real, depois virtual (na hora de editar), num momento que eu ainda não sabia que era de forte solidão, & companhia – sim, porque dona Zaira, danadinha, era popular à beça, levou uma pequena multidão ao seu último encontro. :,-)

marinalima.com.br

Pedro Alexandre Sanches: Falando um pouco sobre seu show na Virada Cultural, semanas atrás, houve um estranhamento ali, não?

Marina Lima: É, o som estava muito ruim, cara. Pô, Pedro, eu entendo Tim Maia pra caralho (risos), entendo João Gilberto pra caralho!

PAS: Na hora pensei isso mesmo: “Ela está dando uma de Tim Maia”…

ML: Depois que saí da obrigatoriedade de estar ali, de estar fazendo show, isso me libertou. O que eu mais prezo é a música, é onde está tudo de melhor que posso dar. Quando o som está ruim, fico pensando assim: “Como posso estar aqui e não trair essas pessoas, estar aqui inteira pra elas e não ficar aqui fingindo que estou quando estou cagando, e também não trair e dizer que isso está desconfortável? É compartilhando o que está acontecendo. Se eu ficar fingindo, é uma arrogância também: “Ê, que legal, estão gostando?, não tô nem aí!”. Eu não quero isso, quero estar ali, quero mostrar meu trabalho. Aí o som está uma merda, e aí? Digo, “pô, o som tá ruim”, eu começo a tentar, pra eu não fazer assim, “vum!”, ir pra outro lugar e ficar ali minha clone. Não quero minha clone, quero estar eu ali. Mas se ficar num ponto impossível, não dá, ou eu compartilho, ou fico pressionada. O som estava muito ruim, mas a alegria de estar ali era enorme.

PAS: Fazendo uma crítica cara a cara a você, o que é uma coisa rara: você meio já desmontou meu argumento, mas o que eu senti na hora foi: puxa, Marina está se autossabotando, diante de um público especialíssimo, gratuito, e ela se mostrando irritada…

ML: Não, que nada. Eu estou mostrando pra ele que eu sou assim. Eu não quero enganar ninguém, Pedro, não quero enganar ninguém. Não quero prometer nada que eu não possa fazer. Quero dar o melhor de mim, se eu ficar mal-humorada… Não quero “aproveitar que está ali”. Eu aproveitei mesmo, me comuniquei. Algumas pessoas podem não ter gostado, outras gostaram, é isso. As coisas não são tão simples, eu dou valor a isso tudo.

PAS: Estou vendo agora que a minha reação foi conservadora: o artista não pode demonstrar que está mal-humorado, se estiver.

ML: Ou mal-acostumado, né? Não está acostumado. Todo mundo finge tanto, artista é um fingidor. Eu não sou nada disso, não sou uma atriz, não sou. Pra mim, me dá muito trabalho, um trabalho prazeroso, olhar pra dentro e ver, cutucar, melhorar. Não sou aquela pessoa que faz três, quatro músicas por dia. Faço uma música a cada seis meses, pra mim aquele momento é muito importante. Só que tem um canal, o que vai te ligar à plateia é o som. Não vou estar ali sentada e dizer: “Estou aqui, vamos conversar”. Não é isso, é o som, se o som está ruim… Tem dois sons, o que o público ouve e o da monitoração, o que o João Gilberto reclama, o primeiro que vem pra gente pra gente gostar e dar o melhor.

PAS: Você tem que se ouvir pra poder se fazer ouvir, é isso?

ML: É, senão você fica ali fingindo.

PAS: Você está cantando e não sabe o que está saindo, só a gente está ouvindo?

ML: É. Se for assim, bota playback…

PAS: O que você está defendendo é que tem o direito e quer ser transparente com seu público?

ML: Eu tenho direito total.

PAS: Se não estiver dando certo você pode contar pro público? Brecht?

ML: Claro, quero ter o direito. Eu vejo o público como meu cúmplice. O público não é arena ou boi, eu não sou o toureiro, não é assim que eu vejo as coisas. Não é um campeonato, não é o público Fluminense e eu Flamengo. Não vejo assim. Acho que o público está ali pra ouvir e pra poder levar alguma coisa daquela arte que ele assistiu. E se tem alguma coisa interferindo, é melhor que eu consiga fazer para que o público entenda. É melhor do que eu ficar ali e não estar ali, pra mim é complicado isso. Eu não quero mais viver isso, estou com 55 anos, isso me angustia muito, essa coisa dual. Eu não aguento mais, prefiro poder…

iG: Sendo também transparente e falando como espectador: comecei adorando o show, aí começou a acontecer isso e eu pensei: “Ih, a Marina está brigando com a gente, acho que vou ali ver outro show”. E saí.  O que você sente quando um espectador reage assim?

ML: Acho que pode acontecer.

PAS: É normal, faz parte do jogo?

ML: Não é um jogo. A vida não é um jogo. A questão não é essa, não é um jogo assim. Pior seria eu estar ali e você ir embora na terceira música porque está sem graça, mecânico. É muito pior. Pior era você estar ali e não achar que tinha nada ali a não ser ir embora. Porque é o que ia acontecer, eu ia estar ali sem estar ali.

PAS: E eu, sentindo isso de algum jeito, preferi não estar ali?

ML: Claro, é um direito também.

PAS: Falando sério, agora me parece que a minha reação foi conservadora, tipo um não-me-toque, não posso ver isso explícito na minha frente.

ML: Não sei. Talvez. Mas é um direito que você tem, né?

PAS: E eu nem sei como foi o final.

ML: Foi ótimo. Pra mim foi muito importante, Pedro.

PAS: São essas modalidades novas, é raro também um cidadão achar que pode dizer pra um artista frente a frente que existem “os tais caquinhos”.

ML: Claro, claro! Isso mudou, melhorou. Pra mim foi assim, pra você foi assim, e não estamos aqui para ver quem ganhou o jogo. Não é isso, não é um jogo. Se a pessoa está ali ela já quer me ver, eu tenho que dar o melhor de mim. Mas pra mim, Marina, é eu conseguir dar a minha verdade ali. É sempre o melhor de mim.

PAS: Mas, também, o melhor de você se você estiver com vontade de dar?

ML: Mas eu estava! Não estava sem vontade, o problema é que eu não tinha meios de fazer. Então isso me deixava mal.

PAS: Tem momentos que o artista não está com vontade de dar o melhor? Como ele se sai dessa?

ML: Eu não sei. No palco não dá pra ser assim, não. No palco você tem que dar o melhor, senão você fica numa… Não me lembro de nenhum, mas me lembro que já senti isso, uma, duas ou três vezes na minha vida, sei lá. É uma sensação muito ruim, de que você é uma ventríloqua, que está ali fingindo. Pra mim não dá, não dá.

PAS: É sempre uma relação de espelho, não é? A plateia também pode não ser tão legal…

ML: Não, não é, não. Tem shows que a plateia está quieta (ri), um músico diz: “Hoje não foi tão legal”, e eu achei ótimo! Eu adoro que ouçam. Os timbres, as nuances. De um tempo pra cá, se institucionalizou que todo mundo tem que dançar e bater palma, eu não acho isso. Acho que é bom ouvir também, sabe? Então eu gosto quando tem silêncio também. Ao contrário, quando tem umas plateias mais atentas, aquilo é tão estimulante que eu quero mostrar que aquilo é bom. Isso tudo me estimula. Claro que quando tenho público bacana que está gostando de mim pra mim é maravilhoso. Fiz agora o CEU, fui em cinco comunidades na periferia de São Paulo que eu não conhecia. São lugares que são grandes, mas são pequenos, o som não é tão bom, mas foi muito bom. Foi muito bom ter feito.

PAS: Em que sentido?

ML: Um público que nunca tinha me visto, não teria nem como me ver se não fosse num projeto desses, da prefeitura. Cabiam mil pessoas, ou 800, por mais que o som não fosse tão bom, conseguia dar conta. Foi maravilhoso esse passo, a ponte se fez logo. Era gente que não conhecia minhas músicas, e na terceira música já estava estabelecida uma conexão. É a música, a música é foda. O público vê que a pessoa está ali de verdade, então se interessa, e adora música. Foi muito bom, uma situação que não estou acostumada a viver, tinha gente que conhecia “Uma Noite e ½”, mas não conhecia “Fullgás”.

PAS: Uma vez vi uma sessão de cinema num CEU, o público começou em festa, fazendo barulho, conversanso com o filme. Em poucos minutos, começaram a não gostar e foram saindo da sala em massa, sem cerimômia. É diferente cantar para um público que não está tão treinado para as convenções dessas situações?

ML: Mas é tão estimulante, cara, porque eu acredito na minha música. A maioria das canções é em português, eu converso, explico,  gosto, quero chegar, quero me comunicar. “Olha, quero mostrar uma música nova, é um rock, vocês querem ouvir? Se não posso tocar uma mais conhecida”, é assim. Você tem que se comunicar. E eles se abrem.

PAS: Como você disse, não é um jogo. É uma relação.

ML: É uma relação. Não é um jogo.

PAS: Como uma relação sexual, amorosa, de amizade?…

ML: Acho que é uma relação, pelo tempo que você está ali, de interesse, de não interesse, de despertar alguma coisa, não despertar nada, de atrair ou não atrair aquela pessoa.

4 COMENTÁRIOS

  1. Salve, Pedro. Lamento que o reencontro deste seu leitor contigo, agora nesse espaço, ocorra nessa circunstãncia arrepiante, pela coincidência da perda das duas mães: sua e da Marina. Estarei por aqui. Abraços.

  2. O Pedro é incrível, ele desfaz qualquer chance de uma entrevista ser óbvia. A Marina teve muita coragem de falar com se sente como artista.Sem as respostas sempre tão mentirosas. Vida de artista e o falso glanour de sempre. Muito boa a atução da da dupla.

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