A banda Luisa Mandou um Beijo precisava de 5 mil reais para gravar um novo CD. Os seis integrantes desse grupo carioca iriam tirar o dinheiro do bolso, como fizeram nos dois discos anteriores. Mas a vocalista Flávia Muniz, antenada nas redes sociais, surgiu com uma proposta diferente. Por que não pedir ajuda aos fãs? Com mais de dez anos de estrada, valia a pena arriscar.


Foto Diego Gonzalez

Em dois meses, o grupo arrecadou R$ 5.986 de 79 apoiadores no site Catarse, e se tornou um dos cinco projetos bem-sucedidos de música. A Luisa Mandou um Beijo se saiu melhor até que a-mais-que-comentada A Banda Mais Bonita da Cidade, que decidiu pedir apoio do público para gravar doze músicas – só “Oração” (sim, todo mundo já ouviu falar dela) conseguiu recursos para entrar no novo disco. No total, o serviço de financiamento colaborativo (do inglês, crowd funding) possui onze projetos musicais. “Acho importante destacar que não estamos pedindo esmola. É uma troca com os fãs. O artista oferece recompensas em troca das contribuições”, explica Fernando Paiva, guitarrista da banda.

Os 79 fãs vão receber um mês antes do lançamento algumas das músicas que misturam pop-rock e indie, as influências principais da Luisa Mandou um Beijo – o que, a banda espera, pode ajudar na divulgação do trabalho. Já que eles vão obter em primeira mão a obra, por que não distribuí-la pelas redes sociais? E isso de forma legal, já que todas as composições da banda são licenciadas pelo Creative Commons.

Cada apoiador decidiu o valor da colaboração. Duas pessoas deram R$ 500. Um deles foi Rodrigo Lariú, dono da gravadora independente Midsummer Madness. O outro é fã mesmo. Os dois terão direito a ver um show privado por Skype ou MSN e um ensaio, cinco músicas antecipadas, autógrafos e outras coisinhas mais. Quem colaborou com menos terá direito a prêmios menores. Para valores a partir de R$ 50, serão três faixas em mp3, nome incluído no encarte e no site da banda e o disco enviado pelos correio.

A ideia de buscar apoio financeiro de fãs não parece ser uma tendência que vai revolucionar a indústria da música. Mas não faria mal algum. O que aconteceria se nomes como Chico Buarque, Tom Zé, Caetano Veloso ou Maria Bethânia, só para citar algumas estrelas, partissem para uma empreitada dessas?

Num outro ponto dessa cadeia, bandas como Asa de Águia, Cavaleiros do Forró e Calcinha Preta dão CDs para seus fãs em vez de cobrar por eles. O valor justo de um bem cultural é uma equação de difícil solução, mas com o financiamento colaborativo a opinião do público começa a ser levada em conta. “Honestidade e transparência são fundamentais para projetos como esse”, afirma o guitarrista da Luisa. “Se pensar bem, a administração pública é baseada em crowd funding, mas ela é mandatória, por meio de impostos. Os cidadãos não têm direito a acompanhar de maneira clara o uso dos recursos, infelizmente.”

No site Catarse, já conseguiram recursos para seus projetos Carlos Careqa, Kika Lisboa, Villa-Lobos Injazz e Movimento Elefantes. A maioria dos valores pedidos não ultrapassa R$ 10 mil. Uma das exceções é Marianna Leporace, que quer R$ 12 mil para a produção do show de lançamento de “Interior”, seu décimo álbum. Por enquanto, 60 pessoas a apoiaram (57% do valor solicitado). Ela tem ainda 30 dias para alcançar esse objetivo. Caso contrário, os apoiadores receberão o dinheiro de volta.

O guitarrista Emiliano Sampaio, do Projeto Meretrio, que faz parte do Movimento Elefantes, vê o financiamento coletivo como uma boa saída para grupos com dificuldade de se firmar no mercado. O grupo surgiu em 2003, com formação de guitarra, baixo e bateria. Cinco anos depois, um sexteto de sopros foi incorporado ao power trio, completando um noneto. O som mudou e as dificuldades da banda também. Se um trio toca em qualquer barzinho, abrigar nove músicos numa casa de espetáculos é outra história. E o mesmo cachê tinha de ser dividido com mais músicos.

Em 2009, outras big bands compartilhavam problemas parecidos. Elas decidiram, então, se reunir e formar o Movimento Elefantes, cuja inspiração é o coletivo venezuelano Movida Acústiva Urbana, de Caracas. Aqui, reuniram-se dez grupos musicais, alguns com muitos anos de estrada e outros ainda novos.

“Agora conseguimos tocar com alguma regularidade. Melhorou a divulgação. Mas continuamos não ganhando nada”, afirma Emiliano. Cada um dos dez grupos se reveza para tocar, de graça, no Teatro da Vila, na Vila Madalena, em São Paulo, nas noites de segunda-feira. Na base do boca-a-boca, virtual ou real, o espaço vem ganhando um público cativo, que mistura jovens, músicos e até os mais velhos.

Para continuar divulgando o trabalho, o coletivo vai lançar agora o “CDê”, que reunirá uma música de cada big band. Eles pediam R$ 1.980 para prensar mil cópias do disco, mas arrecadaram R$ 2.502. Como a ideia está mais para socialismo do que para capitalismo, o dinheiro a mais virou uma fornada extra de mil álbuns. Assim, os 77 fãs que apoiaram o projeto não só vão receber o disco em casa como bancarão a divulgação dele para outras 1.923 pessoas.

3 COMENTÁRIOS

  1. O beijo da Luisa é mais bonito que a tal da banda bonitona… mas bacana mesmo é essa ideia do crowdfunding. A gente patrocina o que a gente gosta ou no que acredita, independente de alguma gravadora, industria ou agência indique.

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