na carta capital 344, de 1 de junho de 2005, o focalizado foi lobão, essa trombeta da república entrincheirada nos domínios da canção popular. acho que todo mundo sabe que admiro e respeito o cara, tanto musicalmente quanto pelas “horas extras” em que ele chama os seus na chincha, em que ele descarna o constrangimento geral para consumo envergonhado dos acomodados. mas, putz. eu não queria dizer isso, nem pensar isso, mas… relendo o título dessa entrevista, “o sucesso do excluído”, foi inevitável materializar em minha mente cansada a imagem desagradável de bob jeff.

mas, não, atenção!, lobão é outro papo. saca só:

O SUCESSO DO EXCLUÍDO
Acostumado ao isolamento, Lobão tem de se readaptar às vitórias

Por Pedro Alexandre Sanches

“Às vezes eu me sinto um fantasma” e “não há estilo sem fracasso”, canta Lobão em seu novo CD, Canções Dentro da Noite Escura. Aos 47 anos, o cantor, compositor, agitador e rebelde profissional se refere a si mesmo como um “isolado”, um “exilado” – “eu estou morto” é frase que repete ao menos três vezes, numa entrevista de três horas.

Refere-se ao conjunto de circunstâncias que o colocaram num lugar à parte do cenário musical brasileiro, a que já chamou de “universo paralelo”. Após um auge de sucesso com a geração pop-rock dos anos 80, Lobão cumpriu trajetória acidentada de prisão por porte de maconha, fuga do País, rompimentos com quase todas as grandes gravadoras instaladas no Brasil, mil e uma desavenças com a classe musical…

Nesse registro tempestuoso foi se dando a reconstrução de sua figura pública, que nos anos 90 se consumou como uma (ou, possivelmente, a única) metralhadora giratória incansável contra as gravadoras, os artistas acomodados, a televisão, o jabaculê e a corrupção na indústria fonográfica… “Eu estaria morto hoje se não falasse” é outra frase que ecoa ao menos três vezes durante a entrevista.

O sentimento de desajuste persiste e freqüenta toda a ossatura de Canções Dentro da Noite, todo sombrio e soturno e dominado pelo rock setentista entre Led Zeppelin e Pink Floyd e por intervenções de MPB, bossa nova e eletrônica, de que a bossa furiosa Pra Sempre Esta Noite é o exemplo mais bem resolvido.

Mas alguma coisa mudou nessa história. Um punhado de fatos recentes concorre para desmentir a opinião de Lobão sobre si. Hoje leva a duras penas um selo próprio e uma revista sobre música, Outracoisa, que difunde nas bancas de jornal, ao largo das gravadoras, discos de artistas independentes de cepa como Mombojó, BNegão e Cachorro Grande (todos fãs das atitudes do mestre) – e, desta vez, seu próprio CD.

Desde o êxito de sua campanha pela numeração obrigatória de discos pelas gravadoras, Lobão vem ampliando conexões com o Poder Legislativo e o governo federal, do Ministério do Trabalho ao Ministério da Cultura.

Inusitado é o fato de que, agora, Lobão é apresentador de programa na tevê aberta – o talk show Saca-Rolha, dividido por ele com Marcelo Tas e Mariana Weickert, vai ao ar de segunda a sexta, às 22h30, na recém-reformulada Rede 21.

O que sua metralhadora giratória cospe sempre ecoa na imprensa, mesmo sob ressalvas, como as que o jornal O Globo lhe dirigiu há poucos dias, reclamando do discurso “gasto” contra bossa nova, Caetano Veloso e axé music – mas divulgando-o na capa de seu caderno cultural.

O Globo ecoava, ali, uma noção corrente nos bastidores da indústria fonográfica, de que a rebeldia virulenta de Lobão seria uma forma peculiar de marketing, estratégia dele para se manter presente no cenário musical, mesmo rompido com (ou boicotado por, como ele prefere) gravadoras e colegas. “Você ainda dá ouvidos a Lobão?” é frase corrente de detratores ocultos no bastidor, ouvida (e dita) repetidas vezes por jornalistas de música.

Constatado o relativo êxito da ilha independente que ergueu sozinho (e do qual tem ciência), Lobão uiva: “As pessoas, no país da fofoca, odeiam opinião. Estou dando a minha opinião, e não vou deixar de dar. Se é positiva ou não, ela é a minha opinião. Isso não é marketing, positivamente não é. Dizer isso é uma forma de despotencializar minha opinião”.

Marqueteiro de si próprio? “Ninguém fala que marketing é o grande jabá. Marketing da pior espécie é pagar para tocar na rádio, é se fazer de bom moço e ficar cumprimentando nos bastidores hipocritamente seus colegas, ‘parabéns pelo seu trabalho’, para pertencer a uma comunidade corporativista. Isso sim é marketing. Em termos de dividendos, não ganho nenhum falando o que falo. Ao contrário, só ganho antipatia”, vocifera o lobo.

Sim, marqueteiro de si próprio. “Então tá bom, vamos supor que seja marketing. É marketing. Agora vamos para a questão. E o que estou falando? Existe ou não existe? ‘Ah, Lobão é invejoso’, ‘Lobão toma muitas drogas’, ‘Lobão faz marketing’. Tá, mas e o que estou falando? É pertinente ou é loucura? O tempo todo ficam passando ao largo do que falo? Alguém diz que esse discurso está errado? Não rola, fica todo mundo saindo pela culatra”, morde o lobo mau que, no novo CD, ensaia brincar de lobo bom (“não sou lobo louco, não/ eu brinco de polichinelo com o bobo coração“) e até mesmo de Chapeuzinho Vermelho (“pela estrada afora/ eu vou/ com a alegria de uma aventura“).

Talvez ainda se sinta desacostumado às evidências de que, mesmo com tanta oposição subliminar, sua opinião tem sido sistematicamente ouvida – e muitas vezes virado realidade, como nos casos do desmonte da grande indústria fonográfica, da falência do pop de mero marketing, da prosperidade da música independente.

Talvez por isso o disco, composto nos últimos quatro anos, apresente certo déficit em relação à sua real presença atual. Talvez por isso o CD se cerque do culto a artistas mortos de sua geração – Lobão reata parcerias inéditas (ou semi-inéditas) com o arauto Júlio Barroso e com Cazuza (“para dizer a verdade, eu não entendi muito a letra dele”) e homenageia Cássia Eller (em Boa Noite, Cinderela).

“Perdi essas pessoas que tinham tanta vida, enquanto ironicamente se vêem vários cadáveres insepultos transitando incólumes por aí. É um modo de eu, sendo o único que está restando dessa turma, puxar vida daquilo”, tenta explicar. De volta ao marketing. “Cazuza disse: ‘Precisou eu pegar Aids e Lobão ir para a cadeia para a gente ter alguma notoriedade’. Então isso é marketing? Será que ele pegar Aids é marketing? Falaram que eu ser preso era marketing, o que passei na cadeia foi marketing? Ou será que a gente corre risco? Eu corro, corro mesmo.”

Por baixo dos véus da rebeldia, as águas vão ficando mais profundas. Se sempre se referiu de modo pândego à prisão em 1987, hoje o falastrão pode descrever um pouco daquela barra-pesada: “Fui mascote do Comando Vermelho. Me enredei, me envolvi emocionalmente com os caras, aprendi a atirar com as armas deles. Vi amigos morrerem, vi o (companheiro de cela) Zaca sendo torturado uma noite inteira – arrancaram as unhas dele, quebraram a canela, furaram de cigarro. Virei meio um bandido, fiquei cheio de cordão e queria invadir o Palácio Guanabara, tomar o Rio de Janeiro de bazuca. Sim, eu tive essa vontade”.

Mas bandido, como assim? “Não, não pratiquei crime nenhum a não ser ir para os morros. A prisão foi a porta para o infinito, entrei dentro desse mundo a partir dali. Era uma coisa que eu repudiava, mas é a faculdade do crime, né?”

Foi um divisor de águas também para o músico, que encerrava ali a era descontraída de Cena de Cinema e Décadence avec Elegance. “Me tornei um exu para certas pessoas, a garotada em shows me jogava seringa, garrote, papelote. Era angustiante, por um lado havia uma perseguição política, por outro eu me lembrava de Jimi Hendrix e achava que não era esse o viés. Foi uma época muito difícil.”

E se Lobão fosse hoje mais uma vez se desconstruir, quem mereceria elogios daquele que costuma só bombardear? Será que Lobão consegue elogiar? Ele tenta, cita poucos de sua própria geração – Ultraje a Rigor, Ira!. Elogia os músicos independentes. Pesca um ou outro político, sempre do PT. “Mas não acho que o PT no governo está legal, não. Bom, mas aí já estou pichando novamente…” (risos).

Finca pé no MST: “É a instituição que maior representatividade tem lá fora. Isso, sim, me causa orgulho”. Passa por mangue bit, rap carioca, Erasmo Carlos, Toni Tornado (“alô, Toni Tornado, temos que fazer um disco!”), Sidney Magal, Amado Batista… “Se a gente puxa, vai aparecendo gente…” Abre exceção para o (ex-) desafeto Gil (“ele não tem verba nenhuma, mas tem uma equipe sensacional, que está definitivamente a fim de fazer alguma coisa pela cultura”). “Você vê, já temos bastante coisa…”

E chega à revelação bombástica, sobre ex-alvos favoritos do homem-bomba no passado: “Taí, eu gosto dos Titãs, não vou dizer que não. Andávamos muito juntos no início dos anos 80. Gosto deles todos, são meus irmãos, com todas as discordâncias. Acho que tá legal, né?”

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